4. HASAR ANALĠZLERĠ VE ĠNġAAT ALL RĠSK TEKLĠFLERĠ ÖRNEK
4.4 Tünel ve Altyapı ĠnĢaat Teklifi ve Hasarı
kai. h;kousa fwnh.n evk tou/ ouvranou/ (E ouvi um som de dentro
do céu). Algumas versões traduzem a expressão h;kousa fwnh.n como “ouvi uma voz”
(Revista e Atualizada, Bíblia de Jerusalém). A Nova Versão Internacional optou por “ouvi um som”. Essa segunda opção parece ser a que melhor corresponde ao contexto da narrativa do visionário.
Em termos gerais, o termo fwnh, pode ser traduzido como som, voz humana, grito de animais ou linguagem.180 No episódio, entretanto, o que João ouve mesmo é um som, que será identificado como o som de uma canção. Como argumenta Aune, o termo “voz” seria preferido caso a referência fosse a um indivíduo, mas como é um grupo que está por trás da música, deve-se optar por “som”.181
Ele ouve um som e o identifica depois como uma música vinda do céu. O termo fwnh, é muito comum no Novo Testamento. Foi usado 139 vezes. Geralmente, ele é traduzido por “voz”. Entretanto, segundo Betz, em alguns lugares, em função da influência da Bíblia hebraica, o termo significa “som”, “ruído” (1Co 14.7-8; Lc 1.44; Hb 12.19).182 Esse uso é muito comum no Apocalipse onde fwnh, pode ser usada tanto para falar do som de asas (Ap 9.9) quanto do ruído de uma pedra de moinho (Ap 18.22).
Já o termo céu, tradução de ouvrano,j, aparece nos textos clássicos gregos para indicar a abóbada, o firmamento, àquilo que está acima da terra.183 Com isso, geralmente conservava uma relação com o divino, já que a mentalidade popular tinha o céu como morada dos deuses.
A LXX utilizou o vocábulo 614 vezes, seguindo de perto a perspectiva da Escritura judaica de céu como aquilo que cobre a terra (Gn 1.8; Sl 148.4). Essa abóbada podia existir
180 BETZ, Otto. Fwnh,, fwne,w, sumfwne,w, su,mfwnoj, sumfwni,a, sumfw,nhsij. In: KITTEL,
Gerhard (ed.). Theological dictionary of the New Testament. V. IX. Rapids: Eerdmans, 1974, p. 292.
181 AUNE, David E. Revelation 6-16, p. 784.
182 BETZ, Otto. Fwnh,, fwne,w, sumfwne,w, su,mfwnoj, sumfwni,a, sumfw,nhsij, p. 278-309. 183 BIETENHARD, H. vvOurano,j. In: BROWN, C. (Ed.). Dicionário Internacional de Teologia
em várias camadas ou esferas, daí existirem vários céus (Dt 10.14; 1Rs 8.27). Essa idéia vai se acentuar em escritos posteriores (2Mc 15.23; 3Mc 2.2; Tb 8.5). Dos céus procedem tanto os eventos da natureza (Jó 38.22; Jr 49.36; Sl 33.7), como os seres celestiais (1Rs 22.19; Jó 1.6s).
Os autores da Escritura judaica entenderam em algum momento que Deus era maior que os céus. Apesar de tê-lo criado (Gn 1.1) e ali ser a sua habitação (Dt 4.36), o céu não poderia contê-lo (1Rs 8.27). Entretanto, ele não parece ser a morada final dos justos, apesar de Deus ter levado para lá alguns escolhidos, como Enoque e Elias (Gn 5.24; 2Rs 2.11).
No período do segundo Templo, as revelações celestiais se acentuaram. Os autores ocuparam-se cada vez mais em descrever os céus e narrar revelações vindas de lá. Os anjos são descritos como filhos do céu (1En 6.69s), numa referência à sua origem. Igualmente, os seres celestiais que trazem o mal também vêm de lá. Os textos falam de vários céus: três céus (Test Lev 2.2); sete céus (Asc Is 7.1s); dez céus (2En 3; 7; 8; 10; 11; 18; 20; 21). O céu era, assim, um lugar que dava origem a eventos bons e ruins.
