4.7. Araştırmanın Uygulaması
4.7.2. Kullanılan Ölçeklere İlişkin Açıklayıcı Faktör Analizi
4.7.2.1. Sanal Tembellik Ölçeğinin Açıklayıcı Faktör Analizi
Os extratos dos diários apresentados abaixo ilustram que o gênero fílmico documentário é novo para muitos alunos das Licenciaturas. Nos encontros das duas turmas, no dia em que exibimos Lixo Extraordinário, antes de iniciar, fizemos comentários a respeito do gênero documentário e questionamos se eles tinham ouvido falar do filme. Nenhum aluno mencionou nem mesmo ter ouvido falar. Interessa lembrar que esse filme foi indicado ao Oscar de melhor documentário em 2010. Em decorrência disso, por ser uma coprodução brasileira, houve na mídia muita informação sobre o filme. Se considerarmos as especificidades dos nossos alunos, talvez os relatos ganhem mais sentido, visto que é muito raro as salas de cinema dos shoppings da região exibirem documentários de qualquer natureza. Há só uma locadora de DVDs na cidade que costuma oferecer filmes fora do circuito blockbuster. Contudo, precisamos refletir sobre o papel do espaço educativo diante dessas respostas. Esses estudantes frequentam a escola há anos. Alguns dos participantes estavam nos meses finais da graduação, todavia afirmaram desconhecer o gênero. Para nós, isso significa que os cursos de formação para docência ─ e também as políticas públicas, no caso do tempo destinado à formação de um professor no Brasil ─ precisam repensar com urgência seus currículos e conteúdos em virtude de que parece ser a graduação, uma importante oportunidade para esses alunos ampliarem seu capital cultural. Vejamos:
S39
―[...]Eu não me lembro de ter assistido algum documentário, se assisti não me marcou tanto quanto este.”
S44
“Eu adorei o filme, nunca imaginei que um documentário pudesse ser tão interessante, antes eu tinha a ideia que documentário era um pouco chato.”
S42
―[...]Nunca assisti outros documentários e nunca me interessei por filmes nacionais[...].‖
―[...]Foi a primeira vez que eu assisti um documentário, não assisti antes porque não me interessava, tinha uma ideia totalmente diferente do que é um documentário.[...]‖
S49
―[...] Não me recordo de ter assistido a um documentário antes, mas em ver este já valeu a pena.”
S40
O filme Lixo Extraordinário sem dúvida é um belíssimo documentário. Eu não costumo assistir esse tipo de filme, pois sempre achei um pouco cansativo e não atrativo.Porém, me surpreendi ao longo do filme, afinal, quando percebi, eu estava extremamente envolvida. [...]
Os enunciados acima foram bem diretivos, ou seja, respondem à indagação que fizemos para o roteiro de elaboração do diário: Você já havia assistido algum documentário antes? Qual? Ora os alunos se mostram menos engajados em suas afirmativas ─ S39, S44, ora mais─ S42. Podemos perceber esse engajamento observando os tempos verbais. Por exemplo, em S42, o uso do tempo presente denuncia um comprometimento (KOCH, 2007) com o que se enuncia: ―Nunca assisti outros documentários e nunca me interessei por filmes nacionais‖. Já os demais enunciados usam tempos verbais que lhes conferem menos força, ou seja, não há um comprometimento tão forte com o que dizem. Ficam mais no plano do relato, da constatação: ―não me lembro de ter assistido algum documentário, se assisti...” ou ―Foi a primeira vez que eu assisti um documentário, não assisti antes porque não me interessava, tinha uma ideia totalmente diferente do que é um documentário”.
Além desse aspecto, podemos destacar outro que acreditamos ser pertinente. O predomínio das orações negativas acaba por denotar sempre um enunciado afirmativo; isto é, a negação é um índice de polifonia, no dizer de Ducrot, aqui retomado por Koch (2003). Ou seja, ao dizerem que não se lembram de ter assistido a um documentário ou que não assistiram antes porque não se sentiram motivados, ou porque não sabiam que era interessante, os alunos estão justificando a ―voz‖ que afirma que esse tipo de filme pode, sim, ser interessante, ou a ―voz‖ que assevera que, embora o sujeito não se lembre, ―ele pode até já ter visto um documentário‖. Em S49 também temos outro índice de polifonia evidente no uso do operador argumentativo mas (KOCK, 2003). Ao dizer, ―Não me recordo de ter assistido a um documentário antes, mas em ver este já valeu a pena”, o autor fornece legitimidade à ―voz‖
que declara que pode ser que ele tenha visto já um documentário. De qualquer forma, o argumento decisivo é o introduzido pelo ―mas‖, o qual certifica que ― o fato de ter assistido a este documentário‖ supriria o desconhecimento de outros.
Em síntese, os índices de polifonia o maior ou menor engajamento nas assertivas parecem nos revelar que os autores dos relatos estão tentando se justificar, de certa forma, por terem de dizer o que estão dizendo, ou seja, por desconhecerem o gênero de filme em questão. Além disso, talvez esteja subjacente a esses relatos uma necessidade de afirmar que eles têm um repertório fílmico. Assim, é como se, nas entrelinha, dissessem: ―assistimos a outros filmes que podem não ser legitimados pelo meio acadêmico, porém, são os que nós escolhemos‖. Logo, para pensar um processo formativo com o cinema na docência, julgamos importante considerar o que Guedes-Pinto (2002, p.248) discute sobre a prática de leitura de professoras alfabetizadoras: ―[...] a promoção, dentro do espaço institucional da universidade, de um processo de legitimação das distintas práticas de leitura que permeiam a experiência das professoras pode ser uma maneira de criar um espaço fértil para a elaboração de outros gostos e ampliação das práticas‖. É necessário, portanto, partir de uma ―postura de troca, de respeito à pluralidade de leituras, de não categorizar e hierarquizar as práticas‖. (GUEDES- PINTO, 2002, p.248).
Consideramos também importante o que defende Santos (2010, p.54), quando alude ao pensamento pós-abissal que ―[...] tem como premissa a ideia da diversidade epistemológica do mundo, o reconhecimento da existência de uma pluralidade de formas de conhecimento além do conhecimento científico‖. Trazendo essa citação, queremos justificar a necessidade de o espaço educativo rever que há muitas formas de conhecimento além daquelas que lhes cabe ensinar aos alunos. A contemporaneidade pede essa revisão. Dessa forma, a escola também estaria tentando minimizar ―a injustiça cognitiva global‖, e, por conseguinte, a injustiça social (SANTOS, 2010).