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Bektaşiliğin Yeniçeriler Arasında Etkin Hale Gelmesi

Kibar BAL*

2. Bektaşiliğin Yeniçeriler Arasında Etkin Hale Gelmesi

“O sentimento de pertinência a uma comunidade indígena é que identifica o índio. A dizer, é índio quem se sente índio.”

(JOSÉ AFONSO DA SILVA91)

       

87 Introdução axiológica ao direito: apêndice à introdução à ciência do direito. Rio de Janeiro:

Forense, 1977, p. 164.

88 Lições preliminares de direito. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 1993, p. 285. 89 Lições... cit., p. 287.

90 Veja-se que mesmo com a supressão do termo silvícola pela Constituição Federal de 1988,

alguns Tribunais, ao tratarem de questões indígenas, mantêm a utilização desse termo pejorativo. É o que se vê, por exemplo, no seguinte julgado: “Apelação crime - furto tentado - delito cometido por silvícola - Competência da justiça estadual.” Tribunal de Justiça do Paraná, 3ª C. Criminal, AC n. 0329435-1, Rel. Des. Mendes Silva, j. 10.08.2006.

91

Preliminarmente, é oportuno relembrar que a Constituição

92

é a norma

fundamental de um Estado, “a norma das normas”, “a lei das leis”, ocupando o topo

hierárquico da estrutura escalonada das normas, como norma suprema.

Aceitando, sem digressões mais verticais, por exemplo, acerca da “Regra de

Reconhecimento” deH

ART

, a teoria de H

ANS

K

ELSEN93

, tem-se que a Constituição é

o fundamento de validade das demais normas do ordenamento

94

.

Disso decorre que as normas hierarquicamente inferiores que contradizerem

os mandamentos constitucionais tornam-se carentes de validade, ou melhor, são

inconstitucionais, não devendo produzir efeitos.

Posta a questão nesses termos, a investigação do conceito jurídico de índio

(indígenas) deve partir da Constituição, para, posteriormente, ingressar-se no plano

ordinário.

Pois bem, em louvável opção constituinte, a Constituição Federal de 1988,

atualmente vigente, rompendo paradigmas, fez inúmeras referências (disposições)

aos povos indígenas. Não há na Constituição, contudo, qualquer tentativa, ou

meandro preciso, destinado à definição de índio, o que não deve ser concebido como

demérito ao trabalho do constituinte, pois, dele não se deveria esperar a descrição

minuciosa de tudo o que foi albergado pela Constituição. Lembremo-nos de que é

característica das constituições contemporâneas o uso de conceitos abertos e de

normas de princípio.

Ademais, exigir a definição precisa de tudo seria atribuir ao constituinte

uma tarefa por demais onerosa. Por exemplo, se for exigido um conceito para

“índio”, seriam necessárias definições para outros termos, como “pessoa portadora

de deficiência”, “quilombolas”, “contribuinte”.

       

92 José Afonso da Silva assim conceitua “Constituição”: “Um sistema de normas jurídicas, escritas

ou costumeiras, que regula a forma do Estado, a forma de seu governo, o modo de aquisição e o exercício do poder, o estabelecimento de seus órgãos, os limites de sua ação, os direitos fundamentais do homem e as respectivas garantias.”Ibidem, p. 40.

93 Teoria geral das normas. Trad. José Florentino Duarte. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris

Editor, 1986, p. 323 e ss.

94 Embora tecnicamente se diferenciem, usaremos, neste trabalho, como sinônimos “sistema” e

“ordenamento”, afinal, como ensina Norberto Bobbio: “Na linguagem jurídica corrente é comum o uso do termo ‘sistema’ para indicar o ordenamento jurídico. Nós mesmos, nos capítulos anteriores, usamos algumas vezes a expressão ‘sistema normativo’ em vez daquela mais freqüente de ‘ordenamento jurídico’.” Teoria geral do direito. Trad. Denise Agostinetti. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 222.

