1. GİRİŞ
1.1. Sosyal Bilgilerin Tanım ve Kapsamı
De acordo com Lefèvre e Lefèvre (2005a; 2005b; 2010), o DSC se fundamenta em duas abordagens teóricas: a Teoria das Representações Sociais, de Serge Moscovici (1978), e a Teoria da Reprodução Social, de forma bem mais específica nos conceitos de esquemas sociocognitivos e habitus, formulado essencialmente por Pierre Bourdieu (1988).
O conceito de representações sociais foi inicialmente trabalhado por Émile Durkheim na sua obra As regras do método sociológico (1895), sendo denominado de “representações coletivas”, que “constituíam uma classe muito genérica de fenômenos psíquicos e sociais” (MOSCOVICI, 1978, p. 42). Durkheim “quis assim designar a especificidade do pensamento social em relação ao pensamento individual” (MOSCOVICI, 1978, p.25). Porém, em 1978, Serge Moscovici trabalha esse conceito sob outra perspectiva em sua obra A representação social da Psicanálise (1978). De acordo com Crusoé (2004) a discussão iniciada por Durkheim foi de suma importância para que Moscovici buscasse na sociologia um contraponto para a perspectiva individualista da psicologia social.
Moscovici (1978) defende que a representação social deve ser encarada “tanto na medida em que ela possui uma contextura psicológica autônoma como na medida em que é própria de nossa sociedade e de nossa cultura” (MOSCOVICI, 1978, p. 45). Assim, a representação social possui duas dimensões, sujeito e sociedade, e situa-se “na encruzilhada de uma série de conceitos sociológicos e de uma série de conceitos psicológicos” (MOSCOVICI, 1978, p. 41), tornando-se um conceito difícil de apreender.
O conceito trabalhado no DSC tem sua fundamentação naquele apresentado por Serge Moscovici (1978), que trouxe a noção de que representar é um fenômeno cotidiano, que se desenvolve em um determinado contexto social, onde o indivíduo se apropria dos valores construídos na coletividade, internalizando-os para então expressar ideias consensuais em prol da comunicação. Portanto, para ele, o conceito de representação social se refere a um fenômeno produzido e partilhado coletivamente e que contribui para a construção social da realidade, orientando comportamentos e comunicações e permitindo interpretar os acontecimentos do cotidiano (CRUSOÉ, 2004).
Assim, de acordo com Moscovici (1978), fica claro que as representações não são criadas por um indivíduo de forma isolada. O autor acrescenta que elas são
objeto de um permanente trabalho social, no e através do discurso, de tal modo que cada novo fenômeno pode ser sempre reincorporado dentro de modelos explicativos e justificativos que são familiares e, consequentemente, aceitáveis (MOSCOVICI, 2004, p.216).
Ainda buscando definir as representações sociais, Moscovici (1978) declara que:
[…] elas circulam, se entrecruzam e se cristalizam continuamente, através duma palavra, dum gesto, ou duma reunião em nosso mundo cotidiano. Elas impregnam a maioria de nossas relações estabelecidas, os objetos que nós produzimos ou consumimos e as comunicações que estabelecemos (MOSCOVICI, 1978, p. 41). As representações nascem na e para a sociedade, sendo, portanto, sociais. Assim, os saberes que foram criados na História serão sempre reinterpretados, sofrendo alterações semânticas, a fim de facilitar a comunicação entre grupos, de acordo com cada geração.
Jodelet (1989, p. 54) afirma que as representações sociais constituem-se em um
Ato de pensamento pelo qual o sujeito se refere a um objeto. Este tanto pode ser uma pessoa, uma coisa, um acontecimento material, psicológico ou social, um fenômeno natural, uma ideia ou uma teoria, etc.; tanto pode ser real como imaginário ou mítico, mas será sempre requerido. Não há representação sem objeto (JODELET, 1989, p. 54).
As representações podem ser vistas, portanto, como um importante recurso de análise de aspectos sociais, uma vez que nos ajudam a compreender como o indivíduo se constitui a partir de suas relações. Desta forma, a Teoria das Representações Sociais recupera o sujeito que, através de sua ação e relação com o mundo, constrói o mundo e a si próprio e ainda, nessa relação, constrói saberes sociais. Sobre isso, Lefèvre e Lefèvre (2010) afirmam
que, de modo geral, as representações sociais de um determinado grupo sociocultural ou são semelhantes ou apresentam algo em comum, o que o faz ser diferente de outro grupo.
