No Brasil, as pesquisas de Amadeu Amaral, primeiro dialetólogo que trata do dialeto caipira paulista, são de fundamental importância para o estudo da variante brasileira da língua portuguesa. A inaugural tentativa nacional de descrever um falar regional (AMARAL, 1982), de sua autoria, é particularmente interessante para o presente estudo, tendo ainda em vista que sua herança metodológica37 contribuiu para traçar as linhas basilares de como realizar um trabalho investigativo com seriedade (CARDOSO; FERREIRA, 1994). Com efeito, Amaral adota um procedimento metodológico que tarda a chegar ao País, e sua colaboração é significativa para a propagação de estudos dialetológicos regionais e nacionais que culminariam, posteriormente, na proposta do Atlas Linguístico do Brasil.
A dialetologia tem por objetivo identificar, descrever e situar os diferentes usos em que uma língua se diversifica, enfocando essencialmente a variável diatópica, a despeito de atentar para a distribuição sociocultural e cronológica. Dois aspectos fundamentais estariam, segundo Cardoso, S. A. (2010, p. 25), na gênese dessa disciplina:
o reconhecimento das diferenças ou das igualdades que a língua reflete e o estabelecimento das relações entre as diversas manifestações linguísticas documentadas ou entre elas e a ausência de dados registrados, circunscritos a espaços e realidade prefixados.
As primeiras coletas de dados dialetológicos datam do século XVIII, quando os dialetos passam a ser objeto da atenção de linguistas. No século XIX, o método específico da dialetologia, conhecido como geografia linguística, ou geolinguística, passa a auxiliar significativamente no desenvolvimento da área, principalmente com as pesquisas de Georg Wenker e Jules Gilliéron. Em sua obra, intitulada Sprachatlas Von Nord und Mitteldeutschland: auf Grund Von systematisch mit Hülfe der Volksschullehrer gesammeltem
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65 Material aus circa 30.000 orten (Atlas Linguístico da Alemanha do Norte e do centro, com base em material reunido sistematicamente com a ajuda de professores primários de cerca de 30000 localidades), Wenker (1881 apud SANTOS, I. P. dos, 2013) tem como mérito principal o registro da variação diatópica ao observar que as fronteiras políticas não correspondiam às fronteiras linguísticas. É, no entanto, Jules Gilliéron, com o auxílio de Edmond Edmont, quem marca o início da aplicação do método da geografia linguística com rigor científico.
Apesar do trabalho de Gilliéron ter sido recebido com ressalvas por alguns linguistas da época (CARDOSO, S. A., 2010, p. 44), ele define um rumo para os estudos dialetais. Antes de seu Atlas Linguístico da França, elaborado entre 1901 e 1920,38 os estudiosos se preocupavam primeiramente com os sons, depois com as formas gramaticais e, ao fim, com a sintaxe, não demonstrando grande interesse com relação ao vocabulário. Rossi (1980), em razão disso, afirma que o dialetólogo francês
[...] inscreve-se entre os responsáveis por uma das mais importantes tendências da passagem do século XIX ao século XX nos estudos linguísticos: o deslocamento do centro de interesse do som fônico à palavra (da fonética histórica à lexicologia histórica).
Com o passar dos anos, o método elaborado por Gilliéron se aperfeiçoa e inclui outros parâmetros (além do diatópico), buscando retratar peculiaridades etnográficas e variações diastráticas. Ainda assim, é possível afirmar que a dialetologia tem por finalidade essencial o estudo da variação geolinguística, isto é, inventariar, sistematizar e estudar as variedades de uma língua do ponto de vista diatópico (SANTOS, I. P. dos, 2013).
Coseriu (1982, p. 105) define a geolinguística como
o método dialectológico e comparativo [...] que pressupõe o registro em mapas especiais de um número relativamente elevado de formas linguísticas (fônicas, lexicais ou gramaticais) comprovadas mediante pesquisa direta e unitária numa rede de pontos de determinado território, ou que, pelo menos, tem em conta a distribuição das formas no espaço geográfico correspondente à língua, às línguas, aos dialetos ou aos falares estudados.
