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TÜRKĐYE EKONOMĐSĐ’NDE ĐSTĐHDAM SÜRECĐNĐ ETKĐLEYEN GELĐŞMELER

Em seu berço europeu, os quadrinhos, por muito tempo, não puderam ter grande desenvolvimento comercial, por uma série de fatores — entre os mais relevantes, além de alguns assombros do fantasma de Wertham, estão as duas Grandes Guerras que solaparam a economia do continente, e a grande diversidade lingüística e cultural dos seus povos habitantes, que frustra qualquer projeto de criar um público leitor comum. Nos princípios do século XX, enquanto os E.U.A. inovavam a linguagem dos quadrinhos, na Europa eles ainda se encontravam ligados às legendas descritivas (SANTOS, 2002, p. 55), ao ponto dos editores apagarem os balões das publicações e transpor os seus textos para as legendas.

Embora relativamente receptiva aos quadrinhos produzidos nos E.U.A., importados através dos syndicates, a Europa soube, com o tempo, produzir obras quadrinizadas mais condizentes com seu contexto cultural5. Desde o final da década de 1920, começaram a se sobressair os trabalhos mais originais, a exemplo de Les Aventures de Tintin

et Milou, criadas pelo belga Geroges Remi “Hergé” em 1929, nas quais o jovem repórter

Tintim, acompanhado de seu cãozinho Milu, enfrentava bandidos pelo planeta, em páginas com cenários minuciosamente desenhados. O traço do autor, conhecido como “linha clara”

5 Para tanto, e por vários outros motivos, muitos países buscaram diminuir a presença de quadrinhos estadunidenses em seu território, mesmo antes do rebuliço causado por Wertham. Em 1938, a Itália de Mussolini, sob a alegação de que os comics “desnacionalizavam” os leitores, criou uma lei de censura para banir quadrinhos estrangeiros, com a intenção de produzir narrativas quadrinizadas ideologicamente alinhadas ao regime fascista. Em 1949, a França também instituiu uma lei de “regulamentação e autocensura” para controlar o conteúdo dos quadrinhos de sua imprensa, mas que, na prática, funcionou como um dispositivo protecionista de mercado (JÚNIOR, 2004, p. 77-78, 126).

39 por ser limpo, preciso e não fazer uso de efeitos intensos de sombra, influenciou uma série de outros artistas no continente, num movimento que ficou conhecido como Escola de Bruxelas.

Após a queda do fascismo, surgiu na imprensa italiana, em 1948, um personagem que seria responsável pela revitalização dos fumetti depois de anos sob a tutela de Duce: Tex, conhecido mundialmente como o “caubói da camisa amarela”, criado por Giovanni Luigi Bonnelli e Aurelio Galleppini “Galep”, mostrou ao mercado que era possível contar uma boa história baseada em elementos culturais estrangeiros, mas completamente desenvolvida por profissionais locais. Em 1959, na revista Pilote, a França pôs em circulação o primeiro capítulo daquela que se tornaria, inclusive no exterior, a mais conhecida das narrativas quadrinizadas produzidas no país: Astérix le Gaulois (“Asterix, o Gaulês”), do roteirista René Goscinny e do desenhista Albert Uderzo. Os protagonistas, os gauleses amigos Asterix e Obelix, protegem sua aldeia dos ataques do Império Romano, em histórias que se notabilizaram pela fidelidade aos acontecimentos da Antigüidade (como a derrota do chefe gaulês Vercingetorix pelos romanos e o crescimento do comércio entre as cidades ocidentais e o Oriente Médio) e por enfatizar, em linhas gerais, a cultura francesa, de uma maneira crítica e bem-humorada.

