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Ao se pensar no “Ser Mulher”, comumente, tem-se a imagem construída a partir da visão de que as mulheres têm uma natureza única e que são possuidoras de uma bondade ontológica. Esta concepção acerca das mulheres tem como corolário a visão das mulheres como vítimas do destino. Desta forma, historicamente a figura da mulher foi colocada em um patamar de submissão, repressão e/ou vitimização, quando se fala em situações de violência.

Como forma de quebrar o mito da vitimização da mulher, quando se fala em violência, Marilena Chauí (1985, p.36), levanta a afirmação que, a “violência é a conversão de uma diferença e de uma assimetria numa relação hierárquica de desigualdade com fins de dominação, exploração e de opressão”, que quando aplicada às relações de classe, gênero, raça e etnia exprimem a diferença entre o superior e o inferior. Desse modo, reportando-se a categoria poder como uma relação unilateral do superior sobre o inferior, a autora, nos faz inferir que as mulheres em situação de violência acabam sendo vistas como “cúmplices” do ato sofrido por terem menor poder, e assim, não “lutam” contra o opressor, tornando-se meros “vazadouros da violência”, como se fossem “marionetes” do dominador.

Nesta mesma linha de pensamento, Gregori (1993), afirma que as mulheres incididas pela violência não são simplesmente vítimas passivas destas, mas parceiras ativas que chegam a “provocá-la” ou a não evitá-la56.

Por um lado, é notório que, não podemos negar, que, dentro da sociedade capitalista, marcada pelo patriarcalismo, pelo autoritarismo, pelas relações de poder e pela dominação, as mulheres são consideradas, muitas vezes, cúmplices.

As mulheres são simultaneamente sujeitas ao capitalismo, a dominância e a seus corpos. Colocar a questão de forma alternativa é o mesmo que perguntar se são as idéias ou as condições materiais que estruturam a subordinação das mulheres. (...). Patriarcado e capitalismo não são sistemas autônomos, nem mesmo interconectados, mas o mesmo sistema. Como formas integradas, eles devem ser examinados juntos (SAFFIOTI, 1992, p. 195).

56 Tal afirmação é polemica e leva a compreensão de que mulheres vítimas da violência

mereceram a violência. Não é esta nossa concepção. Estamos somente apresentando as várias visões das/os autoras/es e chamando atenção para o fato de que as mulheres nem sempre são agentes passivas ou somente vítimas da violência.

Porém, fazendo esta análise sobre a relação mulher, violência e poder, ao se apresentar o último como unilateral, os autores negam o princípio, defendido por Foucault (1999), de que, mesmo em uma situação de dominação, os indivíduos considerados submissos exercem alguma forma de poder sobre o “dominador”. Ora o poder não é unilateral, sendo analisado deste modo, o indivíduo, no caso a mulher, subjugada a uma relação de poder, nega a sua autonomia e sua possibilidade de ser sujeito.

(...) o poder é uma rede de relações que se exerce nos micro-espaços cotidianos. Não é uma rede exercida unilateralmente, onde há os que detêm o poder e os que não o possuem. É uma rede que circula todos os níveis e relações. Assim, ele pode ser descoberto no cotidiano da história, nos micro-espaços, nas micro-frações concretas e cotidianas ao longo da história (FOUCAULT, 1999, p. 10 – 13).

Uma das justificativas tomadas por Arrazola (1999), para a sociedade não ver a mulher enquanto sujeito ativo de um crime ou de um ato violento está na condição do ser mulher e do ser homem e nos mitos57 que historicamente foram construídos. Um destes, em relação à mulher, é a própria condição natural da maternidade, ou seja, esta forma de pensar, enfatiza a conservação e proteção da vida, e consideram as mulheres como essencialmente não violentas. Se assim fosse, como poderíamos explicar as mulheres que cometem violência contra os seus próprios filhos?

Entre as características culturalmente exigidas e reproduzidas do masculino, naturalizadas e essencializadas como tais, estão à força, as agressividades, o destemor (...), do que derivam os seus direitos. Contraditoriamente ao que se define e reproduz como feminino, do que se espera das mulheres: suavidade, abnegação e obediência. A naturalização do jeito agressivo e modos violentos que parecem consagrar uma masculinidade levam muitos homens a perceberem e desconsiderarem atos de violência (...) (ARRAZOLA, 1999, p. 10).

