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As diversas formas de violência, já mencionadas, são interpretadas por visões de mundo diferentes e sustentadas por posições e interesses de classes. Consideram-se assim, as formas de violências que são consideradas benéficas ou prejudiciais a determinada ordem societária. Desse modo, à violência estrutural é classificada como um tipo de violência invisível.

Segundo Silva (2007), para tornar a violência estrutural invisível, a ordem burguesa a reveste em termos naturalizados ou que amenizam a verdadeira violação, ou seja, são utilizadas “belas” terminologias como, desemprego, “exclusão social”, dentre outros. Ao mesmo tempo, as ações organizadas pelos movimentos sociais, são criminalizadas e condenadas pela ordem, ou ainda, as manifestações de violências urbanas, como os assaltos, seqüestros, rebeliões, dentro outros, são utilizados como as únicas expressões que podem explicar a violência, negando a verdadeira complexidade e o próprio sistema social que contribui para a negação e a violação dos direitos humanos.

Poder-se-ia argumentar que tampouco é homogênea a compreensão dos direitos humanos, pois varia segundo as classes sociais, as raças/etnias e os gêneros. No seio mesmo de cada uma destas categorias encontra-se distinções de entendimento. Grosso modo, entretanto, elas servem como balisas, evitando-se que se revele para o individual (SAFFIOTI, 1999, p. 85).

A ordem hegemônica cria uma ideologia de defesa da vida, da propriedade da segurança privada dos “cidadãos produtivos”, ou seja, criam-se estereótipos sociais, entre os “bons” (aqueles que trabalham e que não são violentos) e os “maus” (os bandidos, os violentos, o marginal), partindo de uma visão

solopsista/etnocêntrica. Desta forma, o trabalho52 hoje, está relacionado ao sentido de promover o indivíduo dentro de um sistema em que empregabilidade é sinônimo de dignidade humana e de “boa conduta moral e social”53, num sistema que cria normas e que cobram dos indivíduos a inserção no mercado de trabalho, como forma não só de garantir a sobrevivência, mas também de garantir a entrada no “mundo do consumo”. A característica do Trabalho, de produzir e reproduzir o ser social, permanece. O que mudou com a sociedade capitalista é a alienação do indivíduo produzido pelo sistema e a perda da detenção dos meios de produção, agora nas “mãos” do capital. Ou seja, o trabalho deixou de ser motivo para a realização pessoal, passou a ser uma obrigação, um fardo a ser cumprido, tanto para assegurar o reconhecimento social, como para possibilitar a sobrevivência do indivíduo.

No momento em que o trabalho é definido como o principal critério para a inclusão numa sociedade que produz cada vez mais desempregado, o destino dos sobrantes e dos não inseridos só pode ser a exclusão, a eliminação (...). E os presos, por sua historia de vida caracterizada por dificuldades de acesso a saúde, educação, habitação, formação profissional e consumo de bens culturais, podem ser efetivamente considerados sobrantes (OLIVEIRA, 2005, p. 110).

A violência estrutural ainda é vista pelo senso comum, como uma fatalidade, pesando sobre o indivíduo, as responsabilidades sobre os seus insucessos pessoais e sociais. Segundo Behring & Boshetti (2008), é uma forma de violência que “vem de cima para baixo”. Sendo composta por três elementos: o desemprego, o exílio em bairros decadentes e a estigmatização na vida cotidiana.

52 O trabalho de acordo com Marx, em sua forma mais “primária”, é a transformação da

natureza pelo homem para satisfazer uma determinada necessidade, ou seja, é o processo pelo qual o homem modifica o meio, ao mesmo tempo em que modifica a si próprio, a partir do momento em que criam-se novas habilidades e conhecimento - Os meios de trabalho são distintivos das „épocas econômicas‟, pois não o é que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz, é que distingue as épocas econômicas “(MARX, 1985, p. 149).“Toda produção é apropriação da natureza pelo indivíduo no interior e por meio de uma forma determinada de sociedade” (MARX, 1974a, p.112). O trabalho é atividade racional orientada para um fim, produzir valor de uso. Neste sentido, “o trabalho concreto, formador de valores de uso, é condição da vida humana, independente de todas as formas de sociedade. É atividade existencial do homem, sua atividade livre e consciente”. (IAMAMOTO, 2001, p. 40).

