A. Yargılama İle İlgili Genel İlkeler ve Mahkeme Usulü
1. Hakem Tayini
Benedicta Francisca Gomes é a parteira mais anti ga da Cidade de Goiás. Ela nasc eu em 27 de j ulho de 1898 na Cida de de Goya z (atualmente tem 104 anos de idade). Fil ha de ex-escravos, casou-se com Hermene gil do Al ves dos Santos e te ve on ze f ilhos, dos quais dez deu à luz sozi nha o u com o auxílio do marido e somente um com a aj uda da parteira Dona Flo ra. Ao t odo , realizou mais de q uinhentos pa rtos. Dona Dita relata com orgulh o que ap rendeu a par tej ar com a ex-escrava e p arteira Maria Bárbara, ressaltando que sabe “apara r ” muito bem e sem pre foi muit o requisitada pelas parturientes. Lembra que desenvol via out ras atividades além de partei ra, como ben zedei ra e vaqueira, para auxi li ar no sustento familiar. Mas do que gostava mesmo era “aparar crianças”.
Além de apara r cr iança, eu benzia e era também vaq ueira, tirava leit e da vaca todo d ia, amarrava o bezer ro n uma estaca e piava a vaca para aj udar o marido a com pra r as coisas, mas o q ue eu gostava mesmo era de fazer parto. Dona Benedita
Sobre a atuação das parteiras, Do na Benedita conta que ha vi a poucos médic os na Cidade de Go ya z e estes quase não realiza vam part os. Até mesmo o Hospit al São Pe dr o não era vist o, pelas part ur ientes, como um espaço pro pício pa ra que pudessem te r os seus bebês. Al ém disso, as mulheres p referiam a companhia das parteiras n o mom ento do pa rto. Lem bra Do na Dita que
Quase não tinha médico naquela época aqui na Cidade de Goiás e os que t i nham não olhavam as mulhe res que iam dar cria, elas pr eferiam nós pa ra aparar a criança por que não j udiáva mos delas. A mulher que chamava médico na sua casa para criar era só u ma vez mesmo por que eles não t inham paciência com elas. No Hospital São Pedro, elas não iam porque ali não faziam parto e mesmo assim as mulheres gostava m de criar nas casas delas, por isso que íamos nas casas. Dona Benedita
No q ue tange às ati tudes das parteiras nessa situações, Dona Benedita destacou o seu o zelo e a sua paciência. Percebe-se, assim, a constr ução de si gnif icado em torno da gravidez, do pa rto e d o ser parteira relacionado ao uni ve rso femini no. Esse discurso aparec e em outro s depoimentos, su ge rindo a existênci a de um espaço sim bólico eminentemente f eminino.
No entanto, há também momentos em que a presença do home m passa a ser decisi va para o sucesso do parto. Dona Benedita revela q ue o marido dela já realizou alguns part os. Por ém, f az questão de enf atizar que
Eles só olham em último caso. Por exempl o, Hermene gil do marido, uma vez, foi visitar um colega e a mulher esta va criando e na casa nin guém sabia aparar a criança e nem cortar o umbi go. Ele entro u no quarto, aparou a criança e cortou o umb igo quand o eu cheguei, que ti nham mandado me chamar, ele já tinha f eito o parto. Ele sabia porq ue j á tinha visto eu corta r o nosso e aí aparou e cortou tam bém o da mulher. Dona Benedita
Dona Benedita f ala sobre sua expe riê ncia de ter tido se us filhos sozinha e também do auxílio por seu marido nessas oc asiões. Porém, esclarece que a atuação do companheiro estava submetida às ordens dela .
Ti ve al guns f ilhos sozi nha, outro s foram com a aj uda do meu marido. Só tive um, esse que mora aqu i comi go, que f oi a Dona Flo ra a parteira dele, só esse por que o resto tudo f oi eu mesma, ou o m eu marido que aparava e corta va. Quando eu cria va sozi nha, eu mesma pega va o óleo, esf regava na mão, passava na barri ga, nas minhas pa rtes t ambém para o menino sair l o go, arruma a coberta, tudo di reitin ho para criar. Quando ele estava em casa, pedia para ele me meter os pés nas cadeira para o men ino sai r lo go e assim e le fazia o que eu mandava. Dona Benedita
Out ro fato a ser considerado são as prescrições, recomendad as pelas parteiras, com f ins específ icos, ou sej a, para evit ar os possíve is problemas no momen to do parto.