A resposta para Saffioti (1999, p. 84-86) a esta problemática do poder, está na chamada “síndrome do pequeno poder”. Trata-se de uma hierarquia de poder no âmbito privado, não do modo que aponta Chauí e Gregori.

57 Dentre estes mitos, temos: o mito da natureza única da mulher, que na verdade, percebe

a mulher como ser a-histórico, esquecendo as diferenças culturais e sociais; temos o mito

da natureza ontologicamente boa da mulher, que tenta unificar todas as mulheres como

essencialmente boas; e o mito da natureza do poder masculino, no qual os homens são sempre os agressores e as mulheres as vítimas. Com esta afirmação não estamos tentando considerar o homem como inocente nas relações de gênero, mas também, não podemos generalizar o homem sempre como o agente violento nestas relações. (Ver Lima, s/d).

Para que as mulheres pudessem ser cúmplices; dar consentimento às agressões masculinas precisariam desfrutar de igual poder que os homens. Sendo detentoras de parcelas infinitamente menores de poder que os homens, as mulheres só podem ceder, não consentir (Saffioti, Ibidem).

Portanto, apesar de historicamente, pelo senso comum, o âmbito privado ser considerado como espaço da mulher, não podemos negar que o poder familiar e doméstico é também pautado no patriarcalismo58, e a mulher por sua vez, acaba executando, na ausência da figura do homem e, muitas vezes, por delegação destes, ações violentas contra seus filhos ou outros parentes ou até mesmo contra trabalhadores/as domésticos/as. Desse modo, como já assinalamos, “o Poder não é algo que se possa dividir entre aqueles que possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos. O poder deve ser analisado como algo que circula (...). O poder funciona e se exerce em rede” (FOUCAULT, 1999, p. 183).

Por esse motivo, quando falamos em questão de violência e de criminalidade no meio feminino, não podemos, levar a situação de extremidade, de serem apenas vítimas e ou de serem também as culpadas. Este ponto é crucial para entender o nosso objeto de pesquisa, ou seja, isso nos faz levantar a afirmação de que, não podemos julgar se um indivíduo é criminoso ou não, ou enquadrá-lo em um patamar de periculosidade ou não, apenas pelo ato cometido. É necessário analisar os determinantes que o levaram a execução de tal crime. Neste sentido, não podemos nos deter apenas aos espaços e determinantes econômicos e materiais, nos quais estão inseridas estas mulheres, mas analisar como categoria central às relações sociais de gênero59 e as responsabilidades e representações postas ao Ser Mulher, na sociedade contemporânea.

58 Para Scott (1990), o patriarcado empenha-se em explicar a subordinação das mulheres, a

partir da necessidade masculina de dominar.

59 Para Scott (1991), o gênero expressa-se nos símbolos culturais, nos conceitos normativos

que interpretam o sentido destes símbolos; refere-se a política, instituições e organizações sociais, como também identidades subjetivas. Segundo Camurça e Gouveia (1997), por gênero entende-se, a relação social entre os indivíduos da sociedade, caracterizada pelo poder e variada de acordo com sexo e mediatizada pela classe social, a raça/ etnia e a idade. Há autores que discordam da inclusão do termo idade, junto com classe, raça / etnia, pois consideram estes elementos centrais e estruturais, enquanto que aquela é provisória, pois muda com o tempo (conjuntural). Apesar de concordarmos com tal posição, o incluímos, pois a idade estabelece graus variados de poder e inclusão dos indivíduos.

Há que se estar atento a uma análise interna sem descuidar das suas relações com a organização social e ao mesmo tempo sem tornar o gênero um sub-produto das estruturas sociais. Há que se estar atento aos sistemas simbólicos e a construção da subjetividade humana, sem, contudo, descuidar dos contextos sociais e históricos (LIMA, 2002, p.15).

O fato é que não podemos atribuir a culpabilidade apenas ao indivíduo, e sim perceber que há uma sociabilidade maior que dita regras e cria a lógica social. Esta sociabilidade é regida e perpassada por relações violentas, às vezes, somente simbólica, outras vezes, estrutural, física, concreta. Nesta sociabilidade os indivíduos aprendem a conviver com a violência e a serem também violentados.

