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Uma contribuição importante no polêmico tratamento da linguagem como ação situada reside na obra do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. O seu trabalho tem sido lido a partir de pelo menos três interpretações: a retórica, a normativa e a dos jogos, conforme Davis (1999) aponta.

Uma interpretação retórica das PhilosophicalInvestigations (1953) destaca o interesse do seu autor no melhor meio de desafiar o fundamento autonomista da lógica clássica, de questionar os modos tradicionais de ver a linguagem e, com isso, de desvincular sua audiência do modo filosófico, então canônico, de refletir sobre esse objeto. Assim, como que reagindo ao pensamento dominante no seu próprio tempo, o Wittgenstein retórico procurou livrar os teóricos das restrições que a academia impu- nha ao objeto linguagem. Ele também tentou livrá-los dos obstáculos geradores de ruídos e confusões na argumentação da descrição acadêmica do objeto. Essas tare- fas foram perseguidas através do questionamento do status da terminologia metalingüística, vista como obscurecedora da práxis dinâmica que caracteriza a lin- guagem. Cabe destacar, pois, a formulação, por parte do austríaco, de uma terapêuti- ca, a ser aplicada sobre o modo então dominante de tratar a linguagem.

O filósofo austríaco desafiou a visão segundo a qual a linguagem deve refe- rir-se a algo externo, independente ou autônomo a ela mesma. Com isso, ele expres- sou uma concepção não-objetivista sobre o que denominamos realidade ou sobre a configuração dos mundos de objetos. Além de questionar a visão de independência da linguagem diante de um mundo de objetos pré-dados, ele negou a validade de buscar- mos uma explanação do significado, olhando para a linguagem como algo deslocado das suas práticas de uso.

Wittgenstein dirigiu-se aos preconceitos, confusões e ilusões gramaticais de concepções lingüísticas então vigentes, focalizando abordagens rotineiras da lin- guagem. Segundo esse filósofo, operamos com uma hipótese preconceituosa de que os traços que um fenômeno parece ter constituem a essência desse fenômeno. Tal hipótese deriva da prática de tratarmos um método de análise ou descrição das coisas como algo que é tanto mais objetivista quanto mais for desvelador de uma realidade última das coisas.

Essa prática criticada pelo filósofo inclui-se no que Maturana (2001b, 1999k) denominou Caminho Explicativo da Objetividade sem Parênteses, de acordo com o qual o observador e o observar são fenômenos independentes e a existência do objeto observado precede o ato cognitivo de distinguir.

A confusão gramatical refere-se, pois, à incompreensão de que os predicados que atribuímos às coisas dizem respeito aos pressupostos teóricos e epistemológicos dos métodos que adotamos para descrever as coisas e não constituem traços intrínse- cos às coisas. A ilusão gramatical, por sua vez, diz respeito ao fato de que, enquanto pensamos que estamos investigando e obtendo informações ‘assépticas’, ‘objetivas’, sobre um fenômeno observado, efetivamente estamos atribuindo ao fenômeno alguns dos traços do modelo representacional usado: dizemos que o céu é vermelho porque olhamos para ele através de lentes vermelhas e não damos conta de tentar nos livra- mos delas.

A crítica de Wittgenstein aos ruídos e confusões na argumentação acadê- mica parece reagir a uma concepção segundo a qual o fazer acadêmico estaria em uma condição privilegiada no desvelamento das realidades essenciais. Parece, pois, uma reação a um realismo analítico, neokantiano, mencionado adiante, na Seção 3.1.1. Segundo esse realismo, os saberes válidos do mundo exterior são obtidos pela aplica- ção dos cânones lógico-empíricos da investigação científica.

Essa crítica de Wittgenstein ao realismo analítico encontra ecos também na formulação de Maturana (1999d: 81-82), segundo a qual o critério científico de valida- ção estabelecido pela comunidade acadêmica não é objetivo ou independente dos observadores que o estabelecem, sendo adequado para os membros que usam e aceitam o critério estabelecido por essa comunidade.

Wittgenstein examina a fonte de preconceitos lingüísticos, chamando-nos a atenção para reflexões danosas sobre a linguagem, sobre a adequação da interação conversacional, sobre o significado de compreendermos uma expressão. O filósofo discute os preconceitos observados na determinação do que são os significados e conceitos, na análise dos significados em atividades lingüísticas específicas e no exa- me de enunciados de senso comum.