53 O próprio Capitalismo, via Estado, tem como função ideológica, criar um número de

mecanismos de regulação da sociedade, transfigurados em leis, normas e valores sociais, com o objetivo de controle social. Nessa direção, para Camargo (1990, p. 134), “o grande objetivo do conjunto de dispositivos disciplinares não é manter as estruturas sociais pela força, mas sim pelo cumprimento de normas de conduta bem determinantes”.

Não podemos esquecer que, o fenômeno da violência é tido como complexo, por ser um fenômeno histórico, e que, segundo Silva (1995), produz e se reproduz em determinada ordem social. Por isso, a necessidade de investigar a sua relação com o acesso aos direitos fundamentais de sobrevivência do indivíduo. Ora, “o fenômeno criminal esta presente no âmago do corpo social, por ele é gerado, dele nasce e nele produz os seus efeitos. Estudar e pensar a violência implica estudar e pensar a sociedade” (OLIVEIRA, 2002, p. 3).

Desse modo, não podemos resumir a violência estrutural à criminalidade, nem interpretá-la enquanto natural. O crime, segundo Silva (2007), não parte de decisões meramente individuais, e sim de uma dada historicidade, perpassando pela questão da negação de necessidades especificas de sobrevivência, criadas e recriadas por uma sociedade que estabelece padrões de comportamento e consumo.

É inegável que este tipo de violência é fruto de um sistema desigual. Que gera não só desigualdade de renda54, mas também de poder, negação de direitos e de benefícios do desenvolvimento.

[...] A base econômica não pode ser desconsiderada nesse contexto (já que ela é parte necessária para a satisfação mínima das necessidades humanas), o que não significa atribuir-lhe um papel único e determinista ao influir na vida do ser social. A violência estrutural é formada por um conjunto de ações que se produzem e reproduzem na esfera da vida cotidiana, mas que com freqüência não são consideradas violentas. Ao contrário, com freqüência, aparecem travestidas por atitudes “éticas”, corretas e imprescindíveis para a “saúde social” (SILVA, 1997, p.136).

A solução seria a efetivação de um Estado democrático, que promovesse uma política econômica redistibutiva e garantisse o acesso a direitos sociais, econômicos e políticos. Mas como fazer isso dentro de um Estado Neoliberal e Capitalista? Como não há confiança no Estado, porque esse não garante um Estado de Direito, as ações coletivas55 são relegadas ao plano privado, ampliando as

54 Segundo Behring & Boshetti (2008), o Brasil está em penúltimo lugar entre o conjunto de

países do mundo em distribuição de renda: 1,7 milhões de brasileiros ricos, ou seja, 1% da população, se apropria da mesma soma de rendimentos familiares distribuídas entre outros 86, 5 milhões de pessoas (50% da população); 53,9 milhões de brasileiros (31,7% da população) sobrevivem com menos de R$ 160,00 mensais e são considerados pobres; e 21,9 milhões de brasileiros (12,9% da população) são indigentes, ou seja, possuem uma renda familiar per capita inferior a ¼ do salário mínimo.

55 Ações coletivas, entendidas por Baierl (2004), como interesses individuais que, a partir de

formas de discriminação diluindo/ dispersando as possibilidades de transformação da realidade.

Tendo em vista tal situação, um primeiro passo, para a luta em prol da garantia de direitos, seria pelo menos a conscientização dos indivíduos que as problemáticas sociais fazem parte da coletividade e não é um problema individual para assim, cobrar ações efetivas da representação da coletividade, ou seja, do Estado e este por sua vez cobrado para cumprir com suas obrigações, deixasse de ver os problemas sociais dentro de uma perspectiva fatalista e policialesca, e adotasse realmente a prática de um Estado social e democrático.

Para tanto, é necessário que o Estado de fato assuma seu papel não só no âmbito da violência e da segurança, mas nas condições de vida da população e qualidade de vida. Ou seja, por meio de um conjunto de ações integradas envolvendo saúde, emprego, lazer, educação, segurança, entre outros. Sem essa ação integrada, quase nada poderá ser feito para que o problema da violência e do medo social seja controlado (BAIERL & ALMENDRA, 2002; p. 66).