Esse método dialetológico e comparativo apoia-se em um tripé básico, constituído pela (i) rede de pontos, (ii) os sujeitos-entrevistados39 e (iii) os questionários, e pode ser dividido em duas etapas: uma primeira, de cunho descritivo, e uma segunda, de caráter interpretativo (cf. CARDOSO, S. A., 2010). Definida a rede de pontos e os sujeito- entrevistados, após exaustivo levantamento dos indicadores sociais e o mapeamento histórico-geográfico da localidade, efetua-se a coleta de dados por meio da aplicação de questionário em entrevista in loco. Existem tipos diversos de questionários, com vistas ao tipo de dado a ser recolhido: fonético-fonológico, morfossintático, prosódico, pragmático discursivo, metalinguístico, ou, aquele por nós utilizado, semântico-lexical. Parte-se, então,
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Alguns estudiosos defendem que este período se estende até 1930 (SANTOS, I. P. dos, 2013). 39
A escolha do termo se deve ao fato de, conforme I. P. dos Santos (2013), entendermos o sujeito enquanto ser social, afirmando-o por meio de uma carga semântica positiva e não apenas descritiva. Assim, utilizaremos entrevista, sujeito-entrevistado e sujeito-entrevistador, em detrimento a inquérito, informante e inquiridor.
66 para uma segunda etapa, quando do tratamento quantitativo dos dados coletados, que visa revelar a frequência e distribuição de dado fenômeno linguístico numa determinada comunidade linguística. Essa etapa interpretativa, segundo Cardoso, S. A. (2010, p. 93), não é obrigatoriedade da dialetologia: “Sugerir caminhos é um compromisso da dialetologia que, todavia, não tem, do ponto de vista metodológico, a obrigatoriedade de oferecer uma posição categoricamente formulada de interpretação dos fenômenos considerados.”
Em síntese, I. P. dos Santos (2013, p. 2) sustenta que a geolinguística, como saber/fazer que se origina da dialetologia, “constitui-se no estudo da variação diatópica numa rede de pontos num determinado espaço, cujos resultados são apresentados sob a forma de cartogramas. A reunião dos cartogramas configura-se no atlas linguístico”.
Ainda que próxima da sociolinguística, a dialetologia dela se diferenciaria na forma de considerar os fenômenos, além de imprimir outra perspectiva à abordagem dos fatos linguísticos. Cardoso, S. A. (2010, p. 26) afirma que a dialetologia julga fatores sociais como elementos relevantes ao realizar a coleta e tratamento de dados. Todavia, a base de sua descrição é a localização espacial dos fatos considerados e é, portanto, eminentemente diatópica, enquanto a “sociolinguística, ainda que estabeleça a intercomparação entre dados diferenciados do ponto de vista espacial, centra-se na correlação entre os fatos linguísticos e os fatores sociais, priorizando, dessa forma, as relações sociolinguísticas”.
Acreditamos, contudo, que não há como desconsiderar fatores extralinguísticos e outras áreas do conhecimento em nossos estudos, uma vez que desejamos não apenas elaborar uma lista de palavras, mas propor um aprofundamento interpretativo com relação aos dados coletados. Os estudos fundadores de Wenker e Gilliéron já apontavam para a existência de espaços sociais e não apenas espaços físicos, demonstrando a influência crescente das ciências sociais na dialetologia. Quanto a essa inter-relação entre áreas diversas, Chambers e Trudgill (1994, pp. 81-82) assinalam:
Alguns dialetólogos começaram a reconhecer que se havia posto muita ênfase na dimensão espacial da variação linguística, excluindo-se, em consequência, a dimensão social. Gradativamente isto se impôs como um juízo para alguns estudiosos, uma vez que a variação social na língua é tão comum e importante quanto a variação espacial. Todos os dialetos são tanto espaciais quanto sociais, uma vez que todos os falantes têm não só um espaço social como uma localização espacial.
As conexões e relações existentes no mundo, portanto, incentivaram um maior contato entre disciplinas até então concebidas separadamente. Nesse ponto, retomamos o conceito de totalidade desenvolvido no início deste trabalho, a fim de justificar nossa escolha pelo termo sociogeolinguística em detrimento a geolinguística ou, apenas, dialetologia.
