Os termos “culto” e seus correlatos (cúltico, cúltica etc.) se referem a um evento ritual praticado pelos membros de determinada religião. Seguindo a definição de Davila, culto é, essencialmente, uma ação ritual que toma lugar em um espaço sagrado e em um tempo sagrado.258 Desta forma, os sacrifícios, os serviços no templo e as observações religiosas das festividades do antigo Israel podem ser denominadas de cúlticas. No caso específico dos seguidores de Jesus, o culto acontecia quando eles se reuniam para a prática de seus rituais.259
O Apocalipse de João é uma obra profundamente relacionada com a liturgia das igrejas dos primórdios. Os elementos litúrgicos dentro do livro são tão numerosos que o torna uma obra mergulhada na atmosfera cultual. O culto parece ser o contexto vital de onde o livro brota e para onde ele pretende ir:260
- No capítulo precedente, tentamos demonstrar que uma seção inteira do livro foi dedicada ao que parece ser um culto no céu.261 A partir de Apocalipse 4.1, João foi
transportado para o céu, de onde ele descreve o trono divino e testemunha uma extensa liturgia, recheada de hinos. Ainda dentro do espaço deste culto celestial, o visionário chora quando ouve falar de um rolo que ninguém poderia abrir. Mas logo foi confortado por um dos membros da liturgia celestial, que revela para ele que o Leão da tribo de Judá pode fazê-lo. A figura messiânica, porém, se manifesta para João como um Cordeiro, que abre os selos um
258 DAVILA, James R. Liturgical Works: Eerdmans Commentaries on the Dead Sea Scrolls. Grand Rapids:
Eerdmans, 2000, p. 3.
259 Nesta pesquisa, culto e liturgia são expressões intercambiáveis. Ambas expressam o ritual ou o serviço
religioso.
260 GLOER, W. Hulitt. Worship God! Liturgical Elements in the Apocalypse. In: Review and Expositor, 98,
2001, p. 35; CABANISS, Allen. A Note on the Liturgy of the Apocalypse. In: Interpretation, 7/1, 1953, p. 79.
261 Seguindo a estrutura proposta no capítulo anterior, o Apocalipse pode ser dividido, basicamente, em três
seções (precedidas por um prólogo e concluídas por um epílogo). A primeira seria a seção das cartas; a segunda, a seção do culto no céu; e a terceira, a seção da guerra escatológica.
117 por um. Assim que cada selo é removido, uma cena dramática é testemunhada, tendo como clímax o sétimo. Quando o sétimo selo foi aberto, iniciou-se uma série de sete trombetas. Somente após o toque da sétima trombeta é que a seção do culto celestial parece terminar. Sua conclusão é doxológica, com a declaração de que o reino do mundo se tornou do Senhor e seu Cristo. Barr sugere que a seção inteira foi narrada para inspirar a adoração e o culto.262
- No momento de definir o tempo em que recebeu as revelações, o visionário explicitamente faz menção do “dia do Senhor” (Ap 1.10):
evgeno,mhn
evn pneu,mati
evn th/| kuriakh/| h`me,ra| kai. h;kousa ovpi,sw mou
fwnh.n mega,lhn w`j sa,lpiggoj
Encontrei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi atrás de mim
um grande som como de trombeta
Prigente argumentou que a expressão é uma referência ao dia em que as comunidades se reuniam para cultuar.263 Isso poderia ser evidenciado pela Didaqué, um documento escrito um pouco depois do Apocalipse de João: “Reuni-vos no dia do Senhor para a fração do pão e
agradecei, depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro” (Did 14.1).264 Este “dia do Senhor” era o dia em que Jesus teria ressuscitado. É significativo, então, que João situe sua obra no dia em que as comunidades se reuniam para cultuar. Se ele as contextualiza num dia de culto das igrejas, não é difícil imaginar a possibilidade de ele ter experimentado suas visões durante um culto de uma comunidade de seguidores de Jesus que se reunia em Patmos.265 Thompson sugere mesmo que João pode ter ido até Patmos para visitar uma congregação como um profeta itinerante.266
- Independente da configuração formal, podem ser apontados, na segunda e terceira seções do Apocalipse (Ap 4.1-22.5), os seguintes fragmentos litúrgicos: o tríplice santo (Ap 4.8); as três canções cantadas para Deus ou o Cordeiro, os únicos dignos de serem adorados
262 BARR, David L. Tales of the End, p. 63. 263 PRIGENT, Pierre. O Apocalipse, p. 31.
264 Sobre a data de Didaqué, conferir VIELHAUER, Philipp. História da literatura cristã primitiva: introdução
ao Novo Testamento, aos apócrifos e aos pais apostólicos. São Paulo: Academia Cristã, 2005, p. 763.
265 Hipótese levantada por Thompson em THOMPSON, Leonard. Ordinary Lives, p. 27 e 33.
266 A hipótese de que João estava na ilha em função da perseguição do Império Romano não encontra apoio nas
evidências mais antigas. Cf. THOMPSON, Leonard. A Sociological Analysis of Tribulation in the Apocalypse of
(Ap 4.11; 5.9-10; 5.12); as três doxologias (Ap 5.13; 7.12; 16.5-7); os sete hinos de vitória (Ap 7.10; 11.15; 11.17-18; 12.10-12; 15.3-4; 19.1-2; 19.6-8); o hino fúnebre pela queda da Babilônia (Ap 18); uma exortação para louvar a Deus que é, aparentemente, também um hino (Ap 19.5).
- Em Apocalipse 4.1, João foi convidado para visualizar o culto diante do trono. O culto celestial era conduzido por seres celestiais, mas em vários momentos o visionário deixa aberta a possibilidade da participação humana neste culto, como parece ser o caso no contexto do episódio do Cordeiro e seus seguidores sobre o monte Sião. Não apenas o autor de Apocalipse tinha acesso a este espaço privilegiado de adoração, mas, aparentemente, todos os seguidores do Cordeiro quando reunidos em suas assembléias litúrgicas.
- Seguindo a sugestão de Aune267 e Barr268 sobre a função dos apocalipses, o Apocalipse de João teria o potencial de gerar experiências similares às do seu autor. O visionário não quer apenas revelar o que viu, mas habilitar sua audiência a ver o que ele viu e como ele viu. É o que Rowland chamou de “realização profética da Escritura”, quando textos visionários (Ezequiel 1, entre outros) se transformaram em ferramentas pelas quais novas visões eram geradas.269 João não deseja simplesmente revelar o culto celestial, mas levar os que ouvirem sua obra, num contexto de culto, a participarem deste mesmo culto.
Estes elementos parecem demonstrar, assim, não só a importância da liturgia para o Apocalipse, mas apontar o culto como o contexto vital da obra. Mergulhado nesta atmosfera, o livro de João foi produzido para ser recitado num culto. Suas expressões litúrgicas, quer compostas por João, quer adaptadas dos cultos de suas comunidades, não apenas comunicariam uma revelação, mas cantariam a forma como os “santos” se viam no mundo.