Assim, no que se refere à Teoria das Representações Sociais, o DSC encontra o seu suporte em uma visão socioantropológica da realidade social e no pensamento dos sujeitos de determinada formação sociocultural representada pela concepção e ação dos sujeitos. Vale lembrar que a formação sociocultural dentro dessa visão é concebida como “um sistema de troca (diálogo, conflito, conciliação, confronto etc) de ideias, e para que elas possam ser trocadas precisam ter algo em comum” (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2010, p. 30).
Portanto, sobre essa fundamentação, os autores Lefèvre e Lefèvre (2005b) justificam a adoção da visão socioantropológica para compreender o pensamento de uma coletividade:
Adota-se, aqui, um pressuposto socioantropológico de base na medida em que e entende que o pensamento de uma coletividade sobre um dado tema pode ser visto como um conjunto de discursos, ou formações discursivas, ou representações sociais existentes na sociedade e na cultura sobre esse tema, do qual, segundo a ciência social, os sujeitos lançam mão para se comunicar interagir, pensar, Bourdieu fala a respeito dos habitus como esquemas sociocognitivos (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2005b, p. 16).
Os sistemas simbólicos, e dentro deles as representações sociais, portanto, não se dão no vazio, eles sofrem uma grande influência do contexto sócio-histórico em que determinados grupos estão inseridos. Assim sendo, “os indivíduos não pensam ou tem ideias, opiniões sobre qualquer coisa, mas sempre sobre temas social ou coletivamente compartilhados” (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2010, p. 22). Por outro lado, os sujeitos também influenciam as relações sociais, culturais, políticas, deste mesmo contexto em que vivem e, consequentemente, as representações são influenciadas pelos atributos ou lugares de onde falam.
Essa discussão da relação entre pessoa e sociedade encontra seu fundamento na Teoria da Reprodução Social de Bourdieu e de Passeron, cuja categoria base é o habitus18, conceito que já fora utilizado por muitos teóricos antes de Bourdieu. Entretanto, construir a noção de habitus para ele significava compreendê-la como um
sistema de esquemas adquiridos que funciona no nível prático como categorias de percepção e apreciação, ou como princípios de classificação e simultaneamente como princípios organizadores da ação, significava construir o agente social na sua verdade de operador prático de construção de objetos (BOURDIEU, 1988, p. 26).
18 De acordo com Bourdieu (1982, p. 25), essa noção já havia sido utilizada por autores como Hegel, Husserl,
Weber, Durkheim e Mauss, de uma forma mais ou menos metódica, entretanto, o seu conceito rompe com a visão desses autores, diferenciando-se pois da tradição idealista, positivista, dentre outras.
Nesse sentido, o individual, o pessoal e o subjetivo são ao mesmo tempo sociais e coletivamente orquestrados. O habitus é, então, uma subjetividade socializada (BOURDIEU, 1992). Bourdieu afirma que o cientista social “pode descobrir a necessidade, a coação das condições e dos condicionamentos sociais, até no íntimo do sujeito” (BOURDIEU, 1988, p. 27). Através da forma do que ele denomina de habitus. O autor ainda complementa que
a análise das estruturas objetivas- as estruturas dos diferentes campos- é inseparável da análise da gênese, dos indivíduos biológicos, das estruturas mentais ( que são em parte produto da incorporação das estruturas sociais) e da análise da gênese das próprias estruturas sociais: o produto de lutas históricas ( nas quais os agentes se comprometem em função de sua posição no espaço social e das estruturas mentais através das quais eles apreendem esse espaço) (BOURDIEU, 1988, p. 26).
Compreendemos que cada grupo social mediante e em função das condições objetivas que caracterizam sua posição na estrutura social constitui um sistema específico de disposições e de predisposições para a ação, gerando assim o habitus incorporado pelos indivíduos (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2004). É importante ressaltar que os indivíduos podem agir de duas formas: em conformidade com o habitus de um determinado grupo ou classe social, seja de forma voluntária, ou podem ser coagidos por algum tipo de violência simbólica.
À luz dessas teorias, que nos trazem os conceitos de Representações Sociais e de habitus é que fomos buscar a compreensão do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) presente nos discursos dos sujeitos envolvidos nos programas de tutoria investigados, pois eles apreendem essa realidade com mais propriedade por estarem mergulhados nesse contexto.
2.2. Método Discurso do Sujeito Coletivo (DSC): princípios básicos e conceitos