Os europeus se destacaram em pelo menos mais dois grandes gêneros dos quadrinhos: o erótico, durante a década de 1960, e o de ficção científica, na década seguinte. Durante um período em que as sociedades reconheciam melhor os direitos das mulheres e em que métodos contraceptivos, como as pílulas anticoncepcionais, simbolizavam a libertação da sexualidade feminina, destacavam-se heroínas como Barbarella, do francês Jean-Claude Forest (fig. 14), e Valentina, do italiano Guido Crepax (fig. 15). Em suas aventuras, as personagens não precisavam do aval masculino para tomar suas atitudes, o que lhes dava um caráter mais independente (apesar de Valentina ter sido criada como uma personagem coadjuvante). Os roteiros se referiam sutilmente aos fetiches, ao sadomasoquismo e ao lesbianismo — procurava-se, pelo onírico e pela sugestão, potencializar a sensualidade e as fantasias das personagens, em vez de simplesmente mostrá-las nuas ou durante o ato sexual. Na ficção científica, ganharam notoriedade os franceses Jean-Girard “Mœbius”, Philippe Druillet, Bernard Farkas e Jean-Pierre Dionnet, fundadores da editora Humanoïdes Associés (“Humanóides Associados”), cuja publicação que mais se destacou foi a revista Métal Hurlant (conhecida em outros países como Heavy Metal — ou “Metal Pesado”, na tradução portuguesa —, apesar de sua linha editorial não ter relações diretas com o estilo musical homônimo). Publicada até 1987, apresentava narrativas com acabamento visual requintado, nas quais mundos de altíssima tecnologia se apresentavam em diversos níveis de degradação

40 material, moral ou comportamental. Muitas de suas histórias, como as da personagem Druuna (1985), do italiano Paolo Eleuteri Serpieri, mesclavam a ficção científica ao gênero erótico.

Na década de 1980, a Inglaterra revelou dois importantes roteiristas que, ao atuarem no mercado dos E.U.A., contribuíram para mudanças nos paradigmas do quadrinho ocidental. Neil Gaiman e Alan Moore ressaltam o caráter adulto da narrativa quadrinizada, ao

Figura 14 - a insubmissa Barbarella, de Jean-Claude Forest. A

personagem foi inspirada em Brigitte Bardot, uma das referências de beleza física feminina na década de 1960.

Figura 15 - Valentina, de Guido Crepax. O quadrinho da sensual

personagem é também notado pela diagramação pouco usual das vinhetas, que às vezes possibilita sua leitura em várias direções.

41 abordar profundamente fatos e contextos históricos, mitos e características psicológicas dos personagens. Gaiman é reconhecido principalmente pela atmosfera misteriosa e mágica de suas criaturas, que lidam com os conceitos de arquétipo, sobrenatural, tempo e morte, habitando e trafegando por mundos paralelos, como nas séries The Sandman e The Books of

Magic (“Livros da Magia”). Moore é um dos maiores renovadores do gênero de super-heróis,

ao dar-lhes dimensão humanizada e falibilidade em Watchmen, de 1986, desenhada por Dave Gibbons. Entretanto, também foi responsável por outros quadrinhos de grande repercussão, como V for Vendetta (“V de Vingança”, de 1982, desenhada por David Lloyd, contando a saga de um revolucionário anarquista contra uma Inglaterra totalitária do século XXI) e

Promethea (de 1999, desenhada por J. H. Williams III e outros assistentes, é uma heroína

repleta de referências místicas, representando o próprio ato de criação artística e a força que personagens e mitos exercem no pensamento humano).

De modo geral, a expressão pessoal dos desenhistas e roteiristas europeus é mais nítida nas obras quadrinizadas, o que também consiste, de certa maneira, numa estratégia editorial para diferenciá-las da excessiva padronização dos quadrinhos dos E.U.A. Além disso, o Velho Mundo foi, provavelmente, o primeiro lugar no qual os quadrinhos tiveram seu valor artístico amplamente reconhecido pelas sociedades. Atualmente, o continente é o segundo maior pólo de produção de quadrinhos do mundo, com destaque para a sólida estrutura editorial mantida pelos países francófonos (Bélgica, Luxemburgo e Suíça, encabeçados pela França).