Vimos até aqui, que há uma linha tênue entre o currículo e a aprendizagem da
docência. Essas duas categorias mantém uma relação dinâmica entre si, se entrelaçando em uma
composição multidisciplinar, chegando em alguns instantes, a se confundir, a influenciar uma
a outra. Uma interferência mútua. E esse fenômeno multidisciplinar ocorre também com a
metodologia. Veremos neste debate essas três categorias dialogarem entre si com muita
propriedade.
Sobre o método, articulando, com o que trata em seu artigo, com base em Mateiro
e Ilari, Costa (2015) entende que o método não é uma receita pronta. O professor constrói o seu
método de acordo com o contexto. O professor aprende a ensinar. Nem conteúdo, nem método
está pronto. São saberes construídos na prática. “A discussão em torno do que se compreende
por metodologia no âmbito da educação musical aborda o conceito de professor reflexivo como
sujeito ativo na produção dos saberes a serem ensinados” (COSTA, 2015, p. 09). As autoras
também mencionam a rejeição do professor ao método pronto que não dialoga com a postura
“intercultural das práticas sociais contemporâneas”. (COSTA, 2015, p. 09)
Sobre as experiências anteriores ou concomitantes à inserção do professor na
escola, Costa (2004) relata experiências de formação docente que dialogam os saberes
mobilizados e construídos na prática educativa com arte.
Junto às experiências do ensino da Arte, evocamos também aquelas vivenciadas no período da formação inicial, seja porque ocorreram concomitantes ao período de inserção no trabalho docente, seja pelo grau de importância que as experiências de formação acadêmicas ou os demais caminhos alternativos de formação têm para demonstrar as razões e motivos de suas práticas com Arte. Assim sendo, estabelece um diálogo entre os saberes mobilizados e aqueles construídos no cenário da prática educativa com Arte, aspectos cuja análise nos interessa. (COSTA, 2004, p. 79)
Com base em Costa (2004), contata-se que a formação dos professores de Arte das
escolas, historicamente tem sido estranha ao mundo acadêmico. Nesse sentido supracitado, esse
tópico se detém à metodologia do Ensino de Música, à prática em sala de aula como método.
Como referencial teórico, utilizou-se Silvino (2007). Nele encontrou-se vários depoimentos de
Izaíra Silvino em sua autobiografia quando ela menciona a sua entrada no Curso de Música do
Conservatório, sua trajetória como professora da Educação Básica até o seu ingresso e sua
marca registrada na Universidade Federal do Ceará (UFC). Esse tópico traz relatos de suas
metodologias e experiências, mas propriamente ditas na Educação Básica, uma vez que essa é
o foco dessa pesquisa. Esse referencial é imprescindível porque é rico em experiências no
Ensino de Música vividas em sala de aula na Educação Básica, mas especialmente porque Izaíra
Silvino teve acesso a um processo inverso daquele em que nos deparamos hoje: a experiência
com o Ensino de Música na Educação Básica antes da formação legitimada pela universidade,
corroborando para o que Costa (2004) menciona acima. Izaíra traz em seus relatos experiências
ímpares.
Izaíra Silvino, falando em especial de Luiza de Teodoro, uma grande intelectual, e
sobre a convivência com outros profissionais e amigos, fala da marca em que essa profissional
em questão, e de outros profissionais deixam nas salas de aula e por onde passam como
professores (SILVINO, 2007, p. 27). É muito importante entender a importância do papel que
cada um de nós temos na nossa história e como a nossa história reflete na história do outro. Para
Silvino, Luiza Teodoro teria tido uma influência marcante em sua formação como professora e
que, talvez, tenha servido como espelho.
E é muito importante, hoje, mais que nunca, cada um de nós – seres históricos, atores da história humana – aprender que nossa atuação faz uma diferença no mundo. Porque nós não somos apenas seres históricos localizados em uma cidade de uma determinada região, como cidadão (ã) de um determinado país (SILVINO, 2007, p. 27).
Alguns professores marcam a nossa vida em formação. Poderia citar alguns
professores da minha infância até a fase atual, do curso o mestrado, que marcaram
positivamente a minha vida docente. Mas poderia citar outro tanto de professores que marcaram
negativamente a minha formação. Profissionais que ainda hoje eu reproduzo seus métodos em
sala de aula. Não falo somente de professores de música, mas de professores das diversas áreas
de conhecimento, os quais me fizeram adaptar algumas das suas metodologias para o Ensino
de Música e Arte, algumas com sucesso, outras um fracasso, mas sempre tentando encontrar a
metodologia adequada para a sala de aula.
