• Sonuç bulunamadı

2.4. FAIR PLAY

2.4.2. Fair Play‟in Tarihsel GeliĢimi

Os questionamentos da teoria pedagógica, sistematizados pelos professores pesquisadores indicados no item anterior deste estudo, apresentaram rumos para entender as práticas pedagógicas provindas das organizações dos movimentos sociais e dos vínculos entre trabalho e educação, como constitutivas do processo educativo escolar, assim nomeado porque assume que as práticas que se processam na ação educativa escolar convergem para o entendimento de que os seres humanos se constituem, se educam, se formam. Por isso, essa teoria pedagógica escolar assume que o(a) educando(a) é uma pessoa que se constrói na sua individualidade social devido a sua inserção na dinâmica das práticas, do trabalho, da vida ativa. O(a) educando(a) inserido(a) na dinâmica de práticas socioculturais constrói a si, enquanto indivíduo e participa da construção de sociabilidades.

O indivíduo em sua natureza singular e social constitui-se a partir do desenvolvimento de faculdades que lhe são inerentes enquanto ser humano. No presente estudo, que pretende avançar na compreensão da teoria pedagógica que assume o processo educativo escolar como seu objeto de ação, de que forma entender a construção do indivíduo a partir de sua inserção em práticas socioculturais? No processo educativo escolar, na inserção das atividades escolares, de que forma a corporeidade, a sensibilidade e as forças intelectuais são vivenciadas e experienciadas?

As discussões dos professores pesquisadores de didática apontaram para a percepção de que, na vivência e na experiência ocorridas na inserção do fazer, do agir, do intervir, as pessoas se vêem construindo a si próprias enquanto indivíduos sociais singulares e, também, construindo e elaborando conhecimentos, não sendo apenas meras consumidoras de conhecimentos já produzidos.

A vivência e a experiência permite que o indivíduo enquanto um sujeito que se constrói nas práticas dos movimentos sociais e do mundo do trabalho entre com sua corporeidade, com sua sensibilidade e com suas forças intelectuais, ou seja, as vivências e as experiências nas práticas das organizações dos movimentos sociais e

21 do trabalho produtivo só são possíveis pela relação que se dá a partir do corpo, dos sentidos e das forças intelectuais que se processam no indivíduo que está em atividade interventiva com o social e com as coisas.

No item anterior desta introdução tentei mostrar como a didática vem revendo seu campo nas últimas décadas, como esse processo vai se configurando na medida em que se abre para o movimento social mais amplo. Pretendo, em meu estudo mostrar que as dimensões incorporadas têm uma história mais longa, vêm sendo constituídas a partir de um momento sócio-histórico que marcou as sociedades ocidentais no rumo tomado nos últimos séculos. Será que essa sensibilidade da didática para com os processos, as práticas, o trabalho, na formação dos indivíduos não a aproximaria de uma das características da teoria pedagógica moderna? O que pretendo é trazer elementos para configurar essas sensibilidades das últimas décadas a partir de um contexto sociocultural mais amplo, não referindo apenas as influências posturais de um momento do contexto social brasileiro sobre o pensamento pedagógico.

A hipótese que levanto é de que essas sensibilidades da didática para com os processos constitutivos dos seres humanos e especificamente com o peso das práticas, da vida ativa, do trabalho, da intervenção sejam algumas das características mais destacadas na origem da moderna teoria pedagógica. Tentar mostrar as sensibilidades da didática nas últimas décadas com essa construção sócio-histórica pode ser significativo para o encontro da teoria pedagógica com suas raízes.

Indo à história da educação, encontra-se nos seus registros, a citação de momentos em que os seres humanos se inseriram em práticas sociais e culturais que se diferenciaram de vivências e experiências que as precederam. (Manacorda, 1989)

Entre os séculos XVI e XVII aparece um desses momentos que marcam a teoria da educação e da cultura modernas. O avanço das construções materiais, em relação aos períodos anteriores, a recolocação de Deus no mundo das coisas e das idéas, a ênfase no indivíduo constituído de corpo, sentidos e forças intelectuais e a construção de novas sociabilidades são anúncios de algumas das práticas socioculturais que se fizeram presentes naquele contexto sócio-histórico.

Com uma vontade firme de alguns movimentos sociais e de alguns pensadores e cientistas para transformar as regras do pensamento escolástico, na busca e discussão para encontrar utilidades para além do mundo da observação, da contemplação e da especulação, uma tendência de práticas aponta novos aspectos a serem considerados na formação humana.

