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A primeira fase do trabalho contemplou, como ressaltamos anteriormente, o levantamento bibliográfico, apresentada nos capítulos iniciais. Na sequência desta primeira etapa, planejamos de que forma responderíamos às perguntas propostas.

242Estas íntegras de áudio estão disponíveis em links privados para apreciação dos integrantes da banca de defesa desta

Optamos por utilizar ferramentas associadas à etnografia conforme conceituado por Travancas (2009) a respeito da observação das sociedades, considerando o ―deslocamento que o pesquisador tem que fazer dentro da sua própria sociedade, procurando olhá-la com outros olhos, com olhos de um estrangeiro em busca de significados‖ (2009, p. 100).

Etnografia significa literalmente a descrição de um povo. É importante entender que a etnografia lida com gente no sentido coletivo da palavra, e não com indivíduos. Assim sendo, é uma maneira de estudar pessoas em grupos organizados, duradouros, que podem ser chamados de comunidades ou sociedades. O modo de vida peculiar que caracteriza um grupo é entendido como a sua cultura. Estudar a cultura envolve um exame dos comportamentos, costumes e crenças aprendidos e compartilhados do grupo. (ANGROSINO, 2009, p. 16)

Travancas utiliza o repertório de Robert Park (1990) para justificar a forma como a antropologia passou a mergulhar na cultura do outro sem, necessariamente, esta cultura ser exótica, distante ou primitiva, como fizeram os pioneiros da técnica. Para Park, sociólogo e jornalista que posteriormente se dedicou à vida acadêmica, a cidades são também um laboratório social. Nesta mesma trajetória pessoal e teórica empreendida por Travancas, jornalista que pesquisou seus colegas de profissão em um trabalho etnográfico pioneiro no campo da Comunicação243, o trabalho de campo é realizado de outra forma e exige do pesquisador diferentes atributos.

Não será mais preciso viajar longas distâncias para se aproximar dos ―nativos‖, não será necessário aprender uma nova língua para se comunicar com estes ―nativos‖. Muitos significados da vida cotidiana, de rituais e de sistemas de parentesco o pesquisador partilhará com seus informantes. Mas a ―viagem‖ será outra. (TRAVANCAS, 2009, p. 99)

Desta forma, já que ―o papel do investigador é se distanciar para poder refletir sobre o significado do que é dito e visto‖ (TRAVANCAS, 2009, p. 105), optamos como ―viagem‖ – para utilizar a expressão da pesquisadora – encontrar espectadores que consomem seriados de TV por meio de maratonas para observar este grupo e registrar seu comportamento neste aspecto. Assim, a etapa seguinte consistiu na entrada no campo, considerada a inserção do pesquisador no grupo, tendo como diretriz realizar ―(...) um registro descritivo de tudo o que ele vir e presenciar‖, como aponta Travancas (2009, p. 101).

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Observamos, assim, fatores como o local ou os locais onde os entrevistados costumam assistir a seriados e fazer maratonas, quais equipamentos utilizam, suas coleções de VHS, DVDs ou pastas de downloads no computador, o catálogo de títulos já assistidos no Netflix em diferentes perfis na conta dos assinantes (ou de pessoas que usam senhas compartilhadas), a divisão de lugares ocupados no ambiente por cada morador da família e as maneiras como cada consumidor se porta quando está imerso nestas práticas de entretenimento.

Durante a entrevista semi-estruturada que serviu de base para a abordagem pretendida, optamos pelo formato semiaberto devido às particularidades do tema, isto é, um fenômeno contemporâneo e em construção. Evitamos uma aplicação muito burocrática do guia da entrevista composto por 45 perguntas iniciais para (como exposto em bibliografia pelos pesquisadores da área) ―não restringir os benefícios da abertura e das informações contextuais pelo excesso de rigidez do entrevistador ao fixar-se nesse guia‖ (FLICK, 2004, p. 106). Assim, levamos para os encontros a ideia de que questões mais ou menos abertas poderiam ser livremente perguntas e respondidas pelo entrevistado caso houvesse necessidade ou propósito.

O ponto de partida do método é a suposição de que os inputs que caracterizam entrevistas ou questionários padronizados, e que restringem o momento, a sequência ou o modo de lidar com os tópicos, obscurecem, ao invés de esclarecer, o ponto de vista do sujeito. (...) Assim, o entrevistador pode e deve decidir, durante a entrevista, quando tiver sido respondida en passant e puder ser omitida, isso somente poderá ser decidido ad hoc. (FLICK, 2004, p. 106)

Flick destaca ainda que o termo ―entrevista parcialmente padronizada‖ pode ser utilizado com referência à escolha na conduta efetiva da entrevista, ou seja, ―a escolha entre tentar mencionar certos tópicos apresentados no guia da entrevista estando, ao mesmo tempo, aberto ao modo individual do entrevistado de falar sobre esses tópicos e outros de relevância para ele‖ (2004, p. 106), postura esta que adotamos com os oito participantes. Novas questões, portanto, surgiam no decorrer dos encontros, como é previsto neste perfil de pesquisa qualitativa não fechada. Para obter a mesma resposta de outros entrevistados, posteriores contatos nem sempre presenciais foram realizados a fim de igualar as informações recebidas de cada um.

A entrevista etnográfica é, portanto, de natureza aberta – flui interativamente na conversa e acomoda digressões que podem bem abrir rotas de investigação novas, inicialmente não aventadas pelo pesquisador. Neste sentido é um tipo de parceria em que o membro bem informado da comunidade ajuda o

pesquisador a ir formulando as questões enquanto a entrevista se desenrola. (ANGROSINO, 2009, p. 62)

Ao longo da realização das entrevistas, inclusive, determinadas respostas suscitaram outros suportes teóricos e novos autores a respeito de fatores relativos ao consumo e ao comportamento deste grupo em relação ao tema central, posteriormente somados aos capítulos iniciais. Na sequência, apresentamos um panorama geral dos maratonistas consultados inicialmente e depois prosseguimos com o detalhamento das entrevistas realizadas.