ORTA GELİR TUZAĞINDAN ÇIKIŞTA TÜRKİYE’DEKİ KAMU TEŞVİK POLİTİKALARI BAĞLAMINDA BİR MODEL ÖNERİSİ
4.1. Kamu Teşviklerinin Genel Görünümü
4.1.2. Kurumlar Tarafından Verilen Destekler
4.1.2.3. Türkiye Bilimsel ve Teknolojik Araştırma Kurumu (TÜBİTAK) Tarafından Sağlanan Destekler
Primeiramente, abordaremos o conjunto de encadeamentos evocados na construção do sentido de cada discurso, agrupando-os segundo o tipo de relação que mantiveram entre si: o de reciprocidade e o de conversão. Tratemos então dos quatro discursos pautados no primeiro: a publicidade da
sopa Sadia, a tira de Calvin, Educação e cidadania e Correspondência.
A publicidade da sopa Sadia enfoca a existência de sopas que não são da marca, ressaltando sua falta de qualidade. O locutor propõe ao alocutário essa possibilidade por meio do enunciado ―Se você enxergar o fundo do prato, a sopa não é Sadia.‖ Dessa forma, produz a norma que conduz ao entendimento de que a sopa da marca Sadia não permite ver o fundo do prato por sua consistência, seu conteúdo e, portanto, sua qualidade. O discurso que remete a sopas de outras marcas expressa o aspecto neg-A DC neg-B, enquanto o que caracteriza, do ponto de vista do vendedor do produto, a qualidade da sopa Sadia, expressa A DC B. Como o suporte é negado, a
norma proposta pelo locutor é negar também o aporte, o que equivale a dizer que a qualidade está vinculada apenas à marca Sadia. O locutor poderia ter optado por ressaltar diretamente essa qualidade, mas pela comparação consegue mostrar que é o consumidor que deve fazer a opção correta, já que existem outras marcas no mercado.
A relação de reciprocidade é a mesma na tira que mostra o diálogo entre Calvin e seu pai. Nessa análise, entretanto, intervém outra questão importante – a temporal. Tal como na análise anterior, a argumentação que Calvin deseja impor ao pai, no momento da enunciação, remete ao aspecto A DC B (ser criança DC andar na cacunda), mas ele o faz por meio da assimilação ao pai do discurso hipotético futuro que corresponde ao aspecto recíproco neg-A DC
neg-B (neg-ser criança DC neg-andar na cacunda). O locutor Calvin, desse
modo, apresenta-se como alguém que compreende a postura do pai, mas o faz mudar de ideia por meio do apontamento da possibilidade de eles não poderem brincar mais no futuro, ou seja, que constitui sua forma de argumentar. O fato de Calvin vir a deixar de ser criança no futuro, convoca o pai a brincar com ele enquanto ele ainda é criança.
No discurso Educação e cidadania, o locutor constrói sua visão acerca do tema comparando-o a outros temas e a outros discursos. Ele atribui valor ao conceito a partir de sua comparação com o que não é a educação para a cidadania, e sim uma educação para o êxito individual. Sua forma de argumentar apresenta-o como alguém que aceita outras opiniões, dialoga com elas, faz concessões. Entretanto, esse é o meio pelo qual ele consegue impor destaque à posição que defende. Neste caso, ele apresenta-se como concordando que possa existir algum tipo de educação que não considere a relevância social de suas ações (neg-A DC neg-B), mas em se tratando de uma educação voltada para a cidadania isso não é admissível, o que pode ser expresso pelo aspecto (A DC B).
Nesses três casos, percebemos que a argumentação leva a uma noção de opção, que chega a ser, até mesmo, categórica. Em outras palavras, há
uma oposição baseada entre dois aspectos, que podemos explicitar como algo do tipo: é X, ou então, é exatamente o contrário de X.
é X é o oposto de X
sopa de qualidade sopa sem qualidade
possibilidade de brincadeira impossibilidade de brincadeira
ser educação para a cidadania não ser educação para a cidadania
Na publicidade, o consumidor tem como escolher entre uma sopa de qualidade em comparação a outras que não o são. Na tira, o pai de Calvin (alocutário1) resolve brincar com o filho no presente justamente por não poder mais brincar com ele no futuro. No discurso Educação para a cidadania, o leitor se depara com o que deve ser uma educação para a cidadania em confronto com modelos que dão conta apenas do plano individual. Dessa forma, o locutor não abre a possibilidade de um novo bloco, que substitua os anteriores e, ao mesmo tempo, não permite que seja evocado outro encadeamento do mesmo bloco em sua argumentação. Exemplificamos: para vender a sopa Sadia, o anunciante não poderia apresentá-la como um alimento sem qualidade, mas mesmo assim, associado à marca Sadia (neg-A PT B) e nem mesmo apresentar outra sopa (que não a Sadia) que tivesse qualidade (A PT neg-
Sadia). Essa observação é válida para os outros dois discursos, com suas
adequações.