E em virtude dessa negação a um Estado de direito, a propagação da violência, faz surgir uma espécie de reedição do poder, colocando em xeque os poderes legalmente instituídos, desqualificando o Estado na gestão pública. Portanto, na ausência de um Estado garantidor de direito, é comum o surgimento de poderes paralelos, e aí enquadramos a questão das facções criminosas e das milícias instauradas nas comunidades mais carentes.

De alguma maneira, é o tráfico que ocupa o vazio deixado pela ausência de políticas públicas no âmbito da habitação, assistência social, saúde e educação, empregabilidade, segurança e lazer. Gera empregos no campo da ilegalidade, à medida que arrebanha exercito de crianças e adolescentes que assumem as mais diferentes funções no mundo do tráfico. Assume o papel de garantir a ordem e a segurança nos espaços por ele ocupados e apresenta características de uma fatia do mercado de trabalho ilegal e ilícito, mas consentido e tolerado (BAIERL, 2004, p. 136).

Desse modo, a violência estrutural, nada mais é que uma das expressões da Questão Social, mas que permanece velada por ser vista como algo natural e inerente à ordem social.

O conjunto das expressões das desigualdades sociais engendradas na sociedade capitalista madura, impensáveis sem a intermediação do Estado. Tem sua gênese no caráter coletivo da produção, contraposto a apropriação privada da própria atividade humana – o trabalho -, das condições necessárias a sua realização, assim como de seus frutos. É indissociável da emergência do “trabalhador livre” que depende da venda de sua força de trabalho com meio de satisfação de suas necessidades vitais. A questão social expressa, portanto, desigualdades econômicas, políticas e culturais das classes sociais, mediatizadas

por disparidades nas relações de gênero, características ético-raciais e formações

regionais, colocando em causa amplos segmentos da sociedade civil no acesso aos bens da civilização (IAMAMOTO, 2002, p.26, grifos nosso).

Fala-se em insegurança em relação ao aumento da criminalidade, mas esquece-se que a maior forma de insegurança é vivenciada pela grande massa da população que cotidianamente sofre com a negação e violação de seus direitos. “A insegurança da existência se impõe à idéia de seguridade social, num ambiente marcado por momentos de inquietação pública nas grandes metrópoles, onde se concentra a pobreza, que hoje é mais urbana que rural” (Behring & Boshetti, 2008, P. 187). O crime, por sua vez, nada mais é que reflexo desta violência cotidiana. É por isso, que ,comumente, escuta-se a questão da relação de causa e efeito em relação à criminalidade e a pobreza.

No limite, podem usar meios ilícitos para obter os recursos de que necessitam para integrar-se: o tráfico, o roubo, a violência, os meios transgressivos de participação. A deterioração dos valores éticos que deveriam permear as relações sociais, e que daí resulta, já produz seus desastrosos efeitos na socialização anômica das novas gerações, na vivência cotidiana atravessada pela violência (MARTINS, 2003; p.39).

Sobre a questão da pobreza, Dominguez (2002), analisa que na década de 1990, principalmente na América Latina, tivemos o surgimento da feminização e a urbanização da pobreza em virtude do crescimento urbano, dos novos rearranjos familiares e principalmente, como conseqüência do processo de reestruturação produtiva. O autor ainda faz menção às formas de pobrezas: infanto-juvenil; a pobreza rural; a pobreza indígena; a pobreza da terceira idade e a chamada pobreza recente.

As conseqüências da combinação perversa entre recrudescimento da pobreza, suposta falta de recursos do Estado – porque já sabemos que eles existem para o pagamento de dívidas – e, impactos para a cobertura de políticas sociais são, portanto, realmente dramáticas. Cabe tirar da sombra desdobramentos de sérias e duradouras conseqüências sociais no Brasil, mas que são tendências em curso no mundo. Falamos do retorno do Estado Policial (BEHRING & BOSHETTI, 2008, P. 187).

A primeira é ligada à questão da precarização do ensino, a má nutrição e o não acesso à água potável. Quanto à segunda, foi medida tendo em vista os altos registros de bolsões de misérias entre os pequenos produtores e famílias que vivem da agricultura familiar. A indígena é avaliada como fruto da violência cultural étnica. Em relação à pobreza na terceira idade, é típica do modelo neoliberal que precariza o sistema de cobertura da previdência social. E quanto à última, a pobreza recente, faz parte da ideologia do consumismo que paira na sociedade capitalista, onde os considerados mais pobres, conseguem usufruir alguns bens de consumo, mas ao mesmo tempo, são vítimas dos sucateamentos das políticas sociais e do desemprego.

