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A. Şahsi Hürriyetler

2. Seyahat ve Yerleşme Hürriyeti

A análise da documentação sobre as mulheres partei ras na Cidade de Go yaz d urante o século XIX revela um conjunto de imagen s representati vas da sociedade goiana, que demarcou f ormas de compreensão em torno da mulher, do seu corpo e dos mecanismos de ma nipulação em relação a ele.

Essas ima gens são reveladas pelo im plícito, extraídas d as linhas e en trelin has das f on tes d ocumentais. O im plícito pode nã o se r vi sí vel nu m primei ro olhar, mas é, todavia, perceptí vel e signif icati vo a ponto de da r voz àquelas pessoas que se ocuparam du rante muitos séculos da cultura do corpo.48 Daí a prese nça inquestioná vel das mul heres parteiras nos seus conhecimentos prático s a respeito dos males e da preser vação do corpo f eminino.

É claro que, ao falarmos do co rp o f eminino como espaço d e conhecimento médic o e prático, ref erimo-nos ao cor po bi oló gico. Mas, ao analisarmos o corp o feminino como espaço de cont role e punição, privilegiamos a categoria gêner o, pois estamos buscando analisar as

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inúmeras fo rmas co mo as dif erenças sã o percebidas, reelaboradas e, de fato, (re)p ro du zidas pelos sistemas de representação social. Nesse senti do, Maria I zil da Santos enf atiza a import ância de observar as diferenças sexuais como const ruções culturais e hi stóricas, que incluem relações de poder não l ocalizad as exclusi vamente num p onto fixo, m asculino, mas presentes na trama histórica.49

Durante a Idade Mé dia, os olhares masc ulinos j á associavam o corpo f eminino a um espaço de interf erências divi nas. O corpo f eminino era palco de l utas ent re Deus e o diabo,50 conseqüentemente guardava grandes mistério s. Nesse i magi nário, tanto os eclesiásticos quant o os médico s mostra vam-se i ntere ssados no e ntendim ento da f isi ologia f eminina. Estes não diferiam tanto daqueles pois, as explicações d o f uncionamento do corpo feminino n o i magi nário medie val esti veram relacionad as às crenças espirit uais e particularmente ao pecado.51

Como o corpo feminino esta va asso ciado ao pecado, ele também de veria ser espaço de pu nição e controle. Daí uma da s ra zões de o corpo cada vez mais ser visto pelos ol hares masculinos como a principal marca da identidad e atribuída às mulheres, tor nando-se o ponto de referência para se pensar o f eminino.52

Para os olhares masculinos, o c orpo da mulhe r, por guarda r tantos se gredos, pri ncipalmente relaciona do ao pa rto, de ve ria ser su bmetido à regra do saber mé dico. Entretanto, po r trás da idéia de u m corpo que é

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MATOS, Maria Izilda. Op. cit, p. 84. 50

DEL PRIORE. Op. cit p. 78. 51

também terra descon hecida, existe igual mente o reconhecime nto do corpo e das mulhe res que cuidam dele, como a s mulhe res pa rteira s, como uma potência que desafia as ar gúcias d o sa ber médico. Daí a necessidade de redu zi -lo e adestrá-l o.53

A necessidade de co ntrolar o co rpo e a atitude femini na era d e tal mod o sent ida que , no caso das ve stimentas e i ndisciplinas caracterizadas como imo rais, obser va vam-se inte rferências não só d os agentes oficiais como também da p rópria sociedade. O document o policial de 1 866 da Cidade de G oyaz conf irma a p reocupação em disciplina r os espaços públicos a parti r do contro le feminino e a construção do ima gi nári o social sob re a gestação como sinônimo de do ença de mulher, condição em que pequenas atitudes p oderiam a gra var ainda mais o “estado doentio” da gestante.

Illmo Exmo Sen ro Dro Jose G. de Sá

Su bdele gado de Poli cia desta Comarca de Go yaz

I gn oran do -se as condiçoens que algumas mul heres em estado de prenhez que frequentaõ os lavadouro s publico s, d’onde la vam rou pas e seu s co rpos quaze nus off endendo a moral e traquil idade sic publica e agra vando o estado em que se achaõ ilegível e requisitando as famyl ias as providencia s que p uderem tomar ilegível; Eu com quanto tenha boa vontade de

ilegível essas mulheres, não posso por me achar

desprevenido de ilegível. Pesso sic que V. Exa mande suas provide ncias afim de naõ r eprod uzir este costume por parte d’o utras mulheres. Deos ilegível guarde. Cidade de Go yaz 12 de dezembro de 1866.

52

SANTOS, Dulce O. Amarante dos. Mulheres o cruzamento de dois imaginários. In: MATOS, Maria Izilda, SOLLER, Maria Angélica (orgs). O imaginário em debate. São Paulo, Olho d’Água, 1998, p. 22.

