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2. KURAMSAL BİLGİLER

2.11. Sosyal Öykü

O modelo francês de intervenção sobre os menores autores de crimes é um dos mais antigos e mais influentes da Europa. Ele influenciou a legislação de vários países europeus e o direito internacional. A especialização do direito penal francês até sua consolidação na Lei de 2 fevereiro de 1945 ocorreu de forma lenta e gradual. Apesar das pressões político- midiáticas e das inúmeras reformas sofridas, esse texto continua em vigor na França.

Nesta seção, traçamos um breve percurso histórico da legislação penal francesa sobre os menores infratores até 1945. O movimento atual será descrito na seção seguinte, quando trataremos da consolidação do modelo de intervenção instaurado pela “Ordonnance

du 2 février 1945”. Não pretendemos fazer uma análise histórica exaustiva36 do direito penal francês sobre a infância37. Nosso objetivo é destacar as grandes diretrizes que orientaram a política penal e a gestão do tratamento dos menores infratores. Vamos procurar mostrar a transformação dessa política, especialmente a passagem de um modelo fundado sobre a infância considerada um “adulto em miniatura” a um modelo fundado numa concepção de infância como um ser em evolução, diferente do adulto e que merece um tratamento específico.

A formação de um direito penal francês dos menores ocorreu de maneira gradual. A criança era considerada como um simples objeto, uma propriedade dos seus pais. Como a criança não existia socialmente, não existia um direito específico que lhe concernia (Ariès, 1973). Os menores infratores receberam um tratamento diferenciado a partir do final do século XVIII mas sem a existência de uma legislação e de uma justiça especializada.

36 Para evitar o risco de reducionismo, ou uma leitura linear, como nos alerta Bailleau (2009, p. 18), vamos buscar precisar

o contexto de adoção e de aplicação das leis.

37 Uma boa análise histórica é feita em Yvorel (2007). Ver especificamente sobre a legislação relativa à delinquência

Apenas no início do século XIX, com o Código Penal de 1810, aparecem na França os primeiros dispositivos específicos para o tratamento dos menores infratores. Nesse período são estabelecidos os critérios de atenuação das penas para os menores. A característica involuntária e inconsciente do ato infracional era levada em consideração e resultava em atenuação que beneficiava aqueles que ainda não tinham atingindo pleno desenvolvimento (Garapon, 1965). Foram definidas também algumas categorias de crianças marginalizadas, tais como as crianças em profissões ambulantes, as vítimas de maus tratos e os menores envolvidos na prostituição. Esse período, no qual ainda não havia uma especialização do tratamento dos menores infratores e vigorava o primado da punição e do castigo como intimidação, foi marcado pela apreciação soberana do juiz, que detinha uma grande liberdade de interpretação (Laingui, 1993; Robert, 1993).

Como a lei não fixava uma delimitação da idade para a minoridade, a atenuação das penas para os menores infratores dependia exclusivamente da avaliação do juiz, que considerava, na aplicação destas, o caráter do menor , a gravidade e as circunstâncias do crime. O resultado era que a única regra válida na aplicação e atenuação das penas advinha da soberania do juiz. O que redundava, invariavelmente, em sentenças arbitrárias onde a minoridade era reduzida ou estendida livremente. Não havia um critério uniforme que orientava a decisão se o menor seria ou não objeto de um tratamento específico.

Esse critério foi estabelecido pela introdução do discernimento como fator para embasar a decisão dos juízes. Esse novo dispositivo do direito penal discriminava adultos e menores, inovando ao estabelecer a avaliação do grau de consciência do menor sobre seu ato e fixando a maioridade penal aos dezesseis anos (Robert, 1993). A questão que orienta a decisão do juiz passa a ser, se o menor acusado e culpado cometeu o crime com ou sem discernimento. Se a resposta fosse afirmativa, o menor era excluído da intervenção educativa e condenado a uma pena que, por sua vez, era atenuada em função da sua idade. Se a resposta fosse negativa, o menor era absolvido e enviado a um estabelecimento de correção onde era internado para ser reeducado ou entregue aos cuidados da família.

Assim, além de fixar um limite etário para a maioridade penal e de consagrar a atenuação das penas para os menores infratores, são introduzidas medidas de reeducação, como a entrega aos cuidados da família e o envio a estabelecimentos de correção. Entretanto, não é adotada a especialização dos procedimentos e da jurisdição, tanto os

procedimentos jurídicos quanto a justiça continuam sendo os mesmos previstos para os adultos. Se a maioridade penal foi fixada na idade de 16 anos, a idade limite da presunção da irresponsabilidade penal absoluta foi deixada, porém, em aberto.

