lingüísticas desse objeto constituem um tópico importante em reflexões sobre a lin- guagem, conforme podemos ver em diversas abordagens do tema (Browlin & Stromberg, 1997; Duranti, 2000b; 2000c; Gumperz, 1996; Maturana, 1988a, 1999k; Rorty, 1994; Rosch, 1987; Smith, 1996). Essas relações sugerem uma tomada de posição quanto a proposições sobre a relatividade e o determinismo lingüísticos, ou seja, quanto ao papel atribuído às línguas na produção de diferentes descrições dos mundos e/ou de diferentes modos de descrevermos os mundos. Franz Boas encarna uma referência importante nessas reflexões.
O conjunto conceitual de Boas dialoga com, refuta, expande elaborações de pensadores diversos. Ele considerou a idéia de Immanuel Kant de que categorias mentais são impostas pela experiência sensível. Do neokantismo, elaborou o pensa- mento de que a diversidade entre as categorias mentais dos povos está relacionada à sua cultura, sua raça, sua nação, com diferentes conseqüências nas experiências e expectativas desses povos. Do neokantiano Herder, Boas lançou mão da idéia de que cada língua tem uma irredutível individualidade espiritual (cultural). Ao mesmo tempo em que desenvolveu a idéia de Wilhelm Humboldt de que em cada língua somente expressamos uma parte do pensamento completo, Boas rejeitou a sua visão de que algumas línguas são mais bem sucedidas do que outras. Ele considerou, ainda, a relatividade e o universalismo, de Humboldt. Assim, para a relatividade boasiana, a língua é um quadro apriorístico de cognição, que impõe uma organização sobre o fluxo de sensações apresentadas aos nossos sentidos. Como cada língua difere da outra e o modo como as pessoas experimentam a realidade é determinado pela língua, a forma que resulta da experiência do mundo é diferente de uma língua para outra. Já para o seu universalismo – a suposta unidade psíquica da humanidade – Boas susten- ta a idéia de que o conjunto de habilidades individuais não varia entre culturas, de modo que todas as línguas partilham propriedades universais e devem expressar al- gumas noções gramaticais universais (Foley, 1997: 192-214).
Boas postulou que diferenças aparentes na sofisticação lingüística não re- fletem diferenças cognitivas, apenas ênfases diferentes nas culturas. Na sua acepção, cognição diz respeito a uma capacidade biológica, ao conhecimento tomado em ter-
mos de um funcionamento neurológico, em contraste com a cognição definida pela Bio- logia do Conhecer como ação efetiva, em termos das atividades relacionais dos seres humanos em um meio.
No escopo teórico da Biologia do Conhecer, a explicação da linguagem, da cognição e da cultura enquanto fenômenos relacionais contrapõe-se a uma con- sideração de uma língua como um quadro apriorístico classificatório. Nessa teoria, as línguas não são confundidas com o nosso aparato biológico, sendo descritas como aquilo que um observador pode distinguir como elementos que emergem na interação discursiva.
Os elementos lingüísticos são estabilizados nas histórias e nas ferramentas produzidas em diversas redes de conversações – como, por exemplo, nas nossas histórias de conversadores e na escrita – e usados de modos dinâmicos nas práticas sócio-lingüísticas e culturais efetivas, quando são negociados, ajustados, reformulados, em reiterações de interações discursivas, como ocorre inclusive com a escrita.
A explicação da linguagem, da cognição e da cultura proposta pela Biologia do Conhecer também se contrapõe a uma consideração de que os quadros lingüístico- gramaticais determinam, por si sós, a experiência. Essa teoria compreende a experi- ência como os atos cognitivos básicos de distinguir e configurar objetos em um meio, nas dinâmicas comportamentais dos seres que co-constroem domínios de consenso e objetos consensuais.
O caráter relacional das línguas e das culturas – vistas pela Biologia do Conhecer como padrões de ação comunicativa que se estabilizam juntamente com os sistemas sociais, ao longo de gerações – coaduna-se com a postulação boasiana de que as diferenças entre línguas resultam de ênfases diferentes nas culturas. Contudo, Boas transita do domínio do comportamento para o domínio fisiológico ao utilizar o argumento da variabilidade cultural como gerador da variabilidade lingüística para afir- mar uma similitude ou um universalismo da cognição, entendida no quadro boasiano como um funcionamento neurológico. Com efeito, no quadro teórico da Biologia do Conhecer, a cognição, ao mesmo tempo em que se correlaciona com a história filogenética das espécies, não ocorre como um padrão universal, sendo um fenômeno relacional e, portanto, situado, correlacionado às redes fechadas de conversações dos diversos agrupamentos humanos, aos padrões de ações interacionais de grupos es- pecíficos, em uma palavra, à história cultural dos grupos sociais. Um tratamento da aprendizagem como uma atividade social e culturalmente situada, em consonância com o mecanismo de cognição da Biologia do Conhecer, pode ser vista em Sinha (1999).
Como vimos anteriormente, no escopo da Biologia do Conhecer, embora se postule uma relação gerativa entre os domínios comportamental e fisiológico, os fenô- menos e processos de cada um não são tratados como pertencendo ao outro. Nessa teoria, a relação gerativa entre a fisiologia (cognição boasiana) e o comportamento (língua
e cultura) é descrita de um modo menos direto e biunívoco do que a postulação de Boas parece sugerir.
O fato de um observador ver sujeitos coordenando suas coordenações de ações em situações reais de conversa não se confunde com o funcionamento do nosso aparelho sensorial, do nosso espaço sináptico. O que um observador vê e descreve como comunicação é algo que ocorre no espaço relacional desses sujeitos, inclusive do observador. Simultaneamente ao fenômeno relacional ocor- rem fenômenos fisiológicos. Todavia, a coerência do acoplamento estrutural que um observador vê como coerência de conduta não implica que os sistemas nervo- sos estejam trocando seus padrões sinápticos ou que suas sinapses sejam idênti- cas, embora esses sistemas nervosos estejam gerando em si mesmos mudanças desencadeadas pelas perturbações, pelas relações particulares do organismo com o meio.
Ao desencadearem mudanças estruturais, mudando o curso das mu- danças que ocorrem continuamente na dinâmica fisiológica do organismo, as per- turbações podem fazê-lo de modos coerentes com outras configurações de mu- danças de estado que o sistema nervoso experimentou. A coerência de conduta que um observador experimenta decorre dessa coerência entre mudanças de estado fisiológico. A origem dessa perturbação, no entanto, não importa para o sistema nervoso. O que conta é que ela movimente certa configuração de mu- dança de estado.
Para a Biologia do Conhecer, a cognição, como de resto todos os fenôme- nos relacionais que constituímos no linguajar, configura-se de acordo com o modo como os seres humanos participam do fluxo de suas interações. O caráter histórico desses fenômenos não autoriza a postulação de que os hábitos lingüísticos predis- põem certas escolhas de interpretação, uma vez que, na efetividade desses fenôme- nos, as disposições corporais, juntamente com outras contingências interacionais atu- am na configuração dos nossos mundos de objetos.
No âmbito da Biologia do Conhecer nenhum aspecto fisiológico ou relacional isolado determina a complexidade da fenomenologia relacional humana. Postula-se um determinismo estrutural, ou seja, a descrição da operação dos seres vivos de acor- do com o jogo das propriedades dos componentes desses sistemas. Mesmo assim, essa concepção não descreve a estrutura dos organismos em termos de uma determi- nação genética, por exemplo.
A Biologia do Conhecer trata ambiente e genes como constitutivos dos se- res vivos. A estrutura dos organismos é concebida como decorrente da deriva de histó- rias filogenéticas e ontogenéticas. Desse modo, assim como os fenômenos relacionais, o nosso corpo e suas possibilidades estruturais surgem como uma construção social, cultural, a partir do entrelaçamento de histórias filogenéticas e ontogenéticas. Como
observei anteriormente, concepções semelhantes, sobre a relação genes-cultura podem ser vistas em Oyama (2000) e Tomasello (2003).
Em decorrência desse modo inter-relacional de descrever a fenomenologia da conduta humana, devemos considerar que uma ou várias línguas fazem parte do complexo conjunto de fatores que atuam na formulação linguajeira da experiência e nas interpretações da experiência e da linguagem. Contudo, fatores relacionados à contingencialidade das atividades interacionais são legitimamente integrados pela te- oria de Maturana e assumidos na concepção de linguagem que ponho em movimento neste trabalho.
Para a Biologia do Conhecer, os fenômenos relacionais, dentre eles a lin- guagem, a cognição e a cultura, configuram-se de acordo com o modo como os seres humanos participam do fluxo de suas interações. Tal modo de conceber esses fenô- menos desautoriza a postulação de que os hábitos lingüísticos isoladamente predis- põem certas escolhas interpretativas.
1.8 Linguagem, Cognição e Cultura: Fenômenos Sistêmicos e Dinâmicos