53

DEL PRIORE, Mary. História das mulheres: as vozes do silêncio. In: FREITAS, Marcos Cezar de (org).

Inspector ilegível Quarteiraõ. Cypriano Praxedes54 o grifo é nosso

Vê-se ainda que, no imaginário social da Cidade de Goyaz durante o período imperial, as mulhe res de veriam se r discip linadas. Para isso, era necessári o vigiá-las, e puni -la s pr incipalmente as pertencentes à classe baixa, que tinham maior m obilidade no espaço público e, por isso, o incomoda vam as autori dades gover namentais e médicas, bem como uma parcela da sociedade, em decorrência de seu compo rtamento. No caso das mulheres grá vidas, a ur gê ncia do cont rol e era maior, p ois, al ém de serem futuras mães, eram exemplo para outras mulheres.

Na pesqui sa no Có di go de Postura da Cidade de Go ya z de 1845, encontram os a lgumas tentati vas de controle de hábito s f emini nos, tais como, a proibição de tomar banho de rio nuas, como era costume.

LEI 1845 - NO 3 .

Dom Jo sé de Assiz Mascarenhas Presidente da Província de Goya z: Faço saber a todos o s seus habitantes que a assemblea legi slati va provincial resol veu sobre pro posta da câmara municipal desta cidade que no dito município se observ e as seguintes posturas.

Art. 2o. Fica pro hib ida as mul heres lav ar-se nos ri os desta cida de, das seis horas da ma nhã as seis e meia da tarde, salvo se tomar as devidas caut elas, para que não offenda a moral publica .

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A r q ui v o C i vi l da Fu n da ç ã o C u l t ur a l F r e i S i m ã o D or vi , C i da d e de G oi á s. C or re s p on d ê n c i a p ol i c i a l da C i da de d e G o ya z , 1 8 6 0.

Mando por tanto as authori dades, a quem o conhecimento, e ex ecução desta Lei pertencer, que a cumprão e f ação cumpri r tão intei ramente como nella se contem. O secretario do Gove rno da P ro víncia a faça imprimir, publicar e correr. Palácio d o go ve rno da província de Goya z aos treze de no ve mbro de mil oitocentos e q uarenta e cinco, Vi gési mo q uarto da Independência, e do Impér io.

D. José de Assiz Mascarenhas55 o grifo é nosso

O que se pode inf e rir, ainda, desse do cumento oficial é que constitui-se num d iscurso masculino, demonstrando, desse modo, a elaboração de uma e straté gia de co ntrole maior de um gê nero sobre o out ro e ref orçando as hie rarquias. Como também parece visíve l q ue esta f oi a forma encontrada para f azer vale r os requi sitos de comportamento feminino, que as autoridades entend iam ser necessário implan tar.

Mesmo diante de tais impo sições oficiai s, as mulheres sempre arruma ram b rechas para transgredir as leis. No que diz respeito, por exemplo, à prática de tomar banh o nuas nos rios da Cidade de Goyaz, princi palmente no R io Vermelho, a criação de estratégias de contro le para coibir esse comportamento feminino se estenderá por t odo o perí odo imperial, o que demonstra a violação constante às no rmas que proibiam esse costume. É o q ue podemos perceber nos apo ntamentos d e viagem de 4 de abril de 1881 , escrito pelo então p residente da provínc ia de Goyaz, Joaquim de Almeida Leite Mo raes.56

55

Arquivo de Frei Simão, Cidade de Goiás, Caixa Arquivo N0006, Goiás 1833 a 1869. 56

Ab ri uma rua comunicando o novo matadouro com mercado, mar geando o r io Vermelho, na sua parte mai s encachoeirada. Esta rua arb ori zada e com um j ardim ao lado será um belíssimo e ma gn ífico pa sseio p úblico. Isso é necessário f azer j á que a família goiana não tem um só passeio, quando nem ao menos po dem percor rer a margem do ri o, porque aí encontram-se homens e mulheres banhan do-se, completamente nus....eu os vi ! Tomei a respeit o algumas p ro vi dênci as, e j á nos últimos tempos da minha administração não se os via.57

Afirma Ma ria Odila Leite Dias q ue, no século XIX, pa ra as mulheres p ob res a rua, representa va um espaço de liberdade de circulação. Essas m ulhe res, coti dianamente imp ro visavam papéis i nf ormais e f orj avam laços de sociabili dade, pois dependiam de um circuito ati vo de informações, de t roca de exper iências e contrato s ve rbais pa ra ga rantir a própria sob re vi vê ncia.58

Em cont raparti da, para médicos e j uristas, a rua representa va o espaço de desvi o. Sendo assim, para o imaginário social masculino, tor nou- se indispensá vel exe rcer a vi gilância constante do corp o e comportamento feminino, em pr ol da mo ralidade c omo indicação de pr ogresso e civilidade.59

Nesse senti do, os discurso s médico e gov ernamental na Ci dad e de Goya z vi ram a necessidade de os asp ectos inerentes ao co rpo f emini no, tais como a gravidez e o parto serem cada ve z mais co nhecidos pel os médicos. Assim, pre servar a saúde f eminina seria uma f orma de controla r o

57

MORAES, J. A Leite. Apontamentos de viagem.São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 109–110. 58

DIAS, Maria Odila Leite. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1995, 30-33.

comportamento das mulheres, para isso, a aceitação do discurso médico por parte das autoridades tornou -se indi spensável.

