Cem Deniz Kut
TÜRKİYE VE DOĞAL GAZ ENERJİ GÜVENLİĞİ
A temática feminina vem povoando durante séculos o imaginário das produções literárias. Do cristianismo de Santo Agostinho à antiguidade clássica de Odisseu, o feminino é motivo de interesses e questionamentos, entre escritores e pesquisadores, em virtude da
mulher oscilar entre os modelos de Eva20, a corruptora, emblema do pecado, da perdição, da tentação, da desgraça masculina, desviando o homem de seu caminho e deveres; e Maria21, a co-redentora, a mãe de Cristo, a bendita entre as mulheres, a representante da salvação, da virtude, do amor fiel e absoluto. Na literatura de cordel não é diferente, estudos como de Oliveira (1981), revelam o interesse dos cordelistas por esse universo temático.
Em nosso caso, traremos o assunto não de modo abrangente como o fez Oliveira (op.cit), estudiosa da representação da mulher nos cordéis, mas de forma mais específica, voltada para o cangaço, ou melhor, para a cangaceira e o modo como sua presença contribuiu para a visão humanizada do cangaceiro, defendida por estudiosos e escritores como Maciel (1987), Peloso (1996), e Dantas (1993) e a mudança de alguns hábitos do bando, após a incorporação delas.
Segundo Ferreira Neto (2010) até meados de 1930, não existia nos bandos a presença de mulheres, pois estas eram vistas como objeto de fraqueza dos homens e empecilho para as fugas, provocando, inclusive, certa sedentarização entre os cangaceiros. Segundo Ferreira
Neto (2010. p.83), “[...] Depois de 1930, Lampião, por exemplo, habituou-se a determinadas zonas sertanejas, principalmente na ribeira do São Francisco, terra natal de Maria Déia”.
Além disso, o autor evidencia que as mulheres não eram aceitas nos grupos por motivos religiosos. Conforme Ferreira Neto, “[...] supersticiosos ao extremo, alguns cangaceiros achavam que a relação sexual neutralizaria o poder de muitas rezas e orações fortes, aprendidas durante anos e reverenciadas com fervor pelos seus possuidores” (2010, p. 82-83). Apesar de toda crendice, Lampião introduziu as mulheres no cangaço na década de
trinta quando “casou-se” com Maria Bonita, na Bahia. Bem como Maria Bonita, há outras
cangaceiras conhecidas e versadas entre os cordelistas. Damos destaque a Sila, mulher de José Sereno e irmã de Mergulhão, Inacinha, esposa do cangaceiro Gato e Dadá, companheira de
Corisco. A introdução das mulheres nos bandos aparece nos versos do cordel: “Lampião, o
capitão do cangaço”, escrito por Ferreira (2010). Observemos: Mulheres e cangaceiros
Fizeram longa união, Portanto Maria Bonita Na vida de Lampião, Na história do cangaço Não constitui exceção Corisco teve Dadá
20
Assim como Eva, representam esse universo feminino pecaminoso, transgressor: Circe, Calipso, Pandora e Lilith.
Mulher de amor vibrante, Jararaca teve esposa, Dois de ouro teve amante, Cruz vermelha, companheira, Roque e assim por diante. Sendo Maria bonita Prontamente apelidada Por rainha do cangaço Também cognominada Era por todos querida E com temor respeitada.
Em outro cordel intitulado: “Maria Bonita, a eleita do rei”, o autor destaca o enlace
amoroso entre Lampião e sua esposa.
[...]
Assim foi o grande amor Do capitão Virgulino Ao receber de Maria Um olhar quase divino Uniram-se duas vidas Em torno de um só destino Quando Maria deixou Seu marido sapateiro Para seguir Lampião, O temido bandoleiro, Trocou um vão sentimento Por um amor verdadeiro [...]
Maria Joaquina dizia Insistentemente à filha: - O Rei do cangaço é A oitava maravilha – Mostrando que a filha tinha Que seguir a mesma trilha...
Os versos evidenciam uma visão romântica em torno da vivência no cangaço, favorecendo uma idealização imagética dos cangaceiros, pois destacam a entrada da mulher no cangaço por vontade própria, mostrando, inclusive, o aconselhamento maternal a favor daquele meio de vida. Embora perigosa, a vida no cangaço representava uma experiência excepcional, simbolizando, por exemplo, uma liberdade conquistada pela possibilidade de vivenciarem inúmeras aventuras, longe do cotidiano comum e monótono que um casamento, nos moldes patriarcais oferecia.
