O gênero Bauhinia L. compreende aproximadamente 300 espécies vegetais, encon- tradas principalmente nas áreas tropicais do planeta. Muitas dessas plantas são usadas na medicina popular em várias regiões do mundo, incluindo África, Ásia e América Central e do Sul (SILVA & CECHINEL-FILHO, 2002; CECHINEL-FILHO, 2009b). No Brasil, as plantas do gênero Bauhinia L. são conhecidas como pata-de-vaca ou unha-de-boi. As folhas de Bauhinia forficata Link (FIGURA 3) são amplamente utilizadas no Brasil e em outros países em forma de chás e outras preparações fitoterápicas para o tratamento de várias enfermidades, mas principal- mente, no tratamento do diabetes mellitus (PEPATO et al., 2002; CECHINEL-FILHO, 2009b). Devido ao amplo uso popular, vários estudos foram conduzidos por meio de experimentos pré-clínicos e clínicos.
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Co le tâ ne a Ci en tíf ic a FA RM A CO G N O SI AFIGURA 3: Ilustração das folhas e flores (A) de B. forficata Link; (B) detalhes da flor (Arigony, 2005)
Dessa forma, a atividade anti-hiperglicemiante do extrato aquoso, etanólico e hexânico de B. forficata Link foi investigada em modelo de diabetes induzido por aloxano em ratos. Nesse estudo, os parâmetros bioquímicos estudados foram glicose plasmática, triglicerídeos séricos, colesterol, lipoproteína de alta densidade (HDL) e lipoproteína de baixa densidade (LDL). Os extratos foram administrados diariamente por 7 dias, em doses de 200 e 400mg/kg, via oral. Os animais diabéticos apresentaram reduções significativas na glicemia, triglicérides, colesterol total e HDL após o tratamento com os extratos, em comparação com os controles diabéticos, enquanto os níveis de LDL não foram alterados. Os autores concluíram que os extratos da planta, quando administrados via oral podem reduzir a glicemia, triglicerídeos, colesterol total e colesterol- HDL, sugerindo a validade do uso clínico de B. forficata Link no tratamento da diabetes mellitus tipo II (LINO et al., 2004). Em outro estudo, foi avaliado o efeito da administração da fração n- butanol do extrato das folhas de B. forficata Link, via oral, sobre os níveis sanguíneos de glicose em ratos. A administração dessa fração levou a uma redução significativa dos níveis de glicemia em ratos normais e diabéticos. O efeito hipoglicemiante foi observado em doses de 500 e 600mg/kg, 1 e 2 horas após o tratamento, respectivamente, em ratos normais. O efeito máximo foi observa- do com 800mg/kg, 1 hora após o tratamento em animais diabéticos (SILVA et al., 2002).
B A
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Co le tâ ne a Ci en tíf ic a FA RM A CO G N O SI AOs efeitos do uso da decocção de folhas de B. forficata Link (150g/L de água), como substituto de água potável induzida por 1 mês sobre o diabetes por estreptozotocina em ratos Wistar machos, foram investigados. Os ratos diabéticos tratados com decocção mostraram re- dução significativa nos níveis de glicose no soro e na urina (PEPATO et al., 2002). A partir da fração n-butanólica do extrato das folhas, foi isolado um flavonoide majoritário conhecido como dirhamnosídeo kaempferol-3 ,7-O-(alfa) (kaempferitrina), em concordância com os estudos preliminares descritos (SILVA et al., 2001) que indicavam essa substância como um possível marcador para a espécie. Esse marcador também foi isolado da B. forficata Link por Menezes et al. (2007), além da quercetina-3,7-O-dirhamnosido, a partir de extrato aquoso das folhas, com comprovada atividade hipoglicemiante em camundongos. Além do kaempferol, Pizzolatti et al. (2003) evidenciaram a presença de 4 flavonoides glicosilados nas folhas da B. forficata, a 3,7- di-O-a-L-ramnopiranosilkaempferol, 3,7-di-O-a-ramnopiranosilquercetin, 3-O-[a-L- ramnopiranosil-(1�6)-b-D-glucopiranosil]-7-O-a-L-ramnopiranosilkaempferol e 3-O-[a-L- ramnopiranosil-(1�6)-b-D-glucopiranosil]-7-O-a-L-ramnopiranosilquercetina. Das flores so- mente foi isolado o 7-O-a-L-ramnopiranosilkaempferol.
Os efeitos desse composto sobre os níveis de glicose no soro bem como seu potencial antioxidante foram avaliados. A administração oral de kaempferitrina levou a um significativo efeito hipoglicemiante em ratos normais e em ratos com diabetes induzida por aloxano. Em ratos normais, a diminuição da glicemia foi observada somente com a dose mais elevada de kaempferitrina (200mg/kg), 1 hora após o tratamento. Porém, o efeito hipoglicemiante de kaempferitrina em ratos diabéticos foi evidente em todas as doses testadas (50, 100 e 200mg/ kg), e esse perfil foi mantido durante todo o período estudado, para as doses mais elevadas. Além disso, o composto mostrou significativa atividade antioxidante (SOUSA et al., 2004).
