4. BULGULAR VE YORUM
4.2. Sosyal Beceri Öğretiminde Müzikal Etkinliklere Dönüştürülmüş Sosyal Öykü
Segundo Costa (1999), um dos processos de ocupação camponesa do Norte de Minas se deu em torno dos séculos XVII-VXIII com a chegada de diversas frentes de ocupação da região por colonos europeus que vinham se estabelecer por aquelas terras, visando explorar a região e ocupá-la. Em seus trabalhos sobre a meso região mineira, o autor a trata como sendo uma “sociedade em fronteiras”, expressão que designa aqueles lugares “abertos” aos estrangeiros, aos chegantes, aos forasteiros – como lugar daqueles que passam, mas não se fixam. Segundo ele, essa era a forma como o Norte de Minas poderia ser pensada naquele momento, caracterizado como lugar de fronteira, se constituída por um fluxo de pessoas
vindas de várias regiões do Brasil e do mundo e que por lá se estabeleciam, ainda que não fosse a maioria delas.
Na sociedade norte mineira, segundo Costa (1999), havia uma grande diversidade indígena no período que vai até o século XVIII, antes da chegada dos portugueses e dos bandeirantes na região. Além de grupos indígenas, também é possível afirmar a existência em torno do médio São Francisco de pequenos agrupamentos de africanos e descendentes fugidos da escravidão, os quais deram início à formação dos quilombos nessa região. Segundo consta, os quilombos se localizavam geralmente no interior da floresta da caatinga arbórea existente no vale do rio que, posteriormente, ficou conhecido como Rio Verde Grande.
É comum ouvir dos próprios moradores em Matias Cardoso relatos que remetem à existência de muitos quilombos naquela região, constituídos desde períodos de colônias. Consta na história popular do município que a recorrência de negros e das comunidades remanescentes dos quilombos, que hoje caracterizam a região, se deve à forte incidência de malária que assolava a região, nos séculos anteriores. Contam que os colonizadores portugueses, não resistentes à doença, evitavam áreas onde sua incidência fosse alta. Essa mesma situação é contada por Costa (1999), que explica o fato de os quilombos terem surgido naquelas mediações. Tendo em vista que os escravos partidos não queriam nenhum contato com a sociedade escravocrata, eles buscavam se fixar em áreas consideradas pelos portugueses e seus descendentes de difícil acesso por razões de doenças, corredeiras, terras íngremes, furnas ou vãos “nos cafundó do Judas” dentro de florestas.
Além da diversidade de etnias indígenas e do grande foco de comunidades quilombolas, outra importante marca da história do Norte de Minas foi a existência das bandeiras anônimas, uma delas comandada pelo bandeirante Mathias Cardoso. Este bandeirante se fixou na região que hoje leva seu nome, e deu início ao que podemos chamar de segunda etapa do processo de povoamento da região e introdução da economia de pecuária no município.
Antes da consolidação dessa frente de expansão no território, hoje chamado Matias Cardoso, a região era conhecida como Currais da Bahia e Currais de Pernambuco, em função do intenso comércio de gado e produtos alimentícios que se estabeleceu com a cidade de Salvador. No final do século XVII, a mineração já se encontrava no seu auge, tendo esses produtores-pecuaristas construído forte relação com os mineradores, que os pagavam em ouro o alimento adquirido12. Assim, como forma de impedir que o ouro saísse mais para o sertão
12 O comércio com a sociedade baiana era tão intenso e lucrativo que possibilitou à população de Morrinhos
(hoje Matias Cardoso) construir uma imensa igreja, dedicada a Nossa Senhora da Conceição – a primeira de
são franciscano do que para Portugal, o Governo Geral da colônia decidiu que a região dos “currais da Bahia” seria anexada à nascente Capitania de Minas Gerais, criando assim um obstáculo ao comércio com a criação de novas regras de impostos.
É interessante constatar que esses bandeirantes vieram se estabelecer também nas margens do rio Verde Grande e em sua foz com o rio São Francisco, próximo aos quilombolas e indígenas. Como conseqüência, muitas lutas contra sociedades indígenas e africanas ali presentes foram travadas, o que levou à morte de muitos africanos e seus descendentes que viviam nos quilombos nas proximidades do rio. Costa (1999), em extensa pesquisa sobre os bandeirantes no Brasil, conta que eles se retiraram logo mais das proximidades do rio Verde após uma enchente e foram se fixar nas margens do rio São Francisco, onde hoje é o município de Matias Cardoso.