Eu usa va remédio d o mato. Usava muit o mentrasto, o grão do café também. O mentrasto serve para ti rar a f riagem da m ulhe r. Quando ela estava c om fria gem, eu mandava ela tomar u m banho de ment rasto e lo go, lo go ela criava. O grão do café era usad o quan do ela demora va a cria r. Cozin ha va o grão do ca fé e a mulher tinha que t omar banho e também ficar d e cócoras so bre uma vasilha que tinha dentro o chá do grão do café. Se ela tivesse q ue criar era na hora, criava sem pro blema nenhum. Dona Benedita
Juntamente com as prescrições dos chá s e uso dos óleos as parteiras acredi tavam nas rezas, principalmente as dirigi das para a Nossa
Senh ora do Bom Parto, padroei ra das mães de família. E, nesse ponto, destacamos o depoi mento de Dona Benedita, a qual faz questão de recitar a oração que f azia em devoção a Nossa Senhora do Bom Pa rto:
Eu reza va para Nossa Senhora d o Bom Pa rto para aj udar as mul heres nas dores e ter lo go a sua cria, a reza era assim: “Nossa Senhora do Bom Part o, livrai as mulheres das dores do pa rto, que na casa que eu ent rar j unto com sua aj uda, mulher de parto não morrerá, nem crianças abaf adas. Os menin os nasce rão para pirão e as mães contentes f icarão”. Dona Benedita
Se gu ndo Alceu Ma ynard Araúj o, as mul heres sempre fi zera m uso da medicina rúst ica, quando não para si, para seus f ilhos. Poi s é atra vés sob retudo das mul he res que a t radição pe rmanece. Crenças e simpatias lhes são confiadas e elas próp rias as t rans mitem oralmente de geração em ge ração. A gravide z e o par to sã o as esf eras femininas que m ais en vol ve m rituais.76
Relativamente à manutenção desse saber, podemos obser va r, a parti r da f ala de Do na Benedita, que a maioria das pa rteira s aprendiam o of ício quando passavam a acompanhar outras partei ras mai s velhas na realização de um parto.
Eu aprendi com uma velha partei ra que tinha lá na rua do Boli va r, a Dona Bárbara. Ela foi escrava assim como minha mãe e meu pai, minha mãe gostava m uito dela. Eu era bem n ova e ela ia fazer par to e me le vava para aj udar, minha mãe deixava eu i r, queria que eu aprendesse. Ela me ensinou a apa rar a criança, a curar
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o umbi go da cria nça com óleo e pó de f umo e eu aprendia tudo.
Maria An gél ica Mot ta-Maués, ao discorr er sob re a prática das parteiras, diz que seus conhecimentos sobre o parto, partilhados princi palmente pelas mulheres, são obti dos na maio ria das ve zes quando se acompanha a parteira como aj udante, um momento i nicial impor tante para uma apren di z do of ício.77 Assi m, percebem os uma das f ormas d e conceber e também de transmiti r um aprendi zad o entre as mulheres partei ras na Cidade de Goyaz.
No tocante à remun eração da parteira, é importante obser var que as mulheres par teiras da Cidade de Go ya z não realiza vam os parto s somente quando er am pagas. Essa ati vi dade também era desenvol vida vi sando às relações de vi zinhança. É o que podemos de duzi r do relato de Dona Benedita:
Eu co brava mas quando a mulhe r não p odia pa ga r eu também não cobrava e fazia do mesmo jeito. Às ve zes eu ganha va qualque r coisa, uma galinha, um f rango, ovos, mas eu não pe dia, elas que queriam dar mesm o. Às ve zes eu ia já sabendo que eu não ia gan har nada, mas ia mesmo assim. Pois eu gosta va de aj udar as mulheres criarem. Já passei mu itas n oites sem dormi r e entre ga va o menino depois de sete dias, só quando o umbi go estava curad o.
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MOTTA-MAUÉS, Maria Angélica. Lugar de mulher: representações sobre os sexos e práticas médicas na Amazônia (Itapuá/Pará). In: ALVES, Paulo Cesar; MINAYO, Maria Cecília. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1994, p. 119.
Al gumas mulheres parteiras da Ci dade de Goya z mant inham um vínculo de amizade. Entre as mulheres entre vistadas, percebe que os cultos reli gi osos est reitavam os laços de amizade entre elas.
Aqui na Cidade de Goiás todo mundo conhece todo mundo. Eu con hecia a Gentil, a Flora, a Maria Bárbara, a Bina, todas parteiras famosas. Também outras eu j á não lembro mais. Al gumas eram ami gas de casa, outras eu conhecia da Igrej a.” Dona Benedita
É importante destacar que o depoiment o de Dona Benedit a permite-nos afirmar que a I greja era tida como um espaço de sociabilidade entre as mulheres pa rteiras da Ci dade de Go ya z, j á que era u m local de re za e de troca mútua de inf ormações.
1.5.2 Co ma dre Dindinha
Domingas So usa Si lva, conhecida com o Comad re Dindinh a, nasceu na Cidade de Goiás em 19 20. Hoj e é viú va e tem 82 anos de idade. Filha da partei ra Rosa Sil va, deu à luz oit o f ilhos. Cont ou -nos que sua mãe era ne gra, pob re e n ão sabia ler e esc rever. Aprendeu a partej ar com a mãe quando ti nha quinze anos de idade. Com orgulho, re vela que sua mãe era muito req uisitada e que conheceu Dona Dita, Dona Gentil e Dona Bina, parteiras f amosas na cidade.
