• Sonuç bulunamadı

4.7. Araştırmanın Uygulaması

4.7.6. Kanonik Korelasyon Sonuçları

Após as análises dos dados, chegamos a duas constatações. A partir dos relatos, escritos e orais, observamos que os comentários praticamente só se referem ao conteúdo das narrativas, à história ou à fábula, e não à trama, ao modo como a narrativa é organizada. Como nos explica Xavier:

[...] diante de qualquer discurso narrativo, posso falar em fábula, querendo me referir a uma certa história contada, a certas personagens, a uma seqüência de acontecimentos que se sucederam num determinado lugar (ou lugares) num intervalo de tempo que pode ser maior ou menor; e posso falar em trama para me referir ao modo como tal história e tais personagens aparecem para mim (leitor espectador) por meio do texto, do filme, da peça. Uma única história pode ser construída por meio de inúmeras tramas, com formas distintas de dispor os dados, de organizar o tempo (XAVIER, 2003, p.65, grifo do autor).

Desse modo, o autor explica que o discurso narrativo possibilita uma descrição do ―mundo narrado‖ ou de comentários sobre o ato de narrar ―[...] sem que seja necessário considerar as particularidades de cada meio material‖ (XAVIER 2003, p.54), ou seja, se é filme, novela, texto impresso, etc. Assim, quando relatamos uma história e mencionamos as personagens e os acontecimentos ─ em determinado tempo e lugar ─, estamos no nível da ―fábula‖. Porém, se a intenção for expor como a história foi contada, isto é, como os acontecimentos e personagens aparecem para nós, estaremos no plano da ―trama‖. Isso ocorre, seja no filme, seja no texto, seja na peça teatral. Logo, uma única fábula ―[...] pode ser construída por meio de inúmeras tramas, com formas distintas de dispor os dados, de organizar o tempo‖. A trama permite a dedução da fábula. (XAVIER, 2003, p.65).

Após a exibição de 5XFavela – Agora Por Nós Mesmos, pedimos que os alunos indicassem em seus diários, dentre os cinco curtas que compõem o filme, aquele de que haviam gostado mais, e que escrevessem sobre ele. Além disso, solicitamos também que indicassem se a narrativa escolhida seguia uma estrutura linear ou clássica ─ começo, meio e fim. Os discentes manifestaram preferência por Fonte de Renda e Arroz com Feijão. Percebemos, nas exposições escritas, que essas preferências parecem ocorrer em virtude de um processo de projeção/identificação (MORIN, 1983) com as fábulas dos curtas, ou seja, com as histórias em si. O primeiro episódio, Fonte de Renda, é sobre as dificuldades de um jovem morador de uma favela do Rio de Janeiro que vai estudar Direito junto com colegas de classe média e alta. Em nosso dia a dia, na relação professor-aluno, sabemos das muitas dificuldades enfrentadas pelo público-alvo pesquisado para cursar a faculdade. O segundo curta, Arroz com Feijão, gira em torno dos apuros dos protagonistas, dois meninos, para comprar um frango a fim de comemorar o aniversário do pai de um deles. Em geral, os estudantes do curso de Pedagogia gostam de narrativas que envolvam crianças. Assim, no

processo de contar as histórias escolhidas, os alunos ficam no plano da fábula, ou seja, da história ou do ―mundo narrado‖. Não fazem, em geral, menção à construção da trama.

Notamos também que, quando a narrativa não segue um padrão clássico ─ em torno de um tema central, em linha ascendente de começo, meio e fim ─, ou, ainda que o faça, mas haja algum elemento divergente ─ ir e vir no tempo cronológico, saltos no tempo, paralelismos na evolução da história ─, os alunos têm mais dificuldades de apreensão. Uma apreciação mais acurada de qualquer forma de arte passa pelo conhecimento da linguagem que a constitui. Isso significa que entender nuances do discurso narrativo e aspectos técnico- estéticos da linguagem cinematográfica pode contribuir para uma fruição mais completa de um filme e tornar esse ato uma experiência cultural mais rica. Assim, entendemos que o trabalho escolar com filmes pode e deve considerar os diferentes ângulos de abordagem, conforme observa Napolitano (2009).

Durante a exibição do primeiro episódio, Fonte de Renda, percebendo que os discentes ficaram tensos em relação ao desfecho da narrativa, perguntamos, se eles haviam atentado para as cenas iniciais, que já mostravam a formatura do protagonista, ou seja, que adiantavam o provável final, ainda que pusessem ser interpretadas de outra maneira. A maioria não havia notado, e os relatos confirmam isso, porque não há menção a elas. Concerto para Violino também foi citado nos relatos dos sujeitos de pesquisa, mas não de forma positiva. O curta foi considerado confuso, visto que o desenvolvimento da trama, embora tenha uma progressão temática linear, apresenta algumas elipses temporais e flashbacks. Além disso, a temática também não foi apreciada, porque aborda a questão da violência nas favelas. Um dos curtas do filme Crianças Invisíveis, ―Jonathan‖ de Jordan Scott e Ridley Scott, que foge a uma construção narrativa mais clássica, mais legível a um primeiro olhar, também foi citado como de difícil compreensão. O curta Ilha das Flores, cuja organização narrativa também é muito peculiar e nada convencional, exibido para a primeira turma em 2011, também não foi bem recebido, em um primeiro momento. Depois do debate e da retomada de partes do filme, os alunos o aceitaram melhor, mas pontuaram em seus diários que não haviam gostado do filme. Na semana seguinte, quando exibimos Lixo Extraordinário, os comentários foram de que ―naquele sábado o filme exibido tinha sido válido”.

Do que foi exposto, importa destacar que filmes cuja trama fuja à construção clássica, acabam por ser percebidos como de difícil apreensão pelo público-alvo pesquisado, o o que pode levar à repulsa pela narrativa. Daí a necessidade desse convívio com diferentes modos de narrar do cinema, para a formação do leitor multissemiótico ─ principalmente se ele cursa

uma licenciatura ─, ou seja, aquele que entende o que lê e que é capaz de ressignificar essa leitura, mimeticamente, em outras composições.