Silvino, com base em Edgar Morin, fala da importância em acreditar nas estratégias
para superar os problemas e que a aprendizagem nos leva a uma noção de mundo mais humano,
compreensível e compartilhável. A incerteza da vida, o efêmero, o imponderável, são
compartilhados, conhecidos por uma lógica que nos ensina a compreender o outro. Essa
compreensão é básica, a qual se pode até não concordar, mas que devemos respeitar. “Os
jovens, principalmente eles, necessitam entender, compreender e saber disso. E a juventude que
é viva dentro de nós, gente que pensa sobre isso, tem grande responsabilidade na difusão, na
crença e na ação, partindo desses novos modos de pensar” (SILVINO, 2007, p. 28).
[...] a gente é efêmero, que a gente passa e nosso eco deve ficar impregnado nas pessoas com as quais a gente convive, ser pelo outro impregnado da mesma forma, e isso era a nossa única função como seres conviventes: compartilhar a vida com nossa busca de aprendizagem por crer numa ação amorosa (SILVINO, 2007, p. 28).
Há uma razão em existirmos nessa vida e essa razão seria o outro, principalmente
os mais jovens. As pessoas passam e deixam marcas, esse seria o verdadeiro mote de existirmos.
Nessa fala, percebo o quão importante é e tem que ser o papel do professor na formação do
educando. Há uma necessidade quase que obrigatória na razão da existência ou na função do
professor. Esse profissional alcança o seu êxito quando deixa marcas na vida e na formação do
aluno. Essa seria, não sei dizer se a primeira, mas, talvez a mais importante metodologia
utilizada pelo professor: deixar marcas de um aprendizado. Para isso, é de suma importância
que o professor seja movido pelo amor, pela paixão pelo próximo, pelo ensinar e aprender, pelo
se refazer, recompor-se sempre que for necessário, um amante do conhecimento, um amante do
seu objeto de estudo ou de ensino.
[...] a música é minha grande paixão, meu mote de existir, meu sentido de viver. Minha cabeça pensa musicalmente. Há sempre música em meus pensamentos. Não consigo apartar-me de sons em meu interior. Durmo e acordo ouvindo música. E não tenho necessidade de ligar nenhum aparelho ou instrumento exterior para isso. E quando tenho alguma interrogação, alguma dificuldade, algo a ser realizado com urgência, sem aparente solução à vista... o insight chega a minha cabeça através da música. Aparece de repente uma música inteira tocando em meu interior. Quando presto atenção, o texto da música, seu ritmo, sua harmonia induzem a mim uma solução pra’quele meu problema (SILVINO, 2007, p. 30).
O meu encanto com a música levou-me à vontade imperiosa de fazer com que o outro, os outros, fora de mim, sentissem esse encanto. Eu, ainda pequenina, adorava fazer as pessoas ficarem encantadas com o som que eu fazia. Daí, para me transformar em professora, animadora de gente através da música, da arte... foi um passo. Quando me descobri, já era professora de arte, regente de coro, animadora de gente... pela música... através da música! (SILVINO, 2007, p. 33).
Outra coisa importante na metodologia, analisando o trabalho de Silvino, é a
capacidade que o professor tem de estimular o aluno, induzi-lo ao objeto de estudo ou
conhecimento. Todo mundo, independentemente da idade, é capaz de aprender. Na verdade, é
necessário descobrir no que o aluno é bom e procurar extrair o melhor dele em determinada
área. Em um relato sobre a sua Professora de Música, Dona Amélia Cavalcante, menciona que
ela “foi uma das luzes” em seu caminho.
Ensinou-me a olhar a partitura, ouvir interiormente, primeiro, para só depois pegar o instrumento exterior e fazer o som nascer fora de mim. Ensinou-me também a perceber que o instrumento tem que ser a continuação do corpo da gente. Foi um método extraordinário. Ela foi A minha PROFESSORA DE MÙSICA! Por toda a minha a vida, até hoje. Porque o professor é assim: acompanha o aluno até o fim da vida dele! (SILVINO, 2007, p. 33).
Mais uma vez vemos a professora Izaíra Silvino abordando a metodologia utilizada
por sua professora tal como a “impregnação” deixada por ela ao longo de toda a sua vida, as
marcas ditas há pouco, deixadas pela professora de música. Silvino nos conta que sempre teve
a influência e os estímulos provocados pelos pais, que a encorajaram e que começou desde
cedo, onde aos setes anos de idade já tinha aulas de música em Iguatú, interior do Ceará, o que
provavelmente a direcionou para a sua carreira musical. Quanto mais cedo a criança descobrir
o que gosta, mais cedo o aprendiz se encontrará com ele mesmo.
