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Cem Deniz Kut

ORTA ASYA DEVLETLERİYLE İLİŞKİLERİ

A religiosidade exerce grande influência na sociedade brasileira. Sendo uma importante manifestação da nossa cultura, possui um campo de atuação vasto e significativo sofrendo influência desde a cultura indígena com a crença no pajé e em seus ensinamentos, passando pela herança africana e sua manifestação de fé por meio da relação dos devotos com as divindades espirituais africanas do Candomblé (Oxum, Iemanjá, Exu etc.), a espírita kardecista, evangélica e a católica.

Por esse ângulo, considerando a amplitude, as inúmeras abordagens sobre essa temática, e não podemos nos esquecer do objeto e objetivos de nossa pesquisa, dedicamos este tópico a delimitação apreciativa da relação entre cangaço e religiosidade na literatura de cordel, aspecto que, de um modo ou outro, nos auxiliará na construção de imagens destes

sujeitos, como também, na construção dos sentidos das possíveis identidades atribuídas a Mossoró, com base em tais personagens, uma vez que os cangaceiros e suas ações regimentam a estrutura discursiva dos enunciados analisados, que compõem o corpus desta tese.

No tocante à relação aspecto religioso e cangaceiros, tomemos como exemplo a devoção de Lampião a vários santos, inclusive Santa Luzia, protetora da visão, e paradoxalmente, padroeira de Mossoró, como também, a devoção e o respeito destinados ao

Padre Cícero Romão Batista, conforme descrevem os versos de Silva no cordel, “Lampião, o capitão do cangaço” (s.d):

É comprovado e notório Que o grande capitão Guardava muito respeito Ao padre Cícero Romão Tido no nordeste como Padrinho de Lampião [...]

Ele embora acalentasse No peito grande saudade Dos pais, quando padre Cícero Se foi pra eternidade

Foi que Lampião sentiu A verdadeira orfandade...

A reverência do cangaceiro ao Padre Cícero também aparece no folheto, “A derrota de Lampião a Mossoró”, autoria de José Otávio Pereira Lima em 1927, cuja citação do trecho,

neste momento, possui um caráter ilustrativo, visto que lançaremos um olhar mais acurado sobre nosso corpus no capítulo cinco, destinado para tal fim. Observemos:

[...]

Fujamos logo daqui Eu estou envergonhado De ir dizer ao Padre Cícero Que por cá fui derrotado! Em que camisa me meti Meus dois amigos perdi; Estou aterrorizado!

Atentamos, ainda, para a questão psicológica e emocional que humaniza o cangaceiro, através do vínculo de amizade e a presença paradoxal dos sentimentos de medo e vergonha, uma vez que no imaginário popular (conjunto de crenças) o cangaceiro é visto como homem forte e destemido.

Vale ressaltar também, a crença nos ritos sacros como a realização de cerimônias religiosas, a exemplo, do casamento de Corisco e Dadá, presente nos versos de Silva (2005, p.

10) em seu cordel, “Corisco: o sucessor de Lampião”. Vejamos:

O padre José da Rocha Na sacerdotal missão Celebrou o casamento Selando a santa união De Corisco com Dadá

Outro elemento que evidencia a visão humanizada do cangaceiro é a prática de oração

no bando, conforme mostram os versos do cordel “Lampião, o capitão do cangaço”, a seguir:

[...]

Meio dia em ponto ele Reunia o pessoal, Orava gesticulando Para com o ritual Mostrar aos cabras

Que tinha algo sobrenatural [...]

Quando o sol agonizava Para os lados do poente Lampião mais uma vez Se curvava reverente Às coisas da natureza Respeitoso, obediente [...]

Não viajava aos domingos, Parava pra descansar, no Meio da mata agreste Improvisava um altar Em torno do qual mandava O grupo contrito orar.

Ao observarmos os excertos descritos, vemos que, nos versos, a alusão humanizada e heroica aos cangaceiros é pensada sob duas condições: a transformação do homem comum em bandido, sendo este vítima das injustiças sociais e a forte expressão de sua religiosidade e fé, por meio do respeito e confiança na bênção divina para o matrimônio, assim como, a devoção aos santos, à natureza e a referência a figuras sacras, como padre Cícero que possui um forte significado na vida de muitos sertanejos.

Sobre as práticas religiosas dos cangaceiros e suas crenças, Silva (2009) assevera que eram as mesmas de seus amigos, inimigos e suas vítimas. Assim, sendo os cangaceiros

promessas para santos, acreditar que pode fechar o corpo contra inimigos, usar patuás [...],

afinal de contas, antes de ser bandido, o cangaceiro era um cristão devoto” (2009, p. 8).

É a partir dessa significação do sagrado que o cangaceiro bravo e destemido, despe-se, quase que totalmente, do mito e (re)torna na figura do sertanejo simples, revelando, paralelamente, um sentimento de resignação e seu desejo por proteção e livramento das consequências tenebrosas do combate e da morte, a exemplo, através da oração, prática que simboliza a ligação do homem comum com Deus e com os santos, conforme mostram os

versos de Abaeté no cordel “Pernoite de Lampião antes de atacar Mossoró - baseado no relato de José Neto Lopes Muniz” (2007):

[...]

Lampião gritou moçada A nossa hora chegou Era 14 horas do dia 13 Antes de partir ele rezou Junto com os cangaceiros Virgulino foi o primeiro E o último que terminou E Lampião novamente Agradeceu a estadia Que Deus e Nossa senhora Protegesse aquela famia E pediu, se Lope por favor Eu queria que o senhor Me arrumasse um guia...

De acordo com Queiroz, “um misto de medo e admiração ao sobrenatural, aos objetos

místicos e ao poder que as figuras santas emanam sempre esteve presente na vida do

sertanejo” (QUEIROZ 1997, p. 20). Já para estudiosos como Durkheim (1989), a religião é

fundamental para a existência e funcionamento de grupos. Ainda, nas palavras da estudiosa,

“a religião é importante para a regularidade da sociedade” (DURKHEIM, 1989, p. 206).

Assim sendo, é através do caráter religioso que o homem do sertão, inclua-se aqui, os cangaceiros, encontra explicações e consolos para a origem e motivos de muitos

acontecimentos em sua vida, como arremata o dito popular, “Deus quis”.