Ao registrar a viagem de Enoque até Deus, 2Enoque menciona que o Primeiro Céu é o lugar onde os anjos controlam os fenômenos naturais como neve, vento, chuva etc. (2En 3-6); o Segundo Céu é um lugar de tortura para os anjos que desobedeceram (2En 7); o Terceiro Céu é tanto o paraíso dos justos (2En 8) quanto o inferno dos ímpios (2En 10); no Quarto Céu, o Sol, a Lua e o tempo são controlados pelos anjos (2En 11); o Quinto Céu é a morada de seres malignos (2En 18); o Sexto Céu é a morada dos arcanjos de Deus (2En 20); no Sétimo Céu existem arcanjos, milícias, dominações, ordens, governos, querubins, serafins, tronos, além do trono do próprio Deus (2En 20).
No céu ocorrem eventos que terão implicação para a terra e seus habitantes. O inverso também parece estar implícito, como no hino de Apocalipse 12.10-12, onde a vitória de Miguel no céu contra o Dragão está relacionada com o testemunho dos irmãos que foram fié is mesmo diante da morte.184
João ouve uma fwnh, procedendo do céu em diversos momentos no Apocalipse: - Em Apocalipse 10.4, o visionário usa a mesma e exata expressão: kai. h;kousa fwnh.n evk tou/ ouvranou/ (e ouvi uma voz do céu). Naquele contexto, ele ouve sete trovões, mas é proibido por uma voz do céu a registrar o que ouviu. Na mesma narrativa,
184 Segundo NOGUEIRA, “o céu era uma grandeza que dava estrutura ao kósmos. No céu moravam os deuses,
ou no caso dos judeus e dos primeiros cristãos, os anjos que serviam diante do trono de Deus. Do céu era governada a história. Era no céu que as coisas se decidiam e era no céu que a justiça era garantida”. Cf.
85 esta voz vinda do céu o orienta a comer um livrinho, que se manifesta amargo no estômago e doce na boca (Ap 10.7-8).
- No episódio das duas testemunhas martirizadas pela besta que subiu do abismo (Ap 11.3-14), logo após serem ressuscitadas por Deus, em Apocalipse 11.12, elas h;kousan fwnh/j mega,lhj evk tou/ ouvranou/ (ouviram uma grande voz do céu). A audição é descrita pelo visionário como uma ordem para que subissem até o céu.
- Em Apocalipse 14.13, João repete novamente a expressão, agora já pela terceira vez: kai. h;kousa fwnh/j evk tou/ ouvranou (e ouvi uma voz do céu). É uma bem- aventurança para aqueles que aceitarem o caminho da morte em nome do Senhor.
- A última ocorrência de uma fwnh, ouvida do céu aparece em Apocalipse 18.4. A diferença é que o visionário a definiu como “outra voz” (a;llhn fwnh,n). O restante da expressão é semelhante. O que ele ouve é um convite para que os “santos” se retirem da Babilônia, porque ela finalmente cairá.
- No capítulo 12.1-18, João descreve a perseguição movida pelo Dragão contra a mãe da criança messiânica. No céu, entretanto, ele foi derrotado por Miguel e seus anjos, que o expulsou de lá, junto com outros anjos que o seguiam. Imediatamente após a queda do Dragão, o visionário ouviu uma fwnh.n mega,lhn evn tw/| ouvranw/ (voz
grande no céu)|, proclamando a vitória do Cordeiro e dos que guardam a palavra do seu
testemunho mesmo diante da morte. O que ele ouve é um hino de vitória, apesar de João não identificar quem são os cantores. A diferença entre esta ocorrência e as outras é que aqui o visionário descreve o som “no” céu (ele usa a preposição com força locativa evn) em fez de “do” céu (com recurso à preposição com força ablativa evk), como acontece em Apocalipse 14.2.