De modo geral, historicamente a mulher, frente ao meio social, é caracterizada como indivíduo submisso nas relações sociais60. Sabemos que muitas têm aceitado essa ideologia da submissão, da exploração, da dominação e subestimado sua condição, mas não podemos deixar de lado que, as transformações sociais, econômicas e políticas têm despertado muitas mulheres para a redefinição61 de sua inserção social, ou seja, temos muitas mulheres que apesar da predominância cultural machista e patriarcal, tem lutado e conquistado espaço, desde o ambiente do mercado de trabalho, até mesmo seu papel nas relações familiares, enquanto chefes de família e provedoras do lar. Este processo não é um movimento uniforme, é uma luta constante contra estereótipos, contra a cultura dominante, contra a história de submissão, que data desde a Idade Antiga.

A realidade é uma constante contradição. Enquanto, por exemplo, aumenta o número de mulheres no mercado de trabalho, aumenta à disparidade salarial e as jornadas triplas de trabalho; enquanto lutamos em um Movimento que prima pela

60 Segundo Iamamoto (2005), a questão da mulher como submissa é discussão que permeia

a sociedade desde os seus primórdios. A autora ressalta que “a mercantilização da força de trabalho feminina e infantil (na passagem do capitalismo monopolista para o concorrencial) é considerada uma questão complexa” (IAMAMOTO, 2005, p.207). A autora analisa que a inserção da mulher no mercado de trabalho sem ter relação com o sustento familiar era considerada, na época, como um caso de „anormalidade social‟, desorganização e abandono da família. Assim, afirmava-se que a mortalidade infantil e abandono do menor, a desagregação moral da família tinha como causa principal o „abandono do lar‟ pela mulher.

61 Esta redefinição pode ser entendida como uma histórica luta do Movimento Feminista em

prol da emancipação feminina (sobre o Movimento Feminista ver: GOLDENBERG & TOSCANO, 1992). O feminismo neste sentido, “significa reivindicar direitos sociais e assumir as responsabilidades dele decorrentes, não em busca da igualdade com o homem, mas respeitando-se as diferenças entre os dois gêneros” (GOLDENBERG & TOSCANO, 1992, p.47).

equidade social, vivenciamos a cada dia o maior número de mulheres espancadas, sujeitas as mais variáveis condições de violência e submissão.

(...) a relação entre os sexos tem sido uma relação de poder e dominação. (...) Temos a produção e reprodução de valores preconceituosos que criam e recriam a dominação masculina no micro-espaço do cotidiano e em todas as demais esferas: políticas, econômicas e culturais (LIMA, 2002, p. 118).

O que se observa é que a mulher entra nos espaços públicos, mas o seu papel histórico no espaço privado, permanece.

Apesar da complexidade das relações sociais e dos múltiplos elementos nelas envolvidos, o pensamento Ocidental Judaico-Cristão construiu-se alicerçado numa divisão bipolar e dicotômica do Mundo (pobre/rico, alto/baixo, homem/mulher; branco/negro, produção/reprodução, público/privado, ente outras) e isto refletiu-se no mundo do trabalho, no qual, coube ao homem o espaço da produção e do domínio público e a mulher o espaço da reprodução e da esfera privada (LIMA, s/d, p. 05).

Deste modo, levantamos alguns questionamentos que acabam afirmando este espaço de contradições quando falamos neste movimento de “avanço e continuidade” sobre o protagonismo feminino. De um lado, temos o seguinte questionamento: Será que na luta em prol da emancipação da mulher em todas as esferas da sociedade, estas não estão vendo na execução de um crime também um campo de protagonismo a ser conquistado e/ ou ampliado, como forma de se equiparar ao gênero masculino, os quais são os que mais cometem crimes? Ou melhor, é possível afirmar que no intuito de construir, dentro das relações sociais de gênero, um papel de protagonista e de poder superior ao masculino, as mulheres têm visto no crime alguma oportunidade?

O que estamos tentando levantar como hipótese de trabalho é a possibilidade desta inserção no meio criminal se constituir numa forma de romper com os estereótipos construídos historicamente e socialmente sobre a mulher na sociedade, como “sexo frágil”, ontologicamente bondosa, a-histórica, sempre vítimas de ações violentas, como se as mulheres fossem incapazes de violar qualquer norma ou conduta social.