“Es a los hombres, y es al mundo de los hombres, a quien corresponde tomar las riendas, asumir las responsabilidades del processo histórico que los construye y en el que se construeyen. (Lerena, 1983, p. 204)

Tomando-se esse momento, o início da modernidade, como uma experiência que a humanidade vivenciou em termos de recolocação de novos rumos para a construção dos homens e mulheres, pergunto: que especificidades foram centradas para a formação do indivíduo na construção de novas sociabilidades?

Em todo momento de redirecionamento de rumos para a construção do ser humano, necessário à existência de uma determinada época, teorias pedagógicas, sejam elas sistematizadas ou não, constituem-se para orientar a construção das pessoas.

Entre as teorias pedagógicas que se elaboraram no início da modernidade, encontra- se a de Comênio19. A obra20 de Comênio tem, em seu bojo, uma das teorias pedagógicas que se sistematiza e que se divulga no campo da educação escolar. Oliveira (1995) diz que a Didáctica Magna, escrita e publicada no século XVII, é

19

Jan Amós Komenský (Comenius: 1592 - 1670). Nasceu sob a religiosidade, de cunho cristão, praticada pelos Irmãos Morávios. Torna-se órfão de pais e irmãos aos 12 anos. Entre os 13 e 14 anos aprende os rudimentos de leitura, escrita, cálculo e catecismo religioso na aldeia de Stranznice (Boêmia). Aos 16 anos matricula-se na escola latina de Prerov (Nação Tcheca) para aprender o latim, a gramática, a retórica e a dialética (as artes liberais). Em 1611 começa os estudos de teologia na Faculdade calvinista de Herborn (Alemanha). Na Universidade de Heidelberg aperfeiçoa os seus conhecimentos de astronomia e matemática. Torna-se mestre, pastor, escritor e colaborador de reformas educacionais na Inglaterra (1641); Suécia (1642); Hungria (1651). (Covello, 1991; Gomes, 1966)

20

Na obra de Comênio encontram-se trabalhos escritos, relacionados ao estudo das línguas, da física, da metodologia e da educação escolar, da prática religiosa, da reforma das escolas. Entre elas: Gramática

para facilitar o estudo do latim, O labirinto do mundo e o paraíso do coração (1623), Didática tcheca (1627 - 1632), mais tarde traduzida para o latim sendo denominada Didáctica Magna (1657), Pampaedia

(escrita por volta de 1645), Novíssimo método das línguas (1647), O mundo ilustrado (escrito entre 1651 e 1655), Dos aflitos, O anjo da paz, A arte da pregação, Normas para a boa organização das escolas,

Consulta universal sobre o melhoramento dos negócios humanos, Caminho das Luzes (1668). (Covello,

23 considerada um “marco significativo no processo de sistematização da didática como área de conhecimento” ou como “teoria pedagógica”. (Oliveira, 1995, p. 83 - 84)

A Didáctica Magna21 é um marco significativo não só porque inicia a sistematização da didática enquanto área de conhecimento, mas também porque, enquanto teoria pedagógica, traz em seus fundamentos a aliança entre o estudo do indivíduo e o estudo do mundo das coisas. Essa obra que inaugura uma sistematização da teoria pedagógica escolar moderna, estabelece uma aproximação entre pensar a formação do ser humano na relação com as coisas e pensar a produção das coisas na formação do indivíduo.

O anúncio das faculdades da condição humana corpo, sentidos, engenho, memória, tomadas em consideração para a formação dos homens e mulheres, é possível devido à inserção dos seres humanos em práticas socioculturais. Em que práticas presentes nos séculos XVI e XVII é possível perceber essa ênfase dada à construção das pessoas ?

Essas são as questões introdutórias que permearão a construção deste estudo, ou seja, levando em consideração que uma teoria pedagógica se constitui, por um lado, observando o entorno, as circunstâncias, o meio sociocultural em que os humanos se encontram e, por outro lado, tentando pensar e dar um rumo, uma direção ou uma luminosidade nova para as práticas que formam as pessoas, em que contexto se encontra Comênio e que rumos sua teoria pedagógica traçou no que toca a formação de pessoas? Vejamos em que contexto vai se configurando a pedagogia moderna tal como expressa no pensamento comeniano.

21 Segundo Gomes (1966), “... o primeiro tratado sistemático de pedagogia, de didática e até de sociologia

escolar”. A Didáctica Magna foi iniciada na Boêmia em 1627, terminada em Leszno (1642) e impressa como primeira parte da Didactica Opera Omnia, em 1657. (Gomes, 1966, p. 32 - 33)

1 – A complexidade do contexto sociocultural nos primórdios da modernidade