Maya Arakon
ETNİK MİLLİYETLER HALİNE GELİR?
No arcabouço teórico do Círculo bakhtiniano deparamo-nos com múltiplos conceitos como: “carnavalização, exotopia, gêneros do discurso, dialogismo, esfera, enunciado, autoria, estilo, discurso (outrem), grotesco, cronotopo”, entre outros, que revelam, por meio de sua relação com o texto, com a palavra axiologicamente valorada, os diferentes caminhos percorridos por esses estudiosos para compreensão do homem, em sua condição humana, social, viva e pulsante. Com base nesse entendimento, concentramos nossa atenção na noção de cronotopia, a qual se encontra diluída dialogicamente em “A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (2008)”, “Questões de literatura e de estética: a teoria do romance (2010)” e “Estética da Criação Verbal (2010)”.
A discussão sobre cronotopia é pensada de início nos estudos das ciências naturais, em especial, na teoria da relatividade de Albert Einstein. Para o físico o tempo é um evento medido a partir de um referencial espacial, ou seja, a ocorrência de diferentes eventos atribui- se diferentes temporalidades situadas em contextos espaciais diversificados. Desse modo,
Einstein (1999) postula que “[...] a cada evento é atribuído um valor de tempo, que em princípio pode ser observado” (EINSTEIN, 1999, p. 26-27).
Para Bakhtin (2010), a noção de cronotopicidade, advinda das ciências exatas, exprime a indissolubilidade do “espaço-tempo” em que os “índices de tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é medido com o tempo” (BAKHTIN, p.211). Isto é, há uma
compressão das relações temporais e espaciais. Assim sendo, “em literatura o processo de
assimilação do tempo, do espaço, e do indivíduo histórico que se revela neles, tem fluído complexa e intermitentemente” (BAKHTIN, p. 211).
Em seus escritos Bakhtin (2010) aborda os índices de espaço e tempo nos diversos gêneros do romance europeu, iniciando com o chamado romance clássico (sofista)
caracterizado pelo autor como um “romance de aventuras”, e culminado com o cronotopo dos
acontecimentos coletivos de Rabelais. É válido salientar, o privilégio que o índice temporal possui em relação ao espacial nos estudos bakhtinianos, pois segundo o autor, “em literatura o
princípio condutor é o tempo” Bakhtin (2010, p. 212).
Ainda seguindo o pensamento do autor, o “romance de aventuras” é destituído de quaisquer aspectos sociais, estando ausentes quaisquer costumes, bem como, quaisquer aspectos cíclicos naturais, remetendo-se, portanto, ao acaso. Isso rompe com o quadro evolutivo normal dos acontecimentos, cujos elementos do gênero voltam-se para um universo temporal mítico e inalterado como nos lembra Bakhtin (2010, 217-220):
[...] a ação do romance grego, todas as aventuras e os acontecimentos que o completam, não se incluem nas séries históricas, de costumes, biográficas [...]. As aventuras encontram-se fora de tais séries e fora das conformidades e das dimensões humanas inerentes a essas séries. Nesse tempo nada se modifica: o mundo permanece tal qual era [...]. Todos os momentos do tempo infinito de aventuras são governados por uma força: o acaso. [...] é o tempo da intrusão das forças irracionais na vida humana, intrusão do destino [“tuké”], dos deuses, dos demônios, dos magos feiticeiros [...].
Já no contexto de Rabelais instaura-se um novo cronotopo, uma dimensão espaço- temporal diferenciada. Não há mais uma ausência dos elementos históricos e dos costumes ou de qualquer vestígio de época. Há, na obra, uma ampliação dessas dimensões. Nela
encontramos uma “ligação particular do homem e de todas as suas ações e peripécias com o
mundo espaço-temporal” (Bakhtin, 2010. p. 282).
Há uma harmonia do sujeito com o universo histórico e cultural, o que implica em novas formas de perceber as relações humanas. O sujeito agora é social e os índices de espaço e tempo são compartilhados, são coletivos. O cronotopo apresenta-se histórico, medido pelos acontecimentos do cotidiano coletivo, conforme pronuncia Bakhtin:
A vida humana e a natureza são percebidas nas mesmas categorias [...]. As formas básicas do tempo produtivo e fecundo remontam ao estágio agrícola primitivo do desenvolvimento da sociedade humana [...]. Este é o tempo do crescimento produtivo. É o tempo da vida vegetativa, da floração, da fecundidade, da maturação, da multiplicação dos frutos, da proliferação. Tudo que nele existe, existe somente para o coletivo. A vida cotidiana e o consumo não estão separados do processo de trabalho e produção (BAKHTIN, 2010, p. 317-318).
