1. Araştırmanın Konusu, Yöntemi ve Kaynakları
1.4. Eserleri
1.4.2. Silsiletü E‘dâi’l-İslâm
A produção e a comercialização de frutas e hortaliças frescas, transacionadas no mercado internacional, envolvem empresas modernas e eficientes, que dispõem de estrutura logística adequada para operarem com enormes volumes e diversos tipos de produtos, dentro de elevados padrões de qualidade. Dessa complexidade emerge a diferenciação pela qualidade, custos e excelência da logística como principais elementos definidores de vantagem competitiva de empresas e países. A diversidade das preferências dos consumidores e as várias configurações de cestas de frutas e hortaliças formam um imenso mosaico de possibilidades e exigências que devem ser compatibilizadas de maneira adequada e em tempo real. Em termos globais, pode-se dizer que a produção de frutas e hortaliças no país internalizou as principais tecnologias compatíveis com a inserção competitiva no mercado internacional (Banco do Brasil, 1998).
As formas de organização do trabalho entre os participantes desse sistema (assalariamento, integração vertical ou outras vias de utilização da força de trabalho) emergem como um mecanismo fundamental de defesa face às mudanças no mercado. Collins (1993) considera que um espectro de relações de emprego ocorre na produção agrícola irrigada do vale do São Francisco, na região Nordeste do Brasil, na medida em que se expande uma produção de frutas e hortaliças para o mercado global e doméstico. No caso das exportações, o critério de qualidade tornou-se crucial para o atendimento da demanda crescente por frutas e hortaliças frescas, nos principais mercados importadores mundiais localizados no hemisfério norte, representados, principalmente, pelos Estados Unidos, os países da União Européia e o Japão, onde se encontram consumidores cujas
necessidades básicas de alimentação, em termos de quantidade, estão plenamente satisfeitas. Essa tendência abre novas perspectivas para a participação do hemisfério sul no mercado mundial de frutas e hortaliças, especialmente nas entressafras de colheita do hemisfério norte. A produção do Vale do São Francisco abastece, ainda, o mercado interno, representado pelas cidades do próprio Nordeste e as da região Centro-Sul do país. Tanto o mercado externo quanto o mercado doméstico de frutas e hortaliças apresentam características que dizem respeito a uma maior valorização de alimentos saudáveis na composição da cesta alimentar das pessoas.
O mercado de frutas e hortaliças apresenta duas características específicas, uma elevada perecibilidade (ainda maior em relação ao conjunto dos produtos agropecuários, naturalmente perecíveis) e uma produção intensiva em força de trabalho. Não se trata, porém, de identificar-se um regime de organização do trabalho a partir das características dos produtos ou da tecnologia que pode ser utilizada. Como observa Collins, faz sentido dizer que o cultivo extensivo de grãos se adéqua melhor às unidades de trabalho familiar; que o cultivo intensivo demanda uma força de trabalho disciplinada e que o trabalho assalariado é favorecido pela crescente mecanização e padronização de tarefas. Essas correlações, no entanto, conforme sustenta a autora, não são nem diretas e nem unidirecionais, ao contrário, são mediadas pelas ações das empresas e dos trabalhadores, que operam dentro de contextos políticos e legais historicamente específicos e no interior de redes de relações sociais estabelecidas. Além disso, não se pode deduzi-las das teorias de transição agrária, baseadas na abordagem do desenvolvimento capitalista, que prevê a substituição dos modos de organização do trabalho e não sua coexistência. Para a autora, regimes de trabalho emergem como o resultado de negociação e luta entre empresas e classes trabalhadoras em tempos e lugares específicos.
Para definir os tipos de arranjos de trabalho passíveis de adoção pelas empresas em operação no Vale do São Francisco, Collins (1993) aborda as três áreas de problemas relacionados com o gerenciamento do trabalho, tratadas pela literatura sobre reestruturação agrícola: a de qualidade, a de flexibilidade e a de estabilidade. Conforme argumenta a
autora, é razoável supor que as empresas contratantes irão optar por arranjos de trabalho mais adequados à solução dos problemas mais cruciais para o seu sistema produtivo. Collins contrasta a tendência ao deslocamento de grande quantidade de trabalho na agropecuária em geral (especialmente em produtos como o trigo, a soja, o sorgo e o gado), com a manutenção, em alguns subsetores, da necessidade de grandes quantidades de trabalho em caráter intensivo e sem perda de qualidade. A produção de frutas e de hortaliças enquadra-se neste último subsetor de produção, exigindo a realização de muitas tarefas. Collins lista três tipos de exigência com que habitualmente se defrontam as empresas que operam nos ramos da fruticultura e de hortaliças. Primeiro, os elevados padrões de qualidade dos nichos de mercado de compradores, difíceis de serem obtidos com técnicas de colheita mecânica; segundo, o cumprimento, no tempo adequado, dos procedimentos da produção; e, terceiro, o uso freqüente de tecnologias de irrigação. Por essas razões, diz a autora, as empresas envolvidas na produção de frutas e hortaliças requerem um investimento intensivo em trabalho, habitualmente maior do que em outros subsetores agropecuários. Por conseqüência, o subsetor de frutas e hortaliças encontra-se entre aqueles que mais experimentam arranjos diversificados de trabalho, tendo por referência a qualidade do trabalho, a flexibilidade da força de trabalho e a busca por estabilidade no uso do trabalho nos processos produtivos.