De modo introdutório, cumpre salientar que o termo surge já no século XXI, inicialmente empregado pelo Grupo de Pesquisa em Dialetologia e Geolinguística da Universidade de São Paulo – GPDG/USP, para designar os estudos geolinguísticos que considerem fatores “tanto geográficos quanto sociais para coleta, registro e análise de
67 dados linguísticos” (CRISTIANINI; ENCARNAÇÃO, 2008). A preocupação com as relações socioculturais que influenciam o comportamento geolinguístico dos sujeitos motiva a criação e utilização do termo.
Esclarecendo os trabalhos realizados pelo GPDG/USP, I. P. dos Santos (2013) assim pontua:
Na maioria dos trabalhos de geolinguística, consideram-se apenas os itens lexicais que constituem as respostas a uma dada questão. Por essa razão, são destacados e dispostos em listas de frequências, tabelas e gráficos. Por fim, servem como base para elaboração dos cartogramas, que constituem a base dos atlas linguísticos. O contexto ou a reprodução de diálogos ou mesmo observações do pesquisador, quando presentes, aparecem sob a forma de “notas” às cartas. Embora essas notas não estejam incorporadas aos cartogramas, têm merecido estudos posteriores. No
âmbito do [...] GPDG/USP, os pesquisadores têm recorrido aos elementos teórico- metodológicos da Análise do Discurso e da Semântica Interpretativa e têm-se dedicado ao estudo das respostas dos sujeitos-entrevistados. Seus trabalhos têm logrado mostrar que essas respostas revelam práticas discursivas que expressam os sentimentos, crenças e valores de uma dada sociedade situada num determinado espaço e numa época específica. (grifo nosso)
Diversamente da dialetologia mono e também pluridimensional,40 cujo princípio básico é a pluridimensionalidade da análise da variação linguística, combinando-se a dimensão diatópica a dimensões sociais, a sociogeolinguística ainda se preocupa com a interação existente entre sujeitos e procura atentar para a totalidade dos dados coletados de modo a ampliar as variáveis da pesquisa. Bakthin (2003) aborda o papel dos enunciados concretos que, por sua vez, efetivam-se nas relações intersubjetivas, justamente na interação. Assim sendo, cabe apontar que na interação há uma relação de conflito/cooperação que impede a um parceiro receber passivamente o que lhe é proposto; isto é, o Outro tem papel crucial na (re)construção do significado. O sujeito-entrevistado, portanto, não constitui o Outro que responde passivamente ao sujeito-entrevistador, pois enquanto membro de um grupo social localizado num dado espaço, ele reconstrói o significado proposto. Partindo do entendimento de que as unidades lexicais se inscrevem na instância do discurso, não é somente determinada unidade utilizada que é informada pelo sujeito-entrevistado.
De acordo com I. P. dos Santos (2009, p. 354),
[...] os dados linguísticos registrados nos estudos geolinguísticos e atlas linguísticos inscrevem-se nos discursos dessa comunidade, produzidos na interação entre sujeitos, em torno dos quais se organizam as referências de espaço e de tempo [...] Pelo fato de estar atravessado por sentimentos, crenças e valores dos sujeitos, os diferentes discursos expressam a ideologia de uma determinada comunidade. Os vários discursos, nos quais se inserem os dados linguísticos encontrados nos estudos geolinguísticos e atlas linguísticos, produzem sentidos que exprimem as transformações sócio-históricas de uma comunidade de modo explícito ou não.
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A Dialetologia pluridimensional, segundo Thun (2009, p. 549), “desenvolve, sob vários aspectos, as possibilidades já inerentes na Geolinguística monodimensional: prolonga o caminho observável da mudança linguística; transforma a superfície real da variação em espaço linguístico; sem excluir a língua comum ou padrão e o contato com outras línguas, estende o eixo do tempo na direção do mínimo e do máximo; e pode combinar dados linguísticos e dados demográficos”. Não há, portanto, a prerrogativa de se analisar as respostas dos sujeitos com base na análise do discurso ou na semântica interpretativa.