A introdução das medidas de reeducação, na prática, tiveram um alcance muito restrito, tendo em vista que os estabelecimentos de correção previstos na legislação não foram estruturados e organizados para um atendimento especializado. Eram enviados e internados nas mesmas instituições, tanto para estabelecimentos privados quanto públicos, adultos e menores, com e sem discernimento. O primeiro estabelecimento público francês

destinado aos menores infratores foi criado em 1836, “la Maison d´Education

Correctionnelle de la Petite Roquette”38. As colônias agrícolas foram criadas logo depois, com o objetivo de substituir o isolamento e o modelo panóptico das instituições correcionais pelo modelo familiar. A colônia agrícola de “Mettray”39, mais famosa da França, foi construída em 1839 e se manteve, durante 100 anos, apesar de susbstituída a ideia original da pena educativa pela disciplina militar . A regra era a promiscuidade no tratamento de adultos e menores, sejam aqueles condenados ou absolvidos segundo o critério do discernimento, os quais permaneciam internados durante muitos anos. Desta forma, na prática dos tribunais e dos estabelecimentos de correção, a infração e o desvio recebiam o mesmo tratamento. Os menores julgados e classificados como sem discernimento, especialmente aqueles abandonados e vadios, raramente eram entregues à família e eram majoritariamente internados nas instituições correcionais. Assim, tanto os menores condenados ou absolvidos, com ou sem discernimento, eram internados junto com os adultos, em razão do número insuficiente de centros de internação para menores.

Desta forma, os estabelecimentos, sejam aqueles inspirados nas instituições correcionais como “la Petite Roquette” ou no modelo das colônias agrícolas, como “Mettray”, construídos para a aplicação da legislação concernente aos menores julgados e condenados por infração ou desvio, tornaram-se cada vez mais repressivos abandonando rapidamente as ideias originais de educação e reinserção.

A reação às deformações da aplicação da legislação referente aos menores delinquentes nos estabelecimentos correcionais e nas colônias penitenciárias levaram a um

38Sobre a história da “Petite Roquette”, ver Dupont-Bouchat (1996) e Yvorel (2007). 39Sobre a história de “Mettray”, ver Dupont-Bouchat (1996) e Yvorel (2007).

movimento de reformas legislativas e judiciárias. A especialização da justiça de menores foi marcada pelo abandono do critério de discernimento e pela adoção de duas leis: a lei de 22 de julho de 1912 e a lei de 27 de julho de 1942. Desenvolve-se uma corrente contra o

“paradigma lombrosiano” no direito penal francês, no qual são cruciais tanto o estudo da

personalidade do criminoso quanto a necessidade de individualização da pena. Foram propostas reformas que adaptassem a resposta penal ao indivíduo e às suas capacidades de evolução. Essa corrente foi a origem de inúmeras reformas legislativas no domínio penal dos menores. O conhecimento sobre os indivíduos, especialmente menores e a sua educação tornaram-se tema dominante (Bourquin, 1997).

A definição da maioridade penal para a idade de 18 anos, a criação do primeiro "Tribunal Pour Enfants (TPE)", bem como a adoção da liberdade vigiada, como alternativa à prisão, exprimem essa evolução e especialização da justiça de menores. Nessas medidas verifica-se uma forte influência do modelo “protetivo” norte-americano, corporificada na replicação dos tribunais pra menores infratores. O objetivo das medidas era retirar os menores do sistema repressivo tradicional dos adultos, fazendo uso da aplicação da liberdade vigiada, como alternativa ao encarceramento, e adotar a concepção do juiz

“paternal”.

A lei de 22 de julho de 1912 traz dois princípios inspirados na legislação norte- americana para o tratamento dos menores infratores, fundamentados mais na intervenção educativa do que na repressão. O primeiro princípio estabelece que os menores devem ser julgados por juízes especializados e submetidos a procedimentos especiais. O segundo estabelece que os menores não devem estar submetidos apenas ao sistema de penas, mas submetidos a um tratamento educativo de longo prazo. A lei prevê um regime penal específico para os menores infratores e desviantes, mas não estabelece a primazia da intervenção educativa sobre a sanção penal, o que só acontecerá 30 anos mais tarde, com a legislação de 1945. As principais transformações trazidas por essa lei foram, em primeiro lugar, a criação de tribunais especializados sem, no entanto, especializar o juízes, onde apenas os menores, com idade entre 13 e 18 anos, poderiam ser julgados, estabelecendo assim um limite definitivo para a responsabilidade penal.