Em tal complexo de relações, a inter venção do E stado é decisiva, podendo verificar-se se gundo três eixo s p ri ncipais: pela simp les repressão, por meio da ação da polícia e da j ustiça; pelo forta lecimento da consciência moral in di vid ual dos cidadãos, o que facilitava o exercício do autocont role; pela colaboração de médi cos e educado res, reunidos para justificar, sob o pon to de vista teórico, a homo genei zação das condutas,60 em particular do comportament o f eminino.

Desse modo, def inia-se uma política de educação centralizad ora das ações de controle, de normali zação e de racionali zação do corpo feminin o na Cidade de Go ya z no pe río do. Para iss o, as posturas policiais foram os i nstr umento s utili zados pelas Câmaras Municipais para controlar e sobretudo tirar de cena as m ulheres que tin ham conhecimentos práticos sobre o corpo f eminino, como as mulheres parteiras.

A postura da Câmara Municipal da Capital sancionada pel o at o de no 2 893, de j unho de 1881, que vi gorou até no f inal do Impé rio, na Cidade de Go yaz, il ustra o cont role das ações dos práticos, entre eles os curandei ros e as parteiras, e de racionalização do corpo das mulheres goianas.

Título 5o Saude publica e hygiene

59

SOIHET, Rachel. Mulheres pobres e violência no Brasil urbano. In: DEL PRIORE, Mary (Org). História

das mulheres no Brasil.. São Paulo: Unesp, 1997, p. 365.

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Art. 37. Nenhum medico, cirurgiaõ ou boticario podera exercer sua pr of issaõ no m unicipi o, sem que tenha aprezentado sua carta o u tit ulo a camara para ser regist rado. Os infractores seraõ multados em 30$000. § 2o Os que exerce cerem profissa õ de medicina, sem diploma seraõ multados em 30$000 alem das penas em que por direit o ti ver em incorrido depois de avisados. § 3oSaõ absolutamente prohibi dos as cu ra s chamadas de feitiços, tanto os cu randei ros ou feiticeiros, como os que uzarem desse art ificio seraõ m ultados em 30$ 000 e oito dias de prisaõ.

§4o Os remédio s e mais obj ectos de que rezarem os feiticeiros, sendo aprehend idos serão inutilisados e queimados.61

O discurso j urídico durante o século XIX na Cidade de Go yaz, além de disciplina r o corp o feminino, normati zou as p ráticas médicas, no sentido de re gulame ntá-las e garanti r a sua ef icácia, mas também pro pa gou a necessidade de eliminar as p ráticas e os saberes considerados falsos. Assim, aut ori dades e médicos t or naram- se cúmplices de uma nova or dem controlado ra do corp o feminino.

Podemos inferir ain da das postu ras po l iciais que o discurso médico-hi gienista, n a segun da metade do século XI X, f oi para autoridades e médicos vilab oenses importante instrumento de mudança de pensamento sob re a maternidade, o part o e a saúde p ública. A preocu pação oficial foi além da hi gieni zaçao dos espaços públicos: era preciso atin gir novas posturas familiares, disciplina r as mulheres goianas, proibir a atuação de curandei ros, benzedeiras e partei ras. Estratégias essas que tinham com o

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A r q u i v o Ci vi l na F u n da ç ã o C u l t u r a l F r e i S i m ã o D or vi , C i d a de d e G o i á s. C ó d i g o d e p os t ur a s da Ci d a de de G o ya z , no 2 8 9 3, d e j u n h o de 1 8 8 1, C a i xa A r q ui v o no 5 4, d oc u m e nt os a vu l s os .

objetivo também atra ir a confiança das m ulheres na cura de suas patologias, como na realização de seus partos.

Ent retanto, a ef icácia do investime nto proposto pelos discur sos médico e governamental na eliminação das práticas costu meiras de curar e con trolar o corpo das m ulheres goianas encontrou várias resistências, que iam desde a simplicidade do conhecimento médico, passando pelo i magi nário femini no da época até a própria f alta de médicos, como bem j á apont amos anteri ormente. Esses f ato res perm itiam que as mulheres pa rteiras continuassem exercendo seu ofíci o. Utilizan do mecanismos bem ad aptados à mentalida de pop ular do perío do im perial na Cidade de Go ya z, elas não ti nham dif iculdades em pe netrar n os complexos meandros dos partos e das doenças f emininas.

Benzer Belgeler