Um preconceito gramatical consiste em pensar que os métodos canônicos de análise refletem as coisas como elas ‘realmente’ são e, por isso, refletem os fatos essenciais da linguagem. Argumentando contra o preconceito gramatical, Wittgenstein sinalizou uma alternativa aos modos então comuns de se analisar os usos das pala- vras e de lhes atribuir sentidos. Assim, em contrapartida aos modos preconceituosos ou dogmáticos da teorização lingüística, Wittgenstein formulou os jogos de linguagem, analisando-os como objetos de comparação de similaridades e dissimilaridades com relação a outros jogos de linguagem. Com isso ele procurou evitar a idéia preconcebi- da de que o modelo deve corresponder à realidade e apontou para a possibilidade de fornecermos explicações sobre o significado sem um apelo a afirmações categóricas relativamente a expressões lingüísticas deslocadas das práticas sócio-culturais nas quais ocorrem efetivamente.

De modo concomitante à recusa de tomar as explicações do mundo como espelhos da realidade, Wittgenstein sugere olharmos para a linguagem como uma ob- servação das nossas ações. Assim, ele mostra que é possível examinar os papéis das palavras que compõem os jogos; é possível examinar como o uso das palavras inte- gra-se com o agir dos participantes, mesmo os jogos sendo mais simples do que o todo complexo da linguagem humana.

Esse filósofo demonstra como atribuímos status semelhantes a nomes con- cretos e não-concretos – mesa, maçã; cinco, vermelho – apesar de fazermos coisas diferentes com eles. Assim, concebendo que os nomes concretos simbolizam objetos, analogamente estendemos esse método de representação aos nomes não-concretos. A terapêutica dos jogos de linguagem mostra que as palavras componentes dos jogos são ‘esclarecidas’ pela descrição dos modos como elas são usadas, sem uma redução a uma fórmula canônica reflexiva. Ao analisar um jogo de linguagem entre um pedreiro e seu assistente, o filósofo mostrou-nos que a interação entre os dois não se dá pelo conhecimento, por parte do assistente, de algo essencial que a palavra proferida pelo pedreiro significaria, mas em função do apontar do pedreiro naquele jogo específico.

A reflexão retórica de Wittgenstein mostra como uma teoria pode incorporar premissas tomadas por garantidas - os preconceitos gramaticais - e lançar mão da confusão entre o método de análise das coisas, as propriedades delas e a generaliza- ção das análises. A sua terapêutica advertiu: a linguagem não descreve uma essência

dos fenômenos; os traços que um fenômeno parece ter não constituem uma essência; os predicados que atribuímos aos fenômenos são traços que residem nos métodos usados para analisá-los e não nos fenômenos. Para um tratamento alternativo da linguagem ele sugeriu a consideração de uma heterogeneidade de práticas comportamentais que inte- gram ações lingüísticas, em contextos situacionais particulares.

A importância do Wittgenstein retórico não o livra de críticas relacionadas à implementação de uma investigação lingüística em termos não-autonomistas e não-ins- trumentalistas. Wittgenstein enfatiza a função ou uso da linguagem como uma alternativa para uma abordagem autonomista, tomando as palavras como ferramentas ou instru- mentos. Indagando-se sobre a natureza da cooperação inter-individual na linguagem, Harris (1980) avalia que Wittgenstein enfraquece sua crítica ao autonomismo quando não nega a sua possibilidade no interior de finalidades instrumentalistas. Para Harris, pois, o autonomismo deve ser visto como uma versão empobrecida do instrumentalismo. Essa discussão é importante nesta tese, uma vez que autonomismo e instrumentalismo são perspectivas não-condizentes com uma concepção que adoto, segundo a qual a fala-em-interação constitui a própria ação social, não sendo autônoma aos mundos de objetos, nem um instrumento para a construção de algo diferente dela própria. Com efei- to, a realidade é aqui concebida como constituída ela própria enquanto linguagem. Por sua vez, sendo o próprio objeto, “a linguagem sofre o impacto direto do trabalho que é feito nela ou sobre ela” (Rajagopalan, 2002: 104).

2.3 Eventos de Fala e Sistema Lingüístico: A Tensão Firthiana entre a Ortodoxia

Benzer Belgeler