(...) embora a maioria das mulheres aceitem e incorporem determinados cânones da dominação masculina, da ideologia patriarcal ou de gênero, não significa que elas sejam passivas, não significa vergar-se ou sujeitar-se total ou incondicionalmente a essa dominação, ao poder patriarcal. Sempre existe uma variação e manipulação a respeito, sempre existe a possibilidade de resistência, da revolta, da transgressão, tanto em relação às mulheres como em relação aos homens, portanto, sempre existe a possibilidade de negociações e mudanças (ARRAZOLA, 1999, p.11).

Por outro lado, tendo em vista que, apesar de todas as conquistas sociais, as inserções no mercado de trabalho, no âmbito público e na política, as responsabilidades atribuídas historicamente ao Ser Mulher ainda permanecem, como o “cuidar”, o “proteger” e “educar”, a família, os filhos e ao marido / companheiro. Isso reafirma posturas que vem sendo adotadas e desempenhadas desde a Idade Média, quando era (e ainda é) responsabilidade da mulher “cuidar do lar”, dos filhos, ser “fiel” ao marido e dar descendência legítima. Segundo Lima (2002, p. 97), “Este era o papel destinado socialmente à esposa na sociedade antiga: dar descendência legitima. Para assegurar essa legitimidade, necessário se fazia mantê-la submissa, obediente e principalmente fiel”, anulando seus desejos e vontades em prol da defesa do lar.

Este fato foi observado no Complexo Penal Dr. João Chaves, no ano de 2004, quando cerca de 40% (quarenta por cento) das 60 (sessenta) presidiárias do Complexo, estavam presas em virtude de relações afetivas – conjugais com homens que cometeram crimes, ou ainda, por terem filhos que também estavam envolvidos com a criminalidade. Como afirma Saffioti (1999, p.84), “Há, entretanto, uma ideologia de defesa da família, que chega a impedir a denúncia, por parte das mães, de abusos sexuais perpetrados por pais contra seus (suas) próprios (as) filhos (as), para não mencionar a tolerância, durante anos seguidos, de violência física e sexual cometidas contra si mesmas”.

Portanto, nos questionamos: até que ponto a mulher pratica ou esconde um crime para defender a “harmonia” familiar e executar a responsabilidade que lhe é atribuída de ser mãe, de ser esposa? Ou até mesmo, será que para manter uma relação afetiva ou até mesmo garantir a “segurança” ou a “proteção” de seus filhos ou de seu casamento, a mulher deve “abrir mão” de sua liberdade?

Apesar destas relações no âmbito privado, não podemos esquecer de ressaltar o âmbito público, marcado por contradições sociais, por um sistema de produção que produz e reproduz relações sociais marcadas pela exploração, desigualdades, dominação e violência. Podemos afirmar que sua inserção no meio criminal configura-se também como uma estratégia de sobrevivência, pois na mesma proporção em que cresceu a inserção da mulher no mercado de trabalho (lícito), também cresceu sua inserção no mercado “ilícito”.Como diz Martins (1997), a inserção no meio criminal pode ser um mecanismo para uma inclusão marginal,

como um posto de trabalho ou como uma forma de angariar riquezas em prol do consumo.

Não podemos também ficarmos inertes, afirmando e reafirmando a todos os momentos que as mulheres são sempre vítimas, que sempre há uma relação de passividade e que estas sempre reproduzem ações bondosas ou até mesmo caridosas, como se toda forma de violência possa ser apenas executada pelo homem. Vendo desse modo, cairíamos em um fatalismo e negaríamos a existência de cerca de 80 mulheres que cumprem pena, pelos mais variados crimes, no Complexo Penal Dr. João Chaves, nosso lócus de pesquisa.

Compartilhando da idéia de Goldenberg & Toscano (1992), acreditamos que a mulher pode escolher o seu caminho – no sentido de não subjugar-se ao homem, ao mesmo tempo sabemos que qualquer indivíduo também é subjugado a lógica do capital -, sempre com relativa autonomia, sendo protagonista de sua própria história e não coadjuvante.

“A mulher não nasce mulher, mas torna-se mulher pela educação e pelos condicionantes sociais” (Ibidem, p. 58) - os mesmo condicionantes que acirram a violência e a criminalidade, que ditam regras e condutas sociais, que estimula a sociedade do “ter”e acirra a negação de direitos humanos, sociais e políticos. Desta forma, segundo Iamamoto (2002), a luta pela superação das desigualdades sociais implica, necessariamente, a luta pela igualdade de gênero, uma vez que a questão social expressa desigualdades econômicas, políticas e culturais das classes sociais, mediatizadas por disparidades nas relações de gênero, características étnico-raciais e formações regionais.Desse modo, podemos afirmar que a preocupação com a criminalidade é cotidiana, afinal é um fenômeno que atinge todas as raças, etnias, classes, faixas etárias e gêneros.

