Dos sete grupos que, em 2008, Gustavo Mello e Luiz Ferraz retrataram no documentário Samba de Quadra (2008), apenas o Filhos de Quadra, localizado no bairro de Estância, sobrevive. O chefe do grupo, João de Ditão, é quem mantém viva a tradição aprendida com seu pai, Benedito de Andrade, o Nhô Ditão: “Ele não tinha companheiro, mas
52 cantava de noite lá em casa. Batia num caixão e cantava de noite os versos dele. [...] Depois ele parou e eu comecei [...] aí assumimos o lugar” (SAMBA DE QUADRA, 2008). Com a morte do pai, a turma mais nova levou o samba adiante, mas já um samba “diferente do antigo” ou “original” de Guareí e do bairro da Vileta. Mello (s.d.) retrata a possível origem do samba caipira:
Muita gente vai dizer que o samba caipira da região nasceu no que hoje é a cidade de Guareí e no bairro da Vileta, também em Guareí. Há sambeiro que discorde e quem vai discutir? Mas uma figura pode ajudar a compreender melhor essa história. Trata-se do folclórico Mandu, o mais antigo sambador que se tem registro. Mandu é descrito como um "baiano violento" (matou dois ao longo da vida), falecido com 85 anos, no final da década de 50. Isso mostra que ele deve ter nascido em meados de 1870. Ou seja, é bem possível que Mandu tenha descido da Bahia em direção a São Paulo em busca de emprego nas lavouras de café. E como bom baiano trouxe a cultura do samba de roda. Mas deve ter desistido do café, porque em Guareí ficou trabalhando como cerqueiro mesmo.
Para João de Ditão, o samba tem filiação indígena,28 originário dos batuques de caixa para comemorar vitórias contra inimigos. De qualquer maneira, os sambeiros, mesmo que de bairros distintos, parecem concordar que “o samba veio do mato” (SAMBA DE QUADRA, 2008).
O grupo Filhos de Quadra hoje é composto por quatro integrantes: Chico, Zé Carlos, Preto e João de Ditão, todos brancos. É João quem compõe os sambas, a corrimaça de versos, que chegam a ter até dez minutos. Como aspecto peculiar, destaca-se a coreografia do samba caipira, bailado em par enlaçado, como moda de viola. Após uma apresentação do grupo em Pirapora do Bom Jesus, João do Pasto, figura simbólica do samba piraporano, ressaltou que o samba de Quadra se assemelhava à congada (informação verbal),29 evidenciando que o grupo possui influências ainda bastante presentes do universo caipira. Além do bumbo, juntam-se o reco-reco, o pandeiro e o sambão, espécie de pandeiro enorme feito de couro de veado, sem platinela. O bumbo (ou caixa/caixona, como preferem chamar) e o sambão foram confeccionados por Nhô Ditão, pai de João, já possuindo mais de 50 anos de existência (informação verbal).30
28
Interessante notar que João do Pasto, do Samba de Roda de Pirapora do Bom Jesus, remete aos escravos mas também aos índios o surgimento do samba em sua cidade: “Lembro, ô. Derrubaro primeiro. Pedra. Só́ pedra. Eu num sei come... e quem fez os barracão foi os escravo, os bugre, como falam. Esse Samba começô aqui que diz. Aqui em Pirapora foi achado o Bom Jesus no rio. Que eu sei assim. Acharo o Bom Jesus e foi feito uma capelinha pro Bom Jesus. Não uma igreja. Uma capelinha. Então, os índio, aqui pra dentro de Parnaíba... que tinha uma tribo de índio que morava aí pra dentro de Parnaíba, onde é o Cururuquara, onde ‘tá a igrejinha lá, aí já moravam. O índio era encampado. Souberam que o Bom Jesus... que era um Cristo que ‘tava aqui, que era um Jesus que ‘tava aqui, então, procuraro vim. Fazia o Samba, tocá aqui. Vinha arrodiá o santo, porque achava... sabia pela boca do povo que era o Cristo que tinha aparecido aqui em Pirapora. Como de fato o Bom Jesus ‘tá aí. Começo dois índio a vim com os instrumentinho deles, batê. Daí que começô o Samba. Daí que começaro bolá negócio dos instrumento, que formô o Samba. O Samba de muitos lugar foi formado por isso. Tem o repentista. Essas coisa que vinham cantá também, né? Mas, o que eu sei foi uns índio, uns bugre que vinha arrodiá o Bom Jesus que começo esses tipo de dança aqui, do Samba, né? O Samba daqui. Por isso que o Samba veio da raiz. O Samba de Pirapora. Que o nosso Samba nasceu aqui em Pirapora por causa disso daí. Esse povo... tinha a toca da bugra. Inda tem as casinha. Inda há pouco morava bugre ali. Morô bugre. Então, tinha nome a toca da bugra. Agora fizero um bocado de apedreio. Umas casinha na frente, né? Tem o nome ali. Era mataria. Isso eu conheci. Fiquei conhecendo onde ‘tá a toca.” (MANZATTI, 2005, p. 198, grifo nosso)
29
Informação fornecida por João do Pasto em Pirapora do Bom Jesus, em 2014. 30
53 As peças cantadas normalmente são bastante longas, com histórias e acontecimentos narrados por João. Assemelham-se ao cururu e diferenciam-se das quadras ou dísticos usualmente cantados pelos outros grupos. O compositor apresenta um verso e, logo depois, todos repetem o mesmo verso, que é cantado, portanto, duas vezes. Assim, todos os versos são repetidos ao menos uma vez. Seguem alguns exemplos das modas de samba caipira apresentadas pelo Filhos de Quadra:
Lá no sertão é muito bom pra ocê viver
A terra que traz pra mim os cereais e fruta pra mim comer Lá no meu rancho ainda usa a tradição
No meu rancho venha, no meu fogão de lenha, arroz socado no pilão De madrugada eu faço um virado de feijão
Pra encaixa o virado tá dependurado o torresmo em cima do fogão (SAMBA DE QUADRA, 2008)
Venho vindo de tão longe, cansado de caminhar
Eu chego na sua presença e quero tua licença pra mim começá a cantar Venho vindo de tão longe eu cheguei aqui agora
Cantando os verso que eu faço quero trazer um abraço pro povo de Pirapora Esse é o meu samba caipira que nasceu lá no sertão
Gravei o samba em DVD não quero deixar morrer nossa velha tradição Eu nasci lá no sertão, é no sertão véio que eu moro
‘Tão destruindo meu sertão, dá uma dor no coração, desde tempo eu ando e choro O sertão tá se acabando por causa da evolução
Foi quando a evolução chegou, evolução veio e levou a beleza do sertão Essa tal de evolução o meu coração feriu
Lá em casa os inseticida ( ) matou os peixe do rio (informação verbal)31