68 O discurso é produto da interação, e na instância discursiva cada falante ou escritor é reconhecido como sujeito, como um EU. Em virtude do caráter interacional da linguagem, este EU sempre se dirige a um Outro, ao TU, que tem uma atitude altamente “responsiva”: concorda ou discorda do EU total ou parcialmente, complementa-o. Conclui-se, então, conforme Benveniste (1988), que o TU é complementar ao EU: não há um sem o outro.
Enquanto membros de grupos sociais, os sujeitos relacionam-se a determinado tempo sócio-histórico e habitam um dado espaço, razão pela qual outros elementos devem ser considerados na atividade discursiva em sociogeolinguística. Sua inclusão em certo grupo é notada através de um discurso que revela sentimentos, crenças e valores que podem não ser exclusivamente seus, mas deste grupo social (e de um momento sócio- histórico) a que pertence. Além destas características, os sujeitos se situam em relação a um espaço que contempla, na perspectiva discursiva, a presença efetiva de sujeitos que externam particularidades e revelam as transformações por que passa a sociedade (cf. SANTOS, I. P. dos, 2013).
Com o objetivo de conhecer mais especificamente as variações linguísticas, os estudos em sociogeolinguística visam uma aproximação com os integrantes dos variados grupos sociais para, com eles, estabelecer um diálogo, uma interação, “ou apenas compreender melhor a causa dessas diferenças, resultantes de operações de forças sociais, envolvendo grupos étnicos, religiosos, educacionais, econômicos e outros” (CRISTIANINI; ENCARNAÇÃO, 2008). Para além do trabalho geolinguístico, portanto, vislumbra-se a fala de sujeitos integrantes de determinados grupos sociais e históricos.
Durante a interação face a face, realizada no momento da aplicação do questionário geolinguístico, afloram elementos do contexto sócio-histórico. Ao lado da variação diatópica, a entrevista desvela elementos da relação intersubjetiva, razão pela qual se pode concluir, seguindo os ensinamentos de Santos e Cristianinni (2012), que a pesquisa sociogeolinguística não se encerra nos cartogramas (produto final da pesquisa geolinguística), pois está baseada na atividade discursiva partilhada por sujeitos em interlocução: as unidades lexicais que integram os atlas são parte constitutiva da atividade linguística produtora de sentidos, em relação a dado tempo histórico e a uma comunidade linguística, constituída de grupos sociais e localizada num determinado espaço.
Nesse sentido, ainda que Wenker tenha realizado um estudo pioneiro ao de Gilliéron, é preciso ressaltar a importância do procedimento adotado por este último no momento da coleta de dados. Enquanto Wenker realizou toda sua pesquisa à distância, por correspondência, Gilliéron, com a ajuda crucial de Edmond Edmont, priorizou a interação face a face. Não obstante tenha negligenciado as “notas” às entrevistas, hoje de suma importância para estudos sociogeolinguísticos, pôde cimentar a pedra fundamental dessa disciplina que nos parece se adequar a um pensamento sistêmico de mundo, de acordo com
69 o que propõe Edgar Morin (2000) ao defender uma abordagem em que o homem não deve ser compreendido isoladamente, sendo fundamental atentar também para seu contexto e as relações nele estabelecidas. A união das partes, a soma das partes, para Morin (2000), não resulta necessariamente no todo. Para que se tenha uma visão do todo, é preciso compreender as partes, pois todos os elementos influenciam e são influenciados reciprocamente. Com Morin, reiteramos a ideia de totalidade traçada no início do trabalho e somos favoráveis a uma análise que tenha em conta a abstração das partes, mas também se preocupe com a concretude do todo (cf. NETTO, 2011), o que entendemos ser um dos méritos da sociogeolinguística: somar ao estudo diatópico as contribuições da sociolinguística e o tratamento da variação, além de elementos da análise do discurso e da semântica interpretativa. Afinal, buscamos investigar grupos que estão inseridos em cinco localidades/pontos distintos, mas que, essencialmente, fazem parte de uma mesma manifestação cultural.