Outro fato histórico importante destacado por Costa é o encontro dos paulistas, que subiram e também se fixaram no médio São Francisco, com os baianos, que também se estabeleceram nessa região ao se depararem com os criadores de gado. Ele conta que esses grupos iniciaram um processo de comercialização de gado e de gêneros alimentícios, ao mesmo tempo em que cumpriam seu objetivo principal: capturar índios para serem vendidos como escravos e exterminar quilombos. Nesse mesmo período, imigrantes italianos também se fixaram nos sopés da serra do Espinhaço, região de Porteirinha, Mato Verde, Rio Pardo de Minas e Riacho dos Machados, introduzindo aí uma nova racionalidade na região, diferenciada das populações que ali viviam.
Como é possível observar, várias correntes civilizatórias passaram pelo norte de Minas. A partir de 1613 o curso médio do rio São Francisco já era todo cartografado e muitos índios e quilombolas foram presos no sertão afora. Essas frentes se viam cumprindo a função de “civilizar” a região e as populações nativas que nela viviam, cuja lógica territorial e cultural deveriam ser transformadas e elevadas ao padrão cultural dos brancos.
A ênfase na idéia de “sociedade de fronteira” se justifica pela própria forma como as sociedades do norte mineiro foram se constituindo, ou seja, conjugando ao seu nascimento culturas paulistas e baianas por um lado, indígenas e quilombolas por outro. Essas correntes de entrada no sertão produziram uma grande diversidade cultural regional, porém, com
território do Estado de Minas Gerais. Fato que ocorreu no ano de 1695, antes mesmo da fundação do Arraial de Nossa Senhora do Carmo, hoje Mariana, que aconteceu em julho de 1696, alguns meses depois. Foi nomeado para pároco o padre Antônio Thomaz Corvelo Garcia D’Ávila que, posteriormente, em 1706, passou também a atender à população localizada no território do atual município de Curvelo, até onde sua paróquia se estendia. Pároco esse que posteriormente aí se instalou definitivamente para contribuir com os criadores de gado na luta contra a administração colonial, principalmente nos conflitos da Vila do Papagaio. (extraído do site da
Prefeitura de Matias Cardoso em julho de 2011 –
características singulares em relação ao restante do Brasil. Filho (2005) comenta que o norte de Minas
“é um território de encontro entre as bacias do Rio São Francisco, Jequitinhonha e
Pardo de Minas. Ao mesmo tempo, de encontro e confronto desse conjunto diferenciado de histórias de ocupação econômica, políticas de desenvolvimento e matrizes de racionalidade. Constituindo-se um complexo mosaico de substrato sócio-ambiental, representativo das muitas contradições da experiência mineira e, por que não dizer, brasileira, de políticas para o desenvolvimento rural” (p. 88).
Como resultado do processo histórico de ocupação do território, dos fluxos migratórios e da expropriação de terras de grupos sociais tradicionais que já existiam na região, hoje há um total de 84 comunidades no Norte de Minas reivindicando junto à Fundação Cultural Palmares o reconhecimento étnico (COSTA, 2011, p.59). Cabe ressaltar que a identificação de povos tradicionais, como anexo da sociedade moderna, está baseada, de forma geral, nos direitos humanos, nas normas internacionais e na Constituição Federal Brasileira que, através da Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, criou no ano de 2004 o decreto 6040, editado em fevereiro de 2007 pelo presidente da república (GAWORA, 2011). Esse decreto prevê, entre outras coisas, um processo de direito ao território por parte das populações e comunidades tradicionais, “dado que a afirmação do mesmo passa pela reafirmação da cultura e pelo reconhecimento da identidade pelo governo federal” (COSTA, 2011, p.60).
No que concerne às questões territoriais e agrárias, no norte de Minas hoje há uma intensa discussão em torno do reconhecimento identitário de suas populações rurais que se reconhecem como diferenciadas. São vários os estudos que nos últimos dez anos vem tornando visíveis esses povos e os processos políticos em que estão envolvidos. A seguir, faço um breve percurso sobre alguns deles.