Collins (1993) argumenta que quando se produz frutas e hortaliças para o mercado nacional ou global, em contraposição aos mercados regionais, os produtos devem ostentar padrões globais de qualidade, do que resultam implicações no que diz respeito ao uso do trabalho na produção. Collins (1993) exemplifica esse aspecto da produção com a utilização da parceria na produção de morangos da Califórnia, como um modo de atingir uma qualidade do trabalho que é referida a situações em que aspectos como a eficiência, o cumprimento de prazos e a inventividade tornam-se cruciais no resultado do produto. Nesse sentido, de forma contrária aos conceitos de padronização e desqualificação aplicados com freqüência à agricultura, para algumas frutas e hortaliças os padrões de qualidade exigidos podem requerer uma força de trabalho qualificada e experiente. Os produtores, então, buscam formas de trabalho que permitam o monitoramento das plantas, o manuseio
cuidadoso da fruta e a observação de horários, e são estes aspectos que conferem ao trabalho o caráter de qualidade de que se está tratando.
Como já foi mencionado, o subsetor das frutas e das hortaliças apresenta um risco elevado para os produtores, tanto por problemas na produção e no transporte, quanto no que diz respeito a aspectos econômicos, o que inclui um alto grau de competição por fatias de mercado. Desta forma, além de enfrentar o imperativo da qualidade dos produtos, as empresas envolvidas nesse subsetor têm de fazer face ao problema de redução de custos de produção, o que leva à busca de formas flexíveis de organização do trabalho. Conforme Collins, o imperativo da flexibilidade refere-se à necessidade de garantir força de trabalho para o ciclo de produção de uma forma a minimizar os custos, o que significa, basicamente, fazer uso do trabalho temporário da forma mais barata possível. A flexibilidade, nesse caso, implica não apenas na redução de pagamentos aos trabalhadores, durante o tempo em que eles não estão em trabalho, como uma ausência de ofertas de benefícios, como seguro de saúde e, também, o não cumprimento das exigências da legislação trabalhista. Estratégias de emprego mais flexível, portanto, seriam compatíveis com a internacionalização crescente do mercado de trabalho.
Os imperativos de qualidade e de flexibilidade de custos, contudo, são considerados em perspectiva com a preferência dos empregadores por uma força de trabalho relativamente dócil e estável. Segundo Collins, essa dimensão política é crucial quando se considera a necessidade de se evitar qualquer interrupção em processos produtivos dessa natureza e, mesmo, movimentos reivindicatórios em torno de temas relacionados à proteção trabalhista. O imperativo de estabilidade na produção leva as empresas do agronegócio a evitarem, sempre que possível, a força de trabalho estável dos assalariados, optando por formas flexíveis, encontradas no contingente de trabalhadores sazonais (constituídos, muitas vezes, por mulheres) e nas parcerias ou contratos com agricultores familiares.
É importante considerar que, de uma maneira geral, os dilemas referentes à organização e gerenciamento do trabalho estão presentes no setor agropecuário como um
todo, como visto em capítulo anterior. Entretanto, o que Collins demonstra é que, em alguns subsetores, o equilíbrio dos aspectos de custo e de qualidade envolve, de forma mais aguda, o problema do gerenciamento do trabalho. Para o atendimento desses aspectos da produção, em subsetores específicos, a parceria e o contrato de trabalho familiar surgem como processos dinâmicos de organização e gerenciamento do trabalho em um mundo globalizado, ao invés de serem vistos como formas anacrônicas de produção no setor da agropecuária. Na fruticultura irrigada do Nordeste, especificamente, as empresas do agronegócio articulam o trabalho, em seus processos de produção, por recorrência aos três imperativos delineados anteriormente: os padrões de qualidade estabelecidos no mercado internacional; a flexibilidade nos prazos e na remuneração dos trabalhadores; e a garantia contra a mobilização de trabalhadores e distúrbios na produção (como é o caso da sindicalização dos trabalhadores no subsetor da cana de açúcar). Collins (1993) constrói uma tipologia com três variações das melhores opções de arranjos de trabalho para o fornecimento do produto agrícola à empresa compradora, a partir dos três imperativos citados.