Em segundo lugar, a questão do discernimento é mantida, mas é restrita à aplicação aos menores com idade entre 13 e 18 anos. Foi reconhecido o status de irresponsabilidade

penal para os indivíduos com idade inferior a 13 anos e para esses indivíduos, o critério do discernimento foi suprimido, visto que passam a ser beneficiados pela presunção da irresponsabilidade absoluta. E, embora possam vir a ser julgados nos tribunais especializados, a eles só serão aplicadas medidas educativas em estabelecimentos de assistência social. O Tribunal Especializado de Menores passa, então, a ter competência para julgar os menores com idade entre 13 a 16 anos autores tanto de delitos quanto de crimes. No entanto, apenas para aqueles acusados de delitos com idade entre 16 e 18 anos, é que o julgamento se dará no Tribunal Especializado40. Os menores acusados por crimes

serão julgados pela “Cour d´Assises” submetidos aos mesmos procedimentos judiciais e

penas previstos para os adultos. Segundo Bourquin (1997), os reformadores foram especialmente severos com os adolescentes autores de infrações classificadas como crime.

Além de estabelecer os tribunais especializados, é introduzida outra inovação de origem anglo-saxã, o regime de liberdade vigiada. Esse regime foi destinado aos menores com idade entre 13 e 18 anos, fazendo com que a internação, nos estabelecimentos correcionais e nas colônias peninitenciárias, deixassem de ser a única opção dada aos juízes para aplicação de medidas.

Assim, a lei cria a possibilidade do menor permanecer com a família, sendo supervisionado por um delegado do Tribunal. Entretanto, apenas o menor que não era

considerado “vicioso” poderia ser entregue a sua família, que também deveria ser avaliada e classificada como “honesta”. Só após a avaliação do Tribunal, é que o menor poderia ser

posto em liberdade, mas sob tutela e vigilância judicial. Também foi prevista a continuidade da ação educativa através da previsão da reversibilidade da medida, onde o juiz podia reavaliar e alterar suas decisões. Dessa forma, a internação nos estabelecimentos prisionais passa a estar suscetível de revisão seja pelo juiz, seja pelo Ministério Público ou pela família do menor.

Outra inovação advinda da lei foi a regulamentação da pesquisa social e da observação do menor para a realização de levantamentos e investigações sobre sua personalidade, seu meio familiar e comunitário, subsidiando a decisão do juiz quanto à adequação da medida. Também foram introduzidos certos procedimentos do direito

40 Para os crimes, não foi estabelecida nenhuma regra especial na Lei de 1912, os menores autores de crimes continuam

comum, limitando os procedimentos penais do Ministério Público e estabelecendo um defensor para o menor.

Apesar dos avanços e das inovações introduzidas pela legislação de 1912, especialmente quanto à especialização da jurisdição e as orientações menos repressivas e mais educativas, seus objetivos não foram alcançados e, na prática, esta fracassou (Charvin; Gazeau; 1996). As principais questões não enfrentadas foram a ausência do juiz especializado de menores, a ausência de profissionais para a aplicação da medida de liberdade vigiada e as punições e severidade excessivas dos estabelecimentos correcionais e colônias agrícolas. Assim, apesar da ampla frente de inovações trazidas pela lei, houve uma série de resistências e dificuldades enfrentadas pelos aplicadores para transformar as estruturas de atendimento e o modo de funcionamento da justiça juvenil.

Como vimos, além das deficiências na sua aplicação, a principal crítica em relação à lei foi a manutenção do critério do discernimento e sua deformação pelo uso arbitrário feito pelos juízes. O critério do discernimento permitia aos juízes aceitar ou descartar as medidas de reeducação que a lei garantia aos menores. E os juízes não estavam preocupados em identificar o grau de discernimento e responsabilidade dos menores em relação ao ato infracional, mas, sim, se eles eram ou não suscetíveis de serem beneficiados pelas medidas de reeducação. Como analisado por Yvorel (2007), essa lei foi aplicada apenas nas grandes cidades francesas em função da sua complexidade e, sobretudo, em razão da escassez de recursos, especialmente no que concerne à nova medida de liberdade vigiada. Além disso, na prática, a liberdade vigiada foi desviada de seu objetivo inicial. Introduzida na justiça juvenil como alternativa às medidas de encarceramento, acabou reforçando a internação facilitando o trabalho dos supervisores do Tribunal de Menores que encaminhavam os