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“O direito positivo na concepção dos povos indígenas é como um rio seco, sem vida, sem importância, que não foi construído a partir da necessidade da comunidade, e que não nasceu para regulamentar o dia-a-dia: ele não parece ter sido construído para disciplinar relações de parentesco ou dar equilíbrio para o convívio social.”

(ALMIRES MARTINS MACHADO – Liderança Guarani/Terena da Aldeia Jaguapirú/Missão Kaiowá126)

A descoberta do Mundus Novus trouxe à tona inúmeras questões jurídicas,

dentre estas, a colisão entre o sistema jurídico do colonizador e os sistemas

indígenas.

Conforme exposto anteriormente, os povos indígenas já possuíam – e ainda

possuem – sistemas jurídicos consuetudinários próprios. Doutro norte, os

colonizadores trouxeram consigo o ideal jurídico europeu, que nem de longe se

assemelhava ao do indígena – grifem-se as palavras do líder indígena A

LMIRES

M

ARTINS

M

ACHADO

, lançadas em epígrafe neste item, que deflagram sensível

tensão.

As diferenças entre os sistemas indígenas e os dos colonizadores se afere da

perfunctória descrição dos sistemas jurídicos indígenas retro apresentada,

destacando-se o caráter consuetudinário e coletivista dos sistemas indígenas,

antagônico ao caráter privado, individualista, dos sistemas positivistas europeus.

127

Nesse contexto, além de outras inexauríveis consequências de ordem

jurídica, a chegada do colonizador acarretou uma divisão/colisão de sistemas,

levando à discussão – diga-se ainda persistente – do reconhecimento e da

legitimidade das normas.

       

126Direito indígena: conquista dos povos indígenas. In: Seminário Formação Jurídica e Povos Indígenas. Desafios para uma educação superior. Belém: LACED, 2007, p. 1.

127 Veja-se a propósito a lição de Thais Luzia Colaço: “O direito indígena não estava de acordo

com os padrões do direito europeu, por não possuir ‘instituições’ tais como são definidas nos sistemas romanistas ou do common law, por exemplo, a noção de justiça, de regra de direito (rule of law), de lei imperativa de responsabilidade individual.” Op. cit., p. 114.

A essa problemática pretende a teoria monista do direito dar resposta, já que

prima pelo monopólio estatal do direito, refutando a existência de sistemas jurídicos

diversos no mesmo território.

Enraizado na tese monopolizadora, defendida pelos monistas, está o

positivismo legal, ou melhor, a primazia da lei escrita sobre o costume. Com efeito, a

teoria monista fomenta o não reconhecimento do direito indígena.

Foi essa a opção adotada pelo colonizador das Américas, consoante teoriza

V

ICENTE

C

ABEDO

M

ALLOL

:

“A estratégia, na América Latina, do direito hegemônico (positivo, estatal) – de seus operadores – frente ao direito indígena durante séculos tem sido de negar dita natureza jurídica e normatividade indígena, constituindo um claro exemplo de intolerância.”128

Dessa postura refratária não se afastou o direito pátrio, conforme se deflui

da lição de C

ARLOS

F

REDERICO

M

ARÉS

S

OUZA

F

ILHO

, a qual declara que

“os poucos juristas que tratam da História do Direito brasileiro fazem referências ao direito pré-colombiano, como se as Nações indígenas tivessem existido até o advento do Estado Brasileiro. Esta interpretação etnocêntrica pressupõe unicidade do Direito Estatal de tal forma que só admitem direitos das sociedades indígenas enquanto não houve Estado, português ou brasileiro, que providenciasse um Direito único e de fonte exclusiva ou, pelo menos prioritária, a Lei.”129

Por vários fatores, não merece guarida a tese monista. A negação dos

sistemas indígenas sustenta-se no etnocentrismo (eurocentrismo), pois, conforme

sustenta V

ICENTE

C

ABEDO

M

ALLOL

, a visão monista de menosprezo aos costumes

(contra legem para os positivistas) e aos valores indígenas está associada à

subvalorização do indígena, que de longa data são tratados como “selvagens” e

“atrasados.”

130

Igualmente, assim ratifica A

NA

V

ALÉRIA DE

A

RAÚJO

:

“Trata-se de uma interpretação etnocêntrica do Direito, que não admite que um conjunto de regras diferenciadas que organizam uma sociedade distinta possa ser catado como Direito, convivendo lado a lado com o Direito estatal [...]. Na verdade, os sistemas jurídicos indígenas são

       

128

De la intolerancia al reconocimiento del derecho indígena. In: Política e Cultura, México, n. 21, 2004, p. 74.

129 Índios e direito: O jogo duro do Estado. In: Seqüência Estudos Jurídicos e Políticos,

Florianópolis, n. 17, dez. 1988, p. 53.

130

vistos como mera fonte secundária do Direito, concepção carregada de preconceito.”131

Entende-se que a pluralidade jurídica, como pressuposto de legitimidade do

direito, bem como o direito à diferença e à identidade cultural implicam o dever de

respeito aos sistemas jurídicos indígenas.

Pertinentes as precisas palavras de J

OSÉ

E

DUARDO

A

SCENSÃO

: “Qualquer

que seja a atitude perante os direitos tradicionais, e mesmo que seja de hostilidade, os

novos Estados não podem prescindir do conhecimento destes direitos como

pressupostos de qualquer política que visem empreender.”

132

Tal ressalva coaduna com os postulados de B

RONISLAW

M

ALINOWSKI

que,

referindo-se à lei-primitiva, assevera:

“O conhecimento dessas forças deveria ter sido a base das teorias antropológicas da organização primitiva e deveria ter fornecido os princípios orientadores da legislação e da administração colonial. Um melhor conhecimento dos chamados selvagens teria revelado que os ‘desejos animalescos do pagão’ eram produto de uma lei firme e de uma tradição rigorosa, exigidas pelas necessidades biológicas, mentais e sociais da natureza humana mais do que pela emoção desenfreada ou por excessos irrestritos.”133

A solução para o conflito está no diálogo, na busca pela convivência

pacífica de ambos os sistemas, conforme declara J

ORGE

A

LBERTO

G

ONZÁLEZ

G

ALVÁN

: “A convivência dos direitos humanos de caráter individualista, da tradição

jurídica européia continental, e os direitos humanos de natureza coletivista, da

tradição jurídica indígena americana, dará lugar a uma tradição jurídica diferente.

Esta terá que estar fundada numa filosofia do direito completa: donde cada uma das

tradições conserva sua originalidade, colabora em suas complementaridades e

respeita suas contradições.”

134