Cunha et al. (2010) investigaram a atividade hipoglicemiante de extratos secos das folhas de B. forficata Link folhas, bem como a influência dos processos de secagem e granulação nessa atividade, utilizando ratos com diabetes induzida por streptozotocina. Após 7 dias de tratamento (200mg/kg), a glicemia de jejum foi determinada, os fígados retirados para deter- minação de glicogênio hepático e também observado que os extratos secos agem de maneira diferente de glibenclamida.
Por outro lado, em um estudo clínico, Russo et al. (1990) relataram que a infusão prepa- rada com as folhas da B. forficata Link não apresentou efeito hipoglicemiante em pacientes com glicemia normal e em pacientes com diabetes tipo II (não insulino dependente). Também são relatados estudos que verificaram que o extrato alcoólico de folhas dessa planta não reduz a concentração da glicose em ratos diabéticos induzidos pela streptozotocina (DAMASCENO et al., 2000 apud SILVA E CECHINEL-FILHO, 2002). Os resultados discrepantes, segundo Silva e Cechinel-Filho (2002), podem ser devido a vários aspectos não levados em consideração nes- sas investigações, como os fatores ambientais (tipo de solo, clima, dentre outros) e sazonais.
Com relação aos estudos toxicológicos, o efeito do extrato aquoso de B. forficata Link sobre a reprodução e os sistemas antioxidantes em ratas diabéticas for avaliado por Volpato et al. (2008). As doses avaliadas foram de 500mg/kg do 0 ao 4º dia de gestação, 600mg/kg do 5º ao 14º dia e 1.000mg/kg do 15º ao dia 20º. Os resultados mostraram que as matrizes diabéticas apresentaram aumento do nível da glicemia, reabsorção, peso placentário, índice placentário e anomalias fetais. Foi observado também redução de Glutationa (GSH) e Superóxido dismutase
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Co le tâ ne a Ci en tíf ic a FA RM A CO G N O SI A(SOD), de fetos vivos, de aumento de peso materno, de peso do útero gravídico e de peso fetal. Além disso, foi verificado que o tratamento com B. forficata Link não teve nenhum efeito hipoglicemiante, não melhorou o desempenho reprodutivo das ratas diabéticas, mas contri- buiu para manter a concentração de GSH semelhante a grupos não diabéticos, sugerindo rela- ção com a diminuição da incidência de anomalias viscerais.
Tzeng et al. (2009) avaliaram a ativação das vias de transdução de sinal e sobre a secreção de adipocinas pela estimulação da kaempferitrina em adipócitos. Os autores demonstram que o trata- mento com o marcador resultou em um aumento no nível de regulação da fosforilação sobre os receptores beta e o substrato 1 do receptor de insulina, além de estimular a secreção de adiponectina de modo mais sustentado do que a própria insulina. Os resultados evidenciam o efeito dual da substância, de um lado aumentando a resistência à insulina pela ativação das vias clássicas de transdução da insulina e, por outro, aumentando a secreção de adiponectina, podendo auxiliar a promoção da sensibilidade periférica à insulina. Os autores concluem que a kaempferitrina pode representar um potencial fármaco ou suplemento alimentar para diabéticos.
Dentre os estudos de controle de qualidade da droga vegetal comercializada no Sul do Brasil, destaca-se o grande número de reprovação de amostras, sendo que, das 6 analisadas, todas foram reprovadas quanto à presença de material estranho (>2%), identificação microscó- pica positiva somente para 2 amostras e presença de kaempferitrina (CCD e CLAE) somente em 4 amostras (ENGEL et al., 2008). Como subsídio à diferenciação entre a B. forficata Link e a B. variegata L., Lusa e Bona (2009) descrevem análises em microscopia fotônica e eletrônica de varredura das folhas destas espécies.
Para essa espécie, há vários estudos na literatura sobre o desenvolvimento tecnológico de extratos que podem subsidiar a obtenção de fitoterápicos bem como o efeito da posição do atomizador e das condições de operação na obtenção de extrato seco de B. forficata Link por secagem em leito, com o monitoramento do produto – propriedades físicas, degradação de flavonoides (SOUZA & OLIVEIRA, 2005). Souza et al. (2009a) avaliaram o uso de dois distintos secadores (leito de jorro e spray dryer) para a produção de extratos secos de B. forficata Link, obtendo, com sucesso, um produto seco adequado sob o ponto de vista físico e químico (aná- lise de perfil cromatográfico dos flavonoides por CLAE). Os autores compararam os métodos de secagem e monitoraram a bioatividade dos extratos secos quanto à atividade antioxidante in vitro e observaram uma pequena redução na atividade sequestradora de radicais livres nos extratos secos, atribuindo a reações oxidativas, decomposição e/ou perdas de compostos termolábeis induzidas pelo calor. Cunha et al. (2010) mostraram que os processos de secagem por spray dryer ou estufa na obtenção de extrato seco de B. forficata Link não alteraram signifi- cativamente o perfil de flavonoides (por CLAE) e sua atividade hipoglicemiante.