• Sonuç bulunamadı

Desde o início da interação com a família extensa, faço referência ao fato de viver em situação de família. A afirmação parte do nível de proximidade das relações cotidianas observadas na interação com essas unidades domésticas multinucleadas que se assemelham a uma família nuclear no tocante às trocas cotidianas.

Apesar do elevado número de pessoas – levando-se em consideração os fatos de residirem na mesma casa e de os diferentes laços de parentesco, nem sempre, serem de primeiro grau – elas não vivem na casa desvinculadas, como num albergue ou numa pensão. Há uma forma de se relacionar, como numa família, em que as pessoas trocam obrigações

recíprocas e se protegem. O fato de referência dessa realidade social reside em uma panela só, que se abre para a rede de parentesco vizinha e denota a organização do arranjo econômico.

As obrigações recíprocas podem ser de trabalhos na moradia para o coletivo familiar ou direcionadas a parentes. As trocas mais comuns estão na luta da casa, como no caso da neta de Selene, que não mora (no sentido de dormir) na residência da avó, mas almoça e passa a maior parte do dia; então é convidada a cortar verduras ou fazer compras para ajudar a avó. Na unidade doméstica de Selene, observei ainda que a atual companheira da sua filha mais velha se incumbiu de acompanhar o seu filho Silvino ao médico após ter sido atropelado e por essa ajuda passou a ser bastante valorizada na família pela matriarca.

Situação semelhante se observa nas casas de Rita e sua filha que não cozinha em sua residência, sendo sua unidade habitacional dormitório de apoio à família. Sobre as trocas, observei a posição do filho de Pai Vito que, na sua ausência, assume a figura paterna na casa das irmãs junto aos sobrinhos e ante os demais homens do Bairro.

Os participantes da rede familiar, em razão das precárias condições financeiras, passam por necessidades, ou seja, privações de alimentos, de remédios, água, no entanto, apesar de suas condições indesejáveis de vida, eles têm características solidárias de se relacionarem entre parentes. Uma relação de não-exclusão e interação, pautada numa dependência recíproca, em que onde um come todos comem, não havendo assim ênfase na diferenciação entre os que têm dinheiro e os que não têm, entre quem trabalha e quem não trabalha; a mesa é aberta à partilha de todos, sem exclusões. Portanto, todos comem de uma panela só.

Quem chegar aqui come – esse é um tratamento de igualdade entre os membros.

Isso não significa que não haja diferenças nem que todos sejam merecedores igualmente da oferta alimentar diária. A igualdade reside na inclusão como um bem de todos. Uma pessoa não vai ser excluída do grupo por não contribuir. Quem chegar à casa come do que tiver na

panela e vai ter um lugar para dormir, pois a mãe “apoia” todos os filhos.

Onde come um comem dois– essa forma de se relacionar é cotidiana nas relações

familiares de grupos pequenos e relações de parentesco diretas e próximas, no entanto a rede de parentesco é um conjunto familiar complexo: situado no contexto urbano, de valorização da individualidade, com acesso à cultura de massa. Nessa perspectiva, a “mesma panela” é um fato determinante para compreender as relações ocorrentes no interior dessa rede, que, apesar de extensa, tem sua sociabilidade baseada numa interação de proximidade com a parentela,

por exemplo, uma cesta básica recebida por um participante no trabalho resulta em benefício para todos.

Na família extensa, o papel de provedor não é assumido pelos filhos na ausência do pai, a provisão é obrigação de todos os participantes economicamente ativos, no entanto, por ser diluída, não é direcionada a nenhum dos filhos ou netos no sentido da cobrança. Por exemplo, um filho solteiro que tenha emprego formal e renda fixa não assume a provisão para si, não há a figura do filho “arrimo de família”. A responsabilidade pelos alimentos é de todos, gerando uma expectativa no outro, mas sem a exigência da provisão aos pares. Comum, somente a mãe introjeta a obrigação moral de oferecer os suprimentos e manter o padrão alimentar.

A inexistência do “arrimo” decorre da dificuldade da renda de um dos membros de ser suficiente para uma rede extensa e do não-reconhecimento deste com a obrigatoriedade da provisão dos irmãos, pais, sobrinhos e cunhados. Desse modo, na modalidade nuclear, quando a provisão é passada para um filho na ausência de renda dos pais, há uma ligação direta de parentesco em detrimento dos fluidos laços de parentesco afins na modalidade extensa. Esta situação leva à compreensão de que a unidade da família não é plena, mas feita de partes. Desse modo, com base no exemplo citado, vê-se que a rede de proteção não funciona quanto à cobrança de provisão de um dos membros para o coletivo. Há espaços para individualidades no coletivo, mas não sem expectativas e cobranças. A ligação ocorre pela necessidade recíproca de proteção em virtude das parcas condições de renda.

No Brasil as redes que se estendem no parentesco na mesma unidade doméstica têm sido chamadas de famílias conviventes, e uma avaliação sobre essas unidades múltiplas revela um aumento da precariedade das condições de vida das famílias pobres e acentua a característica da organização em rede como apoio à sobrevivência, como denotam os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.