A partir desta afirmação, em relação aos condicionantes socioeconômicos, podemos considerar um mito associar a uma relação de causa e efeito e como único determinante à questão da pobreza para explicar a criminalidade. Podemos destacar e relembrar grandes crimes, que rodeiam a classe burguesa, como o chamado “mensalão”, que fez instaurar uma CPI para investigar os crimes de corrupção do governo, os chamados crimes do “colarinho branco”, que muitas vezes, financiam desde os crimes como o tráfico de drogas, no seio das elites da classe média até as milícias em comunidades e favelas e a questão da violência doméstica, os

homicídios, os femicídios e suicídios, que também estão presentes nos seios dos lares mais abastados.

O que não podemos negar são algumas particularidades em relação à essa condição socioeconômica, como é o trato recebido pela polícia em relação aqueles considerados de classe média ou rica e aqueles que são moradores de favelas. Geralmente os primeiros são “escondidos” da mídia, tem acesso a bons advogados62 e a própria polícia prima pelo seu bem-estar físico. Outra questão em relação à pobreza63 é que, apesar de pobreza e violência não ser um fenômeno de causa e efeito, nós defendemos a posição que um indivíduo sem nenhuma condição socioeconômica, aos quais são negados os direitos sociais, humanos e políticos, vivendo, em muitos casos, com os mínimos sociais, marcado pela desigualdade, pelo desemprego, pela violência em suas mais variadas formas, acaba tendo um ambiente favorável para a sua inserção no meio criminal, como uma forma de sobrevivência.

O bandido pobre é também identificado aos pobres em geral, para os quais o aparelho jurídico da nação só funciona quando se trata de reprimi-los e que carecem de recursos para livrar-se dele. O traficante rico, neste contexto, é identificado com os ricos, os poderosos, os verdadeiros responsáveis pela violência, no parecer dos pobres. Neste caso, o inimigo, está fora da localidade (ZALUAR, 1985, p. 157).

Os próprios dados do DEPEN (2006), nos afirmam que cerca de 95% da população carcerária é composta por pobres (DEPEN 2006). O que não significa que somente os pobres cometem delitos, mas sim, que são eles os predominantemente punidos. A noção de pobreza já foi representada por vários estereótipos sociais, conforme sugere Nascimento (apud Iamamoto, 2005, p. 42),

62 No ano de 2004, em visita a Vara de Execuções Penais da Comarca de Natal, só

dispúnhamos de cinco defensores públicos para todos os presídios do Estado do Rio Grande do Norte, portanto, aqueles que não tinham condições financeiras ficavam “esquecidos” e às vezes chegavam até cumprir a sua pena e ainda estavam presos por não ter um advogado particular.

63 A ONU (Organização das Nações Unidas), em 1995, levantou alguns fatores que

permitem a compreensão e que servem de base para delimitar as áreas prioritárias de políticas públicas para o combate ao fenômeno da pobreza. Estas são: relações de gênero, população e desenvolvimento, redução do desemprego, expansão do emprego produtivo e a erradicação da pobreza. A partir deste conjunto de indicadores, surgem diversos perfis de pobreza no mundo, sendo eles: a pobreza como “derivada da insuficiência de rendas; pobreza como precariedade de inserção no mercado de trabalho; pobreza como inacessibilidade aos bens e serviços públicos; pobreza como privações de direitos e pobreza como exclusão social” (Programa de Desenvolvimento Humano sustentável, 2005).

Nos anos de 1950, a pobreza foi construída em torno da imagem de Jeca Tatu – preguiçoso, indolente, sem ambição; nos anos de 1960, a imagem da pobreza passou a ser representada pela figura do malandro, aquele que não trabalha, mas vive espertamente, sendo objeto de desprezo e da indiferença. Hoje a imagem da pobreza é radicalizada: é o preguiçoso, o transgressor, o que rouba e não trabalha, o sujeito à repressão e a extinção. São classes perigosas, e não mais laboriosas, destinadas a repressão. Reforça-se assim a violência institucionalizada, colocando-se em risco o direito a própria vida.

Portanto, seria impossível desconsiderar que a atual conjuntura brasileira de