O padre disse que o mais importante em qualquer processo de educação é fazer o aprendiz descobrir o que é que o move para ser o melhor. Ele disse que nascemos com
o potencial de saber fazer todas as coisas que quisermos, mas que há algumas coisas que, que por alguma razão que está além do processo educativo, a gente faz melhor que todas. E que descobrir isso cedo traz todas as possibilidades para o aprendiz encontrar-se com a felicidade de saber ser. E quando a pessoa percebe isso, a ação dela passará afazer diferença no mundo. E contou muitos exemplos de gente assim, que ele encontrou ao longo de sua vida. E disse que, mesmo depois de adultos, as pessoas deveriam buscar encontrar a sua possibilidade de saber encontrar o que melhor sabem fazer. E optar pelo seu sinal! (SILVINO, 2007, p. 33).
Silvino relata sobre a experiência que teve em reencontrar uma ex-aluna que fez
questão de revê-la e dizer que nunca esqueceu de uma aula de canto que teve com ela.
Começaram a cantar uma música que havia sido ensinada anos atrás. Cantaram a música inteira
em espanhol. Silvino ficou surpresa ao ver que mesmo depois de tanto tempo, ela sabia a música
de cor que aprendeu em uma única aula (SILVINO, 2007, p. 49).
Mais uma vez a importância da marca, da “impregnação” do professor na vida do
aluno, tornando o aprendizado e o conhecimento fatores significantes. Isso faz com que o aluno
atribua um valor ao aprendizado, transformando e colocando o conhecimento em um patamar
além do conteúdo.
Como professora, Silvino viu a necessidade de se impor como autoridade em sala
de aula e dessa maneira foi aprendendo a ser professora. Isso se fazia necessário, pois a
disciplina que havia assumido era Educação Artística, que não reprovava e ainda não era
respeitada pelos outros professores, a não ser por ela mesma.
Eu era bastante rigorosa na disciplina, seguia o modelo padrão que tinha na minha cabeça. E, assim, de aula em aula, de curso em curso, de seminários em seminários de estudos, de classe em classe, de aluno por aluno, fui aprendendo a me fazer professora. Professora de Educação Artística! Disciplina nova que não reprovava, e que nenhum professor da escola, fora eu, dava a menor importância. Era de doer! (SILVINO, 2007, p. 51).
A autora descreve o seu processo de aprendizagem da docência. Silvino fala sobre
ser proativo e de não temer o erro. Descobriu um programa de Educação Artística envolvendo
alunos, escola, família e comunidade escolar. Essa postura de ser produtor do conhecimento a
ser ensinado, rompe com o currículo a ser estabelecido que gera conflito com a estrutura
engessada da cultura escolar.
Eu não ensinava nada, eu levava propostas de trabalho. Eu falava, por cima, dos conhecimentos e da situação, de temas, de descobertas a serem seguidas, da beleza de determinadas coisas a serem lidas ou vistas ou vividas. Esquematizava sempre, tudo. Daí, eu dava um tema e pedia que a turma, em pequenas equipes, transformasse aquele tema em obra de arte. E, de repente, a aula era uma algazarra só, um entusiasmo só. Muito barulho para os vizinhos, sim. Tive minhas aulas invadidas (literalmente
falando), muitas vezes por diretores ou coordenadores e até por colegas indignados (SILVINO, 2007, p. 54).
Na trajetória da sua formação como professora de Artes e Música, Silvino em suas
experiências desenvolve o seu próprio método o qual ela o chamou de “método de
improvisação”. Os alunos faziam o relato escrito do que tinham aprendido em sala de aula. Eles
eram autores do seu próprio livro de arte o que os tornavam mais responsáveis como documento
escrito (SILVINO, 2007, p. 55).
As aulas tinham que ser dinâmicas e alegres, e para isso era necessário estar sempre
se atualizando, em formação.
A gente tinha que estar antenado (a) para perceber como deslumbrar nossos jovens para que as aulas fossem alegres, plenas de conteúdo, prazerosas, mas embasadas num rigor de percepção dos limites de uma educação pró-ativa, com espaço para o exercício da sensibilidade criativa, de uma autonomia que trouxesse consciência da individualidade e da qualidade da compartilha, da vivência de uma heteronomia carinhosamente solidária (SILVINO, 2007, p. 59).
O foco da aula era a vivência nas práticas artísticas, uma maneira de se auto-
conhecer, desenvolver qualidade de sensibilidade, a relevância da arte na vida de todos, o seu
papel na nossa história e na sociedade. O exercício de apreciar uma arte de qualquer lugar, o
evento da fruição, viagens e passeio.
O objetivo era a prática de experiências artísticas, o exercício da autodescoberta e o desenvolvimento das qualidades da sensibilidade (de cada um), o entendimento sobre a presença, a função da arte na história de todos nós. E o exercício da fruição, do encantamento pela magia da obra de grandes artistas na escola, na cidade, no Brasil, no mundo (SILVINO, 2007, p. 59).