Segundo Pericás (2010), “As fugas e os “sequestros” de noivas, muitas vezes com o consentimento da mulher, ocorriam até mesmo entre membros da elite” (2010. p. 43). É o
caso de Maria Déia, a Maria Bonita, filha de fazendeiro, conforme mostram os versos a seguir, retirados do cordel anteriormente citado:
[...]
Maria Bonita filha De pequeno fazendeiro Nunca soube o que foi a falta De mantimento e dinheiro Só mudaria a vida Por um amor verdadeiro...
Por sua vez, não podemos deixar de comentar que os raptos de muitas jovens não aconteceram de modo consensual e sim à força. Exemplo disso são os sequestros de Sila e Dadá, raptada, esta última, por Corisco, conforme evidenciam os versos seguintes, presentes
no cordel: “A história verídica de Corisco e Dadá nas pesquisas do cangaço nordestino”,
escrito por José Saldanha, em 2000:
[...]
Vicente chamou a filha Com a cara de quem chora; E Sérgia num pranto quente Chorando naquela hora Foi jogada na garupa Do cavalo e foram embora [...]
Um companheiro de Corisco Lhe visitando por lá;
Viu Sérgia e disse: “- É Dalvina?
Que você trouxe pra cá? Dalvina foi minha noiva,
Mas lhe chamavam Dádá”
Vivendo com os cangaceiros, a mulher torna-se também uma cangaceira. Isso não significa que estas participavam ativamente dos combates. Estas exerciam um papel
secundário nos bandos. De acordo com Pericás (2010): “As mulheres davam apoio moral e afetividade, proporcionando um senso de ‘normalidade’, na medida do possível, àquele estilo de vida errante e incomum” (2010, p.48).
Apesar dessa visão patriarcal acerca da mulher, em especial da cangaceira, estudiosos como Ferreira Neto (2010, p. 83), revelam que apenas algumas delas participavam ativamente dos combates não se limitando apenas a seguir seus companheiros. Vejamos os versos do
cordel: “A história verídica de Corisco e Dadá nas pesquisas do cangaço nordestino” (2000), o
Dadá entrou no cangaço Na vida de bandoleira; Uma cascavel assanhada Uma hiena verdadeira Foi a mulher mais valente Do bando de cangaceira [...]
Dadá foi a cangaceira A mais homenageada; O comandante Zé Rufino Dava uma força danada Que se Dadá fosse homem Era o dono da brigada Comentava com o povo Quando andava por lá: -Aquela mulher é o cão, Na luta que a gente está, Aquela força de Corisco, Mais da metade é Dadá Faz até pena matar Uma mulher como aquela; Ela briga e tem coragem E é certeiro o tiro dela Todo mundo sai da frente Vendo a arma na mão dela...
Um olhar diferenciado é lançado sobre a mulher cangaceira nos versos de José Saldanha. Aquela não é mais vista como um elo fraco e empecilho para os cangaceiros. A mulher aqui, também, não é mais vista apenas para atividades domésticas e amorosas. Na figura de Dadá, a mulher transforma-se em cangaceira, no sentido literal da palavra, ela agora é guerreira, é ativa e respeitada nos combates, sinônimo de bravura e resistência. Perfil este que corrobora com a visão idealizada que a vida no cangaço (repleta de aventuras) poderia propiciar as mulheres.
Assim sendo, é possível dizer que a inserção das mulheres e também da religiosidade no cangaço constrói outra maneira de percepção acerca do movimento e de seus cangaceiros. Longe de ser símbolo exclusivo de violência e morte, o cangaço passa a ser visto como espaço que oscila entre a violência e a romantização, como espaço de liberdade e fé, sendo os cangaceiros humanizados em muitos momentos.
4 NOTAS E DOCUMENTOS PARA A HISTÓRIA DE MOSSORÓ22
Neste capítulo realizamos uma incursão em torno da história da cidade de Mossoró, bem como, apresentamos o treze de junho de vinte e sete. Ademais, enfocamos diferentes vozes que registram o episódio na história dos discursos oficiais da cidade, a fim de contextualizar e aclarar o nosso objeto.