Nesse contexto, o conceito jurídico-constitucional de índio é resolvido de

duas maneiras: a) caso inexista norma ordinária disciplinando a matéria, tão somente

pela interpretação constitucional; b) pela edição de lei regulamentadora.

No primeiro caso, vale repisar as reflexões supra realizadas sobre o papel do

interprete, à luz da Nova Crítica do Direito de L

ENIO

L

UIZ

S

TRECK

. No segundo, é

mister propormos algumas reflexões mas verticais.

Conforme cediço, o emaranhado de normas constitucionais é passível de

classificação, como o fizeram, com méritos, por exemplo, J

OSÉ

A

FONSO DA

S

ILVA

,

C

ELSO

B

ASTOS

e C

ARLOS

A

YRES

B

RITTO

, estes em co-autoria

95

.

Essas classificações, em essência, concentram-se em torno da definição

daquelas normas que podem e que precisam de complementação (regulamentação)

para lograr eficácia (aplicação).

No presente caso, das normas de direito restritas aos indígenas, oportuno

trazer à colação as lições de C

ELSO

B

ASTOS

e C

ARLOS

A

YRES

B

RITTO

sobre normas

regulamentáveis:

“Regras que, malgrado o seu conteúdo pétreo, admitem sua regulamentação por via subalterna. Aceitam um regramento ancilar, que se reveste como instrumental à sua melhor aplicação. Diferentemente, pois, das normas irregulamentáveis, auto-instrumentadas o bastante para inadmitirem legislação regulamentadora, ainda que sob o color de reforçá-las. [...] nessa categoria, incluímos todas as regras que comportam o tratamento do seu modus operandi ou dos seus pontos de minúcia, por conduto de legislação comum. Dizendo melhor, modelos constitucionais que, inobstante recortados de forma definitiva e exauriente, têm na legislação ordinária maior perspectiva de funcionalidade.”96

Entre as várias disposições referentes aos indígenas, mesmo sem uma

investigação que pretenda classificar com precisão se são normas de aplicação

(eficácia plena), restringíveis (eficácia contida) etc., pode-se afirmar que os

comandos normativos atinentes aos índios admitem regulamentação, são normas

regulamentáveis.

Essa prevista regulamentação pode, inclusive, fazer constar do texto legal

uma definição de indígena, a qual contribuiria para a operacionalização da própria

Constituição.

       

95 BASTOS, Celso; BRITTO, Carlos Ayres. Interpretação e aplicabilidade das normas constitucionais. São Paulo: Saraiva, 1982.

96

Nesse contexto, são inúmeras as leis ordinárias destinadas às questões

indígenas, que validadas pela Constituição, buscam regulamentar e viabilizar os

dispositivos desta, repitam-se superiores.

Dentre a legislação ordinária, a que se preocupou de modo amplo com a

questão indígena, trazendo em seu bojo um conceito de índio, está o Estatuto do

Índio, a Lei nº 6.001/1973.

Insta, antes da análise da Lei nº 6.001/1973 e do conceito de índio nela

esculpido, obtemperar que, não obstante a edição do Estatuto do Índio date de 19 de

dezembro de 1973, ou seja, seja anterior à data da Constituição Federal (05 de

outubro de 1988), em termos gerais, ele foi recepcionado pela Carta de 1988, por

meio do fenômeno da recepção das normas.

Recepcionado o texto legal, o artigo 1º do Estatuto do Índio corrobora a

argumentação anteriormente desenvolvida, reiterando a oscilação entre os termos

“índios”, “indígenas” e “silvícolas”: “Art. 1º: Esta Lei regula a situação jurídica dos

índios ou silvícolas.”

No artigo 3º, todavia, o legislador ordinário define quem é índio, como

segue:

“Artigo 3º: Para os efeitos de lei, ficam estabelecidas as definições a seguir discriminadas:

I - Índio ou Silvícola - É todo indivíduo de origem e ascendência pré- colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional;

II - Comunidade Indígena ou Grupo Tribal - É um conjunto de famílias ou comunidades índias, quer vivendo em estado de completo isolamento em relação aos outros setores da comunhão nacional, quer