Ao conceber o horizonte cronotópico pelo viés histórico e cultural observamos que Bakhtin dá destaque ao caráter dialógico, as valorações, as relações alteritárias que estão inseridas nesse espaço-tempo. Nesse sentido, Alves afirma que:
O cronotopo não pode ser retirado das relações dialógicas e do axiológico sob o risco de se tornar tão somente uma referência a um determinado espaço e um tempo específico, concebido como exteriores ao indivíduo, não constituinte e constitutivo de sujeito histórico em sua eventicidade [...] podemos afirmar que o homem se constitui como heterocronotópico, uma vez que diferentes imagens de si são reveladas nos diferentes cronotopos. [...] Na perspectiva dialógica bakhtiniana, o sujeito constrói temporalidades e espacialidades em relação a elas e por elas (ALVES, 2012, p.313-314).
A esse respeito, afirmamos que o sujeito, devido a seu inacabamento, encontra-se em um intermitente processo de constituição determinado pela “situação social mais imediata” (BAKHTIN, 2010, p. 116). Isto é, sendo o sujeito resultado das interações sociais e influenciado pelas trocas alteritárias, julgamos a cronotopicidade como um evento valorado,
como um acontecimento em que “o sujeito constrói temporalidades e espacialidades e se constrói constitutivamente em relação a elas e por elas” (ALVES, 2012, p. 314), compondo o
ato de fala.
Partindo do entendimento que o posicionamento é espacio e temporalmente situado, portanto, é cronotópico e axiológico, interessa-nos ler o tempo e o espaço, não da esfera literária romanesca, e sim da literatura de cordel. Sendo assim, embora o cordel esteja inserido no campo da literatura que durante certo tempo fora considerada marginal, realçamos que os cronotopos os quais organizam as vozes situadas nessa esfera, incidem sobre uma atmosfera social, uma vez que o gênero em estudo possibilita que enxerguemos as práticas discursivas envolvidas na sua dimensão valorativa cujos “[...] acontecimentos do enredo se concretizam, ganham corpo e enchem-se de sangue” (BAKHTIN, 2010, p. 355).
O que nos remete a significações diversas e mostra-nos o modo como cada sujeito, inserido em uma determinada época e em um determinado lugar atribui sentidos ao objeto do dizer em relação ao tempo-espaço concebidos. Referindo-se, pois, às práticas de linguagem figurativas de um contexto social e cultural, as quais se estruturam em torno dos gêneros do
discurso. Bakhtin (2010, p. 212) ao mencionar as condições de enunciação inseridas em cronotopos diversos sinaliza que:
O cronotopo tem um significado fundamental para os gêneros na literatura. Pode-se dizer francamente que o gênero e as variedades de gênero são determinadas justamente pelo cronotopo, sendo que em literatura o princípio condutor do cronotopo é o tempo. O cronotopo como categoria conteudístico-formal determina [em medida significativa] também a imagem do indivíduo na literatura, essa imagem sempre é fundamentalmente cronotópica.
Assim sendo, considerando o pensamento do autor no tocante a natureza dialógica da linguagem com todas as suas implicações (interações, inacabamento, relações alteritárias, vozes axiológicas, responsividade, evento, entre outros), asseveramos que cada nova atividade atravessada por ressignificações de espaço-tempo, reacentuam-se a partir de um gênero específico com seus componentes estruturais, estilísticos, valorativos e cronotópicos.
De outro modo, julgamos a cronotopicidade significativa para o olhar lançado sobre o objeto de estudo desta tese, tendo em vista que o índice espaço-temporal, conforme Bakhtin:
[...] fornece um terreno substancial à imagem-demonstração dos acontecimentos em que10 as novas representações na literatura muito frequentes são criadas por meio da reacentuação das velhas, por meio da sua tradução de um registro de acento para o outro, por exemplo, de um plano cômico para o trágico, ou vice-versa. Assim, cada época reacentua de seu modo as obras de um passado recente (BAKHTIN, 2010, p.209-355).
Diante dessa discussão, esclarecemos que a construção dos sentidos, a construção identitária dos sujeitos ocorrem cronotopicamente, conforme a dimensão volitiva orientada num espaço-tempo social (cultural).