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Os quadrinhos surgiram na Europa no século XIX, dentro de um contexto histórico profundamente marcado por duas revoluções: a Industrial, ocorrida na Inglaterra a partir da década de 1760 — espalhando pelo restante do continente, em poucas décadas, ainda que à custa da exploração e da miserabilidade de determinados estratos sociais, os avanços técnicos proporcionados pelo desenvolvimento de máquinas que substituíam o trabalho humano, aprimorando e agilizando diversos procedimentos, da manufatura têxtil à metalurgia —, e a Francesa, ocorrida em 1789 — símbolo maior da derrocada da Aristocracia e da ascensão da Burguesia ao poder, com a conseqüente disseminação social dos valores liberais, defendidos por essa classe.

As populações dos centros urbanos do Velho Mundo vinham crescendo mais intensamente, com níveis gerais de alfabetização progressivamente maiores. Impulsionados pelo aumento da população letrada e pelo aprimoramento industrial das técnicas de impressão e reprodução, os jornais vinham se estabelecendo, desde o século XVIII, como o primeiro veículo de comunicação em massa, trazendo às urbes notícias das outras nações, das Américas e do Oriente, e agregando a si produtos culturais, como a literatura, em forma de folhetim, e a ilustração, em forma de histórias ilustradas e caricaturas — também denominadas “charges”, cujas principais características eram o cunho humorístico, a crítica e a sátira de figuras públicas ou autoridades e a estética do exagero visual expressivo, que distorcia e acentuava as características físicas das pessoas que retratava.

Apresentadas ora em painéis isolados, ora em seqüências curtas, e utilizando-se de técnicas como a gravura em metal e a litografia para viabilizar tecnicamente sua reprodução em série, as caricaturas foram um embrião das histórias em quadrinhos. William Hogarth, pintor e gravurista inglês, foi um dos pioneiros caricaturistas a conquistar grande apreço popular, retratando o dia-a-dia urbano com preocupações moralistas (voltadas à prostituição, ao consumo de bebidas alcoólicas e à falta de diligência no trabalho), identificadas com as aspirações liberais do burguês médio, por meio de ilustrações acompanhadas de legendas explicativas (fig. 07).

29 Alguns anos mais tarde, James Gillray, igualmente, gozou de notoriedade pública nas ilhas britânicas, fazendo charges de humor visando, mormente, nobres e políticos. Algumas de suas criações apresentavam vinhetas, mostrando eventos distintos, mais ou menos conectados entre si, descritos por legendas, com doses de ironia (fig. 08).

Figura 07- primeira gravura da série de Industry and Idleness (1747), de William Hogarth,

em que o autor mostra as vantagens da dedicação ao trabalho. As legendas embaixo explicam, por meio de citações da Bíblia, a diferença entre o operário relapso e o operário zeloso.

Figura 08 - em John Bull’s Progress (1793), Gillray critica os problemas que a guerra

trazia para a Inglaterra, através de seqüências de imagens. John Bull, um dos símbolos do povo inglês, volta dos combates desnutrido e mutilado, vendo a família empobrecida.

30 Em outras, as escrita de Gillray se dividia entre a legenda explicativa e balões de fala rudimentares, que indicavam, dentro da ilustração, as falas correspondentes a cada uma das pessoas representadas (fig. 09).

Vários outros artistas europeus aderiram ao exercício da caricatura entre os últimos anos do século XVIII e o início século XIX, aumentando a popularidade dessa forma de ilustração, que aparecia também em periódicos próprios, como semanários e livros encadernados. Influenciado pelas charges, o desenhista e professor suíço Rodolphe Töpffer criou, na década de 1820, Les Amours de Monsieur Vieux Bois (fig. 10).

Figura 10 - Les Amours de Monsieur Vieux Bois, de Rodolphe Töpffer. Os textos dos recordatórios

não são meramente explicativos, completando o sentido das ilustrações.

Figura 09 - The Impeachment (1791), uma sátira aos detratores da constituição

britânica, mostra balões primários, semelhantes aos filactérios medievais. Nota-se também o exagero dos traços físicos e da postura dos personagens, técnica típica das caricaturas.

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Les Amours... foi a primeira história composta por imagens em seqüência

acompanhada de recordatórios cujo texto escrito não apenas explicava o que estava ilustrado, mas completava o sentido dos desenhos. E estes, por sua vez, apresentavam características expressivas que não se explicitavam na escrita: se o recordatório simplesmente dizia que alguém “olhava para o céu”, pela expressão facial que o personagem apresentava na imagem o leitor era capaz de perceber se esse olhar era, por exemplo, de admiração, inquietude ou tédio.

Além desse nível de integração entre imagens e palavras, as obras de Töpffer apresentavam pelo menos mais duas inovações: a primeira estava no cuidado que o autor tomou ao escolher quais “momentos” do seu roteiro deveriam ser visualmente representados (McCLOUD, 2008, p. 12), de forma a criar relações mais próximas entre uma vinheta e outra. A segunda, de ordem temática, estava no fato de suas narrativas apresentarem não somente conteúdos humorísticos, mas poéticos e ficcionais — como em Docteur Festus, em que o objetivo do protagonista era capturar um cometa. Apenas em 1846, contudo, o professor encontraria um editor que reproduzisse suas obras em um volume único, chamado Histoires

en Estampes (“Histórias em estampas”), cujos exemplares se espalharam pela Europa e por

outros continentes. A humanidade conheceu, dessa forma, a primeira manifestação da arte das histórias em quadrinhos.

Com a nova linguagem, o desenhista alemão Wilhelm Busch criou, em 1865, Max

und Moritz (Juca e Chico, segundo a tradução de Olavo Bilac), dois garotos que infernizavam

a vida dos adultos à sua volta. Nessa obra, Busch fundamentou o estereótipo dos quadrinhos de “crianças traquinas” (no qual os protagonistas, normalmente meninos, são hiperativos, pouco afeitos a regras de comportamento social, mal-educados e extremamente resistentes à pedagogia), que cruzaria o Atlântico anos depois rumo aos E.U.A., na companhia de imigrantes germânicos, influenciando fortemente os primeiros quadrinhos que conquistaram vasto sucesso de público naquele país (SANTOS, 2002, p. 53, 70).