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Os objetos que um observador pode distinguir como o significado semânti- co das interações, a gramática envolvida nelas, os símbolos, as palavras, o léxico emergem do processo e esforço de uma determinada coordenação de coordenação de ações entre indivíduos, em um determinado domínio de ações discursivas, de ma- neira co-ocorrente com correlações de atividades da rede neuronal.

Os mencionados objetos constituem distinções descritas por um observador, configuradas conjuntamente, nos fluxos recorrentes de coordenações de coordenações de ações. É necessário, portanto, que ocorra um determinado fluxo de coordenações de coordenações de ações para surgir uma maneira específica de coordenação regular de ação que vai atender a um determinado fluxo de coordenação de coordenação de ações. Esses objetos exibem uma estabilidade dinâmica: nem são absolutamente instáveis nem absolutamente fixos. São contingentes com as ações e as emoções das interações particulares, sendo sensíveis à variabilidade decorrente das culturas ou padrões de ações interacionais. Eles são configurados na concatenação processual de ações, se estabilizam na recursividade das coordenações de coordenações de ações consensuais e das distinções de distinções de objetos e sentidos e emergem (re)formulados, na interação discursiva, em um campo pragmático.

O que distinguimos como o significado dos objetos trazidos à mão nas nossas interações não está nas palavras nem nas funções gramaticais. Esse significado é constituído historicamente, nos fluxos dessas interações, sendo especificado momomento a momento, pelos participantes das atividades interacionais, ou a posteriori, por um analista dessas atividades. Em um caso ou no outro, tal especificação é elaborada e reelaborada, em conformidade com o fluir interacional dos interlocutores e com as conseqüências desse fluir. Mondada (1998b, 2000c, 2002, 2003a, 2003b, 2004, 2005d) analisa conversacionalmente esse processo como uma referenciação, fenômeno a que me reporto em momentos diversos deste trabalho.

Ao atribuir equivalências entre condutas, em um espaço relacional, um obser- vador vê símbolos ou equivalências simbólicas entre essas condutas (Maturana, 1999e: 117-118). Nessa operação, uma dessas equivalências passa a ser símbolo da outra, sem que o observador se confunda. A simbolização consiste, pois, na conexão de duas situações diferentes, de modo que uma substitui a outra no curso do conversar daquele ou daqueles que estabeleceram a relação em que uma situação substitui a outra.

Cada uma das equivalências estipuladas no processo de simbolização gera mudanças de estado no sistema nervoso, mas esse sistema não distingue a origem de suas mudanças de estado e muda frente às mesmas configurações de mudanças de relações de atividade, qualquer que seja o contexto em que essas mudanças surjam. De acordo com essa descrição, o sistema nervoso não opera com sím- bolos, apenas gera mudanças de relações de atividades, movido por mudanças de relações de atividades. Para o sistema nervoso as equivalências simbólicas, o erro ou a ilusão não existem. Essas distinções estão no espaço relacional dos organis- mos, de acordo com o modo como participam no fluxo de interações lingüísticas do observador.

a) As diferentes palavras que empregamos no âmbito humano e que aplicamos não só em nosso viver, mas também ao de muitos outros animais, correspondem a distintas dimensões que distinguimos no espaço relacional do animal às quais as aplicamos, e revelam, portan- to, nossos diferentes modos de viver nossa experiência relacional. As palavras são nós de coordenações de coordenações de conduta, nas redes de conversações de que participam, e têm sentido ou significa- do nas condutas e emoções que coordenam como elementos da lin- guagem, de modo que diferentes palavras coordenam diferentes con- dutas e emoções. Por isso nunca dá no mesmo o uso de uma palavra em uma ou outra cultura e se se quer conhecer o significado de uma palavra, tem-se que olhar as condutas e emoções que ela coordena, assim como o domínio em que tais relações ocorrem. [... Deste modo]: b) todas as dimensões do espaço ou domínio relacional do organismo são vividas de acordo com o modo de viver do organismo. Assim nós, seres que vivemos no conversar, vivemos todas as dimensões de nos- so espaço relacional nas conversações e como conversações; c) todas as formas de viver as diferentes dimensões do espaço relacional de um organismo se estabilizam e se conservam ou mudam de acordo com o modo de viver do organismo. Assim, em nosso caso, as diferentes conversações constituem nossas diferentes formas de viver nosso espaço relacional, se estabilizam como formas culturais segundo a dinâmica conservadora das conversações das comunida- des a que pertencemos e mudam segundo a dinâmica de mudança cultural dessas comunidades; e, por último,

d) todas as formas de viver as diferentes dimensões do espaço de relação do organismo afetam todo o viver nele, ainda que o façam de diferentes maneiras, porque constitutivamente se entrelaçam na mo- dulação da estrutura do organismo e seu sistema nervoso. Assim, em nós, as diferentes conversações que constituem nossos diferentes modos de viver as diferentes dimensões de nosso espaço relacional como Homo sapiens sapiens se entrelaçam na modulação do operar

de nosso sistema nervoso e de nossa totalidade orgânica [... ], de modo que todo nosso viver está sempre penetrado por um sentido que surge das diferentes conversações das quais participamos.

De acordo com a concepção de Maturana, as palavras correspondem a dimensões que distinguimos nos nossos espaços relacionais. Uma noção é gerada como uma abstração de uma experiência. Uma palavra conota uma abstração do modo como distinguimos a abstração que gerou a noção. Uma palavra é uma distinção de segunda ordem. Desenvolvendo essa compreensão, Maturana (1995) descreve a no- ção de tempo, por exemplo, não como uma entidade física, independente dos nossos modos de vida. Conforme sua descrição, o tempo surge como uma abstração das experiências do observador. A noção de tempo é gerada como uma abstração da ocorrência de processos em seqüência. A palavra tempo conota, pois, uma abstração do modo como distinguimos essa abstração, nas coerências de nossas experiências. Desse modo, considerando que cada domínio de ação ocorre com a sua particular

dinâmica de processos e, conseqüentemente, com a sua própria dinâmica de tempo, podemos considerar que há tantos sentidos para a palavra tempo quantas formas há de abstrair as regularidades das experiências de processos e seqüências de proces- sos. Neste trabalho, nas Seções 6.4.2 e 6.4.8, analiso construções particulares da noção de tempo, em vivências observadas na comunidade dos Tipis.

1.7 Linguagem, Cognição e Cultura vs Relatividade e Determinismo Lingüísticos

Benzer Belgeler