Ao que parece, a relação entre fwnh, e ouvrano,j no Apocalipse é bem ampla. Em alguns lugares enfatiza o caráter revelado e mediado de suas visões (quando um anjo lhe orienta ou anuncia). Em outros, como no hino de Apocalipse 12.10, o contexto é litúrgico, e se relaciona com o culto no céu diante do trono. Parece ser este o caso de Apocalipse 14.2. Afinal, o som que ele ouve vindo de dentro do céu logo será relacionado não apenas com o trono, mas com todas as personagens do culto celestial dos capítulos 4-5.
Assim, apesar da perspectiva do visionário ainda ser da terra (ele ouve o som vir de dentro do céu), a audição está ligada ao ambiente celestial, e com isso o palco para a canção que surgirá nas frases seguintes já está definido. É o mesmo espaço para o qual o visionário foi transportado no início da segunda seção do livro (Ap 4.1).
O contexto da audição de Apocalipse 14 também é similar às liturgias celestiais de Apocalipse 5.11-12; 7.11-12; 11.15-19; 12.10-12, anteriores ao episódio do Cordeiro, bem como às cenas de louvor dos vitoriosos em Apocalipse 15.1-4 e 19.1-5, posteriores ao ajuntamento sobre o monte Sião.
Apesar da distinção estrutural entre visão (Ap 14.1) e audição (versículos 2-3), as duas partes devem ser entendidas no contexto de uma mesma cena. O visionário viu o Cordeiro sobre o monte Sião, cercado por 144.000 guerreiros, prontos para guerrear contra as bestas, e ouviu um som vindo do alto, ressoando do céu. O Cordeiro está sobre o monte Sião com seus seguidores enquanto João ouve o som celestial.
A cena descrita pelo visionário é estruturalmente semelhante ao batismo de Jesus narrado por Mateus, quando, após ser batizado por João Batista, uma voz surgiu do céu, proclamando: “este é meu filho” (Mt 3.17), ou então à cena da transfiguração de Jesus diante dos discípulos, também narrada por Mateus. Eles ouviram um som das nuvens: “Falava ele
ainda, quando uma nuvem brilhante os envolveu; e veio da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi” (Mt 17.5). Ambas as cenas dos
evangelhos têm como função identificar Jesus como Filho de Deus. O som que vem do céu quer apontar o status privilegiado de uma figura na terra.
De forma semelhante, uma passagem hínica do Rolo da Guerra (1QM 10.10) denomina o verdadeiro Israel de “aqueles que estão atentos à voz da Glória”: “[...] povo de
santos da aliança, instruídos na lei, sábios no conhecimento, [...] atentos à voz da Glória
[...]” (1QM 10.10). Como bem argumenta Betz, a expressão “voz da Glória” é uma referência à voz divina.185 Isso indicaria que para os membros da comunidade de Qumran, apenas eles poderiam ouvir o que vem de Deus e de suas regiões celestiais.
Uma outra passagem, desta vez do Evangelho de João, também é elucidadora. Nela, uma voz do céu declara que Jesus já foi, e ainda seria, glorificado (Jo 12.27-30). Segundo o relato joanino, após a audição celestial, algumas pessoas diziam que tinha sido um trovão, outras, um anjo do céu. A resposta de Jesus foi: “Não foi por mim que veio esta voz, e sim por
vossa causa” (Jo 12.30) Neste contexto, o som que vem do céu tem como função atestar a
dignidade de Jesus na terra.
Desta forma, ao especificar o acesso exclusivo dos 144.000 à audição, João parece querer demonstrar o status exaltado dos seguidores do Cordeiro. A audição assume função legitimadora, demonstrando a dignidade dos 144.000 e seu status elevado.
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