No caso de prevalência da exigência de alta qualidade do trabalho, em função dos padrões estabelecidos no mercado internacional, o melhor arranjo de trabalho aparece na forma de contrato ou parceria da empresa compradora diretamente com agricultores. Estas formas de arranjo de trabalho para a produção de frutas e hortaliças permitem a especificação de insumos a serem utilizados, do calendário a ser seguido e das práticas de trabalho a serem observadas, ao mesmo tempo em que se espera que os agricultores se dediquem ao monitoramento e ao cuidado com os cultivos, na forma característica de uma condição artesanal. Trabalhadores permanentes comporiam o arranjo intermediário, porque poderiam ser treinados para a aquisição de experiência e qualificação, embora ao custo de tempo e investimento em treinamento. Os trabalhadores temporários fariam parte do arranjo menos adequado, devido às dificuldades de supervisão e de melhoramento de sua força de trabalho.
Se a principal consideração na produção for uma flexibilidade de custos, o melhor arranjo de trabalho considerado envolve a utilização, pelas empresas processadoras ou distribuidoras, de trabalhadores temporários (usualmente informais). O segundo melhor arranjo de trabalho é o de contrato ou parceria com agricultores, tendo em vista a redução de custos que é associada ao caráter usualmente temporário dos contratos de produção (são anuais, normalmente). Para a redução de custos, o arranjo de trabalho menos adequado aparece na forma dos trabalhadores permanentes protegidos pela legislação trabalhista.
Quando se considera, em primeiro lugar, os aspectos restritivos da sindicalização e da mobilização política dos trabalhadores, as preferências das empresas recaem sobre os contratos e parcerias com agricultores. Os trabalhadores permanentes ocupam o arranjo de trabalho menos desejado, enquanto que os trabalhadores temporários ficam no espaço intermediário. Neste caso, a parceria pode ser a melhor escolha em cadeias produtivas do agronegócio, como alternativa ao poder de pressão que se origina nas organizações políticas dos trabalhadores assalariados. Os trabalhadores sem proteção trabalhista são, também, menos organizados politicamente, porém seu trabalho não se vincula à produção com a mesma intensidade obtida dos parceiros ou agricultores sob contrato. Fica claro, portanto, que, considerando-se o âmbito das cadeias produtivas de frutas e hortaliças do Vale do São Francisco, no Nordeste do país, a participação de agricultores familiares, sob a forma de parceria ou de produção sob contrato, torna-se atraente, em especial, nos casos em que se combina qualidade e controle da força de trabalho.
No que diz respeito à distribuição de frutas e hortaliças para o mercado interno, especificamente, estudo do Banco do Brasil, já referido, mostra a existência de contratos formais e informais com agricultores, feitos pelas redes de supermercados. O acirramento da disputa pelo cliente, em ambiente caracterizado por forte poder de escolha do consumidor e pelas tendências de crescente internacionalização do varejo brasileiro e de concentração no setor, tem levado as redes de supermercados a realizar parcerias (seja por meio de integração formal ou informal) com produtores, por intermédio de compras previamente combinadas entre as partes, sem passar por agentes atacadistas. De posse da
sinalização captada junto aos consumidores, os supermercados repassam aos produtores os padrões de qualidade e de fluxo em tempo real requeridos para os produtos hortifrutigranjeiros. A formação dessas parcerias diminui as instabilidades e os riscos na produção e comercialização de frutas e hortaliças, mas são marcadas pelo grande poder dos supermercados de impor, aos agricultores, as condições de especificação de produtos, de embalagens, de horários e de preços.
A tipologia construída por Collins (1993) permite afirmar que a contratação direta de trabalhadores temporários torna-se mais atrativa, nos casos em que os custos de produção mostram-se como o principal imperativo nas transações. No estudo da autora, esse é o caso da cana de açúcar produzida no Nordeste, que, além de sofrer a competição da produção mais mecanizada da região Sudeste, não enfrenta o desafio da qualidade como um item importante. A maior vulnerabilidade dos trabalhadores sem proteção trabalhista torna- os, nesse caso, mais compatíveis com as exigências de flexibilidade e redução de custos. Os imperativos de qualidade e de estabilidade de fornecimento nos mercados de produtos ou de matérias-primas agropecuárias, contudo, tornam atraente a participação dos agricultores familiares em cadeias produtivas específicas do agronegócio.