Ao mesm o temp o em que as m ulheres parteiras tra zem à t ona suas experiências através do s relatos, mesclam a elas as vi vên cias de outras
mulheres. Assim, as ref erências acerca delas nos discursos é pleno de concepções e representações que as dif erenciam e, ao mesmo tempo, as lançam num tempo e num espaço específ icos, determinados por valores e processos culturais construíd os socialmen te.78
Dona Domi ga s afirma que ser partei ra to rnou-se uma t radição familiar feminina. Essa tradição esta va associada ao desej o de ga rantir o respeito da comuni dade e, no caso de sua f amília, manter a promessa reli giosa iniciada pela sua avó, a qual foi parteira também. Obse rva que, mesmo apó s a aprop riação da arte de pa rtej ar pelos mé dicos em hospitais, as mulheres continu aram presentes como enf ermeiras. A parteira Dindi nha não nega que essa ativi dade contribuía com o orçamento familiar.
Minha mãe conta que a minha avô, qu e se chamava Joana, era parteira e que, quando a irmã mais velha da minha a vô f icou d oente para te r a criança, ela percebeu que eram duas crianç as que ia ter que aparar. Aí ela fez uma pr omessa q ue, se tudo saísse bem, sempre na f amília ia ter uma parteira. Ela ensinou a minha mãe, a minha mãe me en sinou e eu conti n uei com essa promessa. A minha filha Zeni também sabe aparar criança. Primei ro eu que ensi nei, depois ela aprendeu mais estudando na escola aqui Goiânia. Hoje ela trabalha em u ma maternidade aqui també m em Go iânia. Eu me lemb ro que a minha mãe d izia que, se eu fosse parteira, tod o mund o ia me respeita r e gostar de mim. Mas também eu ganhava dinheir o, até mesmo presente das mulheres, mas quando elas não podia m me dar nada eu não f icava com rai va. Eu sempre aparei criança por que gosta va tamb ém.
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RÉCHIA, Karem . Das senhoras dos ‘repolhos’ e das ‘roças’: ou de como nasciam os bebês. In: MORGA, Antonio. História das mulheres de Santa Catarina.. Florianópolis: Argos, 2001, p. 112.
Ao enume rar as técnicas usadas no momento do part o, a parteira Di ndinha n ega algumas p ráticas empre gadas por outras par teiras goianas.
Na ho ra do parto, eu manda va a mul her senta r numa gamela, amarra va uma fita na barri ga dela para que a criança não su bisse. Assim também era mais fácil para eu pu xar a criança. Quand o a c riança estava vira da, o j eito era desvi rar para que a mulhe r não perdesse a criança, e para isso eu colocava bastante azeite quente na mão para poder colocar dent ro da mu lher e vira va a criança para o lu gar certo e aí ela nascia. Uma coisa que eu n unca fiz f oi suspender e balançar a mul her na hora do parto, como muitas partei ras aqui na cidade f aziam. Minha mãe sempre falou que isso é muit o peri go so po rque a criança pode cai r muito rápi do e mor rer enf orcada no cordão.
Nota-se a pre ocupa ção com a saúde d a parturiente e com o recém-nascido, bem como a di versi dade de técnicas usadas pelas mulheres parteiras na Cidade de Goya z. As partei ras eram procu radas não só pelas experiências j á adquiridas, mas tam bém pelas técnicas po r el as adotadas na realização do parto.
O uso de c hás, pur gantes e re zas també m era recomendado por Dona Domi ngas, com fins específicos:
Quand o a grá vida estava próxima para fi car doente, eu mandava ela tomar purga nte para o sangue ficar f orte, mas era só um pouquinho. Quando ela estava com f riagem, era chá de mentrasto. Quando e stava ne r vo sa, para ref rescar, era c há de folha de laranj eira. A f olha do algodão eu só manda va depois do part o, ela bebia o chá e tomava banho, ser ve para sair o san gue suj o que f ica na mulher. Pa ra curar o umbi go da criança, era pó de f umo. O médico dizia que f azia mal, mas não faz não. Os umbi gos que eu curei todos f oram assim e f icaram rapidi nhos curados. E u reza va muito tam bém
na hora que estava aparando as crianças, pedia proteção a Nossa Senhora d o Part o pra mim, pra criança e pra mulher também.
Verifica-se por intermédio dos discu rs os, que as representações das doenças são co nstruí das e co mparti l hadas socialmente, o que ex plica o uso d o termo f ria gem, ref rescar, sangue suj o, mulher doente, entre outro s, os quais são utili zados pa ra traduzi r os ef eitos curativos d essa medicina popula r tão usada na Cidade de Goyaz.
Assim, podem os afirmar que o s di scursos apresenta dos mostram -nos os elementos própr ios do universo feminin o acerca da gravide z e do part o, bem como in dicam o sabe r-f azer das mul heres parteiras da Cidade de Goyaz, confi gurando o part o como um ato social desenvol vido principalmente por mulhere s.
Se gu ndo Michael Pollak, o que a mem ória i ndi vidual grava, recalca, exclui, relembra é evi dentemen te o resultado de um ve rdadei ro trabalho de or gani zação.79 No caso dos relatos de algumas mulheres p or nós entre vistadas, notam os que hou ve a preocupação familiar em organi zar e manter a memória de algumas mulhe res parteiras da Cidade de Go yaz.