No caso do discurso 5, Correspondência, o locutor leva o alocutário a conhecer o brasileiro e o alemão também por meio da comparação entre a vida dos dois que é, desta vez, apresentada pelo relato do conteúdo de suas cartas. São dois locutores (brasileiro e o alemão) inseridos no discurso do locutor 1 (narrador), o qual parece ter outro status. Este dá existência aos outros dois, fazendo-os falar e é a partir disso que constrói sua argumentação. O brasileiro é mostrado como alguém com uma vida agitada, repleta de problemas e que,
apesar disso, considera que vai tudo bem. Já do alemão temos a imagem de uma pessoa com a vida pacata, tranquila. Através dessa comparação, o locutor chega ao ponto mais importante que é a ironia, possível de ser criada com base nos relatos das correspondências. O brasileiro, que nos é apresentado pelo locutor como alguém que vive em meio a uma patologia social, mas não tem consciência de sua condição (A PT neg-B). Já seu amigo alemão não vive tais problemas (provavelmente é isso que o locutor 1 deseja mostrar), mas os estuda (Neg-A PT B), algo que na visão do brasileiro é importante. A ironia, em sua própria constituição, contém a alteridade: opõe a voz do L1 e a do brasileiro, a quem ele atribui sua responsabilidade.
Os aspectos expressos por este discurso são também recíprocos, mas sua relação aparenta ser de outra ordem. Aqui, temos uma maior proximidade em relação aos demais encadeamentos que compõem o bloco, provavelmente por se tratar de dois modos de transgressão à norma por ele proposta. Não se pode transgredir algo, sem ter proposto anteriormente uma norma. Assim, a ironia final convoca a norma (A DC B, neg-A DC neg-B) para produzir seus efeitos.
Os demais discursos (Não vale o que está escrito e A incapacidade
de ser verdadeiro) têm sua argumentação baseada também no confronto,
entre diferentes vozes, mas elas opõem aspectos conversos do mesmo bloco semântico.
No primeiro, temos a construção de uma oposição entre o discurso relatado do presidente no momento de sua posse e do que o locutor chama de fatos quatro anos depois. Apesar da aparente neutralidade e objetividade do discurso, os dois são, do ponto de vista enunciativo e argumentativo adotado neste trabalho, de responsabilidade do locutor-jornalista. O que ele apresenta são fragmentos do discurso do presidente, extraídos do todo, e a sua visão da realidade, o modo como ele deseja apresentar os fatos. Ao discurso do presidente, visto como uma promessa para o futuro, ele atribui o aspecto (A DC
B), correspondente a prometer, portanto cumprir, e aos fatos, vistos como
cumprir. Os compromissos assumidos pelo presidente eram mostrados como algo que deveria ser honrado, mas passam a ser apresentados como promessas que não foram cumpridas. Essa compreensão poderia até levar o alocutário a uma interpretação negativa do presidente, visto como alguém que não cumpre o que fala. Esse entendimento parece secundário aqui, já que a posição defendida pelo locutor é o cumprimento do que é prometido. No discurso em questão, bem como em todos os outros analisados, uma questão se repete: há um locutor que dá voz a outros locutores e enunciadores e fala, apresenta seu ângulo de vista, por meio deles.
Em A incapacidade de ser verdadeiro, o sentido é construído pelo confronto entre o ponto de vista da mãe sobre seu filho e o do médico que o examina. A mãe o vê como alguém que inventa histórias, portanto, mente (A
DC B). Devido a isso cria a norma de que ele deve ser punido. Como o menino
é punido diversas vezes e não tem seu comportamento modificado, a mãe procura outra solução, levando-o ao médico. Este, por sua vez, argumenta que não há solução já que o menino é um caso de poesia. Assim, ele mostra-se concordando com inventar histórias, mas nega a idéia de mentira, (A PT neg-
B), introduzindo um novo bloco, um novo sentido.
Nesses dois casos de relação de conversão, temos a negação do aporte da argumentação e a mudança do conector, o que Carel e Ducrot (2005) afirmam ter uma estreita relação com a negação. Ao negar que o presidente tenha cumprido suas promessas, o locutor substitui a imagem de um presidente confiável pela de um enganador. Ao negar que o menino conta mentiras, o locutor (médico) pode construir outra visão sobre ele, a de um poeta. Em outras palavras, essa forma de relação, que optamos por expressar pelo confronto entre é X e não é X, mas Y pode levar à criação de um novo bloco semântico. É o que representamos no quadro abaixo:
é X não é X MAS Y
descumprimento
menino mentiroso menino não mentiroso mas poeta
Nesses casos, não só se nega o que é proposto por uma das vozes, como nos casos recíprocos, mas é introduzida uma nova visão, um novo sentido para o tema do discurso. Essas relações entre os encadeamentos permitem-nos refletir sobre o papel do articulador ―mas‖. Nestes dois casos ele liga duas proposições em que a primeira é negada a fim de introduzir uma nova perspectiva, o que nos remeteria ao seu uso como retificador, já discutido por Vogt (1989).37
São três os tipos de relações entre aspectos de um bloco semântico – a conversão, a reciprocidade e a transposição. Em nossa análise, não encontramos nenhuma relação de transposição na composição da estrutura correspondente à síntese argumentativa, o que não nos permite afirmar que essa relação não pode ser encontrada. A questão é algo que merece, a nosso ver, continuar a ser pensada mais adiante, com o prosseguimento das análises.