Portanto, os dramas da miséria, da fome, da precária educação e da pobreza vivenciados pela maioria da população da sociedade brasileira são frutos de uma ordem econômico-social baseada na lucratividade, na desigualdade social e conseqüentemente na exclusão das massas, gerando em meio a esta corrente de pensamento, a violência, na qual esta não apresenta-se apenas como danos no plano físico ou material, mas acima de tudo, no plano subjetivo, vivenciados pela classe pauperizada, quando se fala em políticas públicas garantidoras de direitos sociais.

Pobreza, portanto, é a destruição, a marginalização e a desproteção. A destituição dos meios de sobrevivência física, a marginalização no desfruto dos benefícios do progresso e no acesso as oportunidades de emprego e consumo, e a desproteção por falta de amparo público adequado e inoperância dos direitos básicos da cidadania, que incluem garantias de vida e bem-estar social. Isso retrata uma faceta da violência institucionalizada praticada contra a população brasileira (DEMO apud SILVA, 1995, p. 114).

Todas estas formas de pobreza centram-se em uma só expressão: a violência estrutural. São violações que reduzem diretamente o nível da qualidade de

vida da população. Fazendo parte, portanto, da Questão Social, que segundo, Yazbek (2004, p.33), na atualidade,

Se reformula e se redefine, mas permanece substantivamente a mesma por se tratar de uma questão estrutural, que não se resolve numa formação econômica social por natureza excludente. Questão que, na contraditória conjuntura atual, com seus impactos devastadores sobre o trabalho, assume novas configurações e expressões entre as quais destacamos: 1- as transformações nas relações de trabalho; 2- a perda dos padrões de proteção social dos trabalhadores e dos setores mais vulnerabilizados da sociedade que vêem seus apoios, suas conquistas e direitos ameaçados.

Ficam os questionamentos: Será que o aumento expressivo das diversas formas de violência, dentre elas, a questão da criminalidade não é uma reação ao conjunto de desigualdades, preconceitos de raça, gênero, etnia e geração, que é produzido e reproduzido por essa sociedade? Negam-se direitos sociais, humanos, políticos, direitos básicos de sobrevivência e a própria oportunidade de se ter um emprego formal. Será que chegamos à barbárie?

Quando uma sociedade trata a violência como corriqueira, o risco que ocorre é a banalização do cotidiano, chegando à barbárie. A realidade brasileira expressa essa situação. A violência aparece como algo corriqueiro, típico do cotidiano das pessoas, quer seja a violência na cidade, quer seja a violência no campo: homicídios, chacinas, ocupações violentas de terras, dizimação de índios, morte perinatal, estupros, acidentes de transito, assaltos, roubos de banco, extorsão, trafico de drogas, linchamento, trafico de crianças e uma violência que não ganha visibilidade pelas marcas que deixa no corpo, mas que se expressam no conjunto das relações sociais e na vida cotidiana: ausência de equipamentos sociais mínimos, tempo gasto no transporte, desemprego, filas de espera, baixos salários, qualidade e quantidade de serviços públicos de direito do cidadão, desrespeito, perda de dignidade, ausência de cidadania, que vai minando o cotidiano dos sujeitos (BAIERL, 2004, p. 52).

Sabemos que, somos frutos de um processo histórico de construção social e cultural e que muitos destes pontos alencados são antigos, contudo nos últimos anos assiste-se a um processo de agravamento crescente, escondendo-se atrás de ações paliativas e imediatistas por parte do Estado, que prega a constituição e construção de direitos iguais para todos os cidadãos, ao mesmo tempo em que nega ,com sua prática, a Cidadania.

A democracia burguesa assume, necessariamente, a forma universal da lei capitalista: todos são iguais perante a lei. Essa necessidade é vital. É preciso que o indivíduo seja visto como átomo social, como unidade, o que permite pensar suas ações como relações iguais, intercambiáveis. Graças a essa igualdade formal, o mercado na lógica capitalista, passa a ser regulador de todos os mecanismos da sociedade. A cidadania burguesa [por sua vez], dispensa a participação ativa dos cidadãos, exigindo das massas apenas uma postura absoluta de indiferença, inércia e conformismo. Basta-lhe obediência. Não requer a livre adesão dos indivíduos. Não necessita, e chega mesmo a dispensar, salvo nos rituais eleitorais, transformados muitas vezes em mero exercício de legitimação política (DIAS, 1996, p. 131/134).

Dessa forma, os direitos sociais, políticos e humanos são relegados ao plano da utopia. Cria-se uma falsa democracia no intuito de controle e dominação das massas, que é funcional ao sistema. A única forma de presenciarmos um pouco de proteção social, mesmo que de forma sucateada, é quando o indivíduo encontra-se inserido no mercado formal de trabalho. Contudo, mesmo esta mínima proteção encontra-se em crise, haja vista, a conjuntura atual de precarização das relações trabalhistas e o crescente desemprego estrutural.

Neste sentido, é necessário que, primeiramente – e isto é fundamental - que o Estado passe a assumir de fato o seu papel na garantia de direito – fato complicado haja vista, a política neoliberal adotada pelo nosso governo – não através de ações focalizadas, seletivistas, assistencialistas, que nem sequer garantem os mínimos sociais, mas através de políticas sociais, que consigam realmente assegurar emprego, saúde, educação, lazer e participação popular. Segundo, não se pode negar a necessidade de se construir dentro da sociedade uma consciência crítica que permita a construção de uma nova sociabilidade, que rompa com as amarras imperialistas e com este modelo de dominação, expropriação e exploração gerada pelo capital. E terceiro, é necessário acabar com a visão simplista e fatalista de que violência e criminalidade são casos de polícia, e que pobreza, violência e criminalidade são fenômenos de causa e efeito.

... Analisar as desigualdades sociais e as formas de exclusão que, se de um lado, por si só, não explicam a violência, por outro, criam o clima propicio para sua expansão. Não podemos reduzir a violência como condição de pobreza na sociedade. No entanto, numa sociedade onde o consumo se amplia, onda as diferenças entre ricos e pobres cada vez mais se afirmam, onde os acessos aos direitos mínimos e básicos não são respeitados, onde os direitos sociais (moradia, saúde, educação, alimentação, lazer e segurança), promulgados na Corta Magna de 1988, são negados, onde impera a impunidade e o desrespeito à legalidade constituída, sem dúvida, há que se pensar as várias dimensões que fazem emergir e reforçar as diversas facetas da violência (BAIERL, 2004, p. 25).

A violência principalmente é um fenômeno polissêmico, que tem muitas facetas, muitas causas e desperta diversas formas de reação dos indivíduos. Portanto, não podemos estudá-la por uma só ótica, assim como, não podemos descartar a influência das desigualdades sociais e da pobreza no acirramento das suas mais variadas expressões. A sociedade por si só é contraditória e a violência nasce no âmbito das relações sociais que cria e se recria.

A violência urbana é um fenômeno complexo e multifacetado, que exige ações integradas, se não para solucioná-lo, pelo menos para reduzir seus índices e seus impactos na vida das pessoas, dos grupos e da sociedade. Trata-se de um fenômeno transversal, que recorta o conjunto das instituições e organizações sociais, econômicas e políticas, e, portanto, deve ser compreendido e explicado em sua totalidade, para que os conjuntos dos obstáculos possam ser enfrentados. Não pode ser reduzido somente como um caso de polícia ou de saúde pública, ou como pobreza e miséria, ou como advindo de situações psicológicas e intrafamiliares, ou como um problema cultural, como ausência de solidariedade. A violência não pode ser tratada como objeto desta ou daquela área do conhecimento, deste ou daquele público. Trata-se de um fenômeno que deve ser enfrentado por todo a sociedade (BAIERL, 2004, p. 208).

Compreendendo desse modo, o fenômeno das diversas expressões da violência no meio social podemos assim, conseguir romper com os esteriótipos criados socialmente de que violência é problema de pobre ou que é um determinante patológico ou psíquico. Este será um primeiro passo para se tentar romper com o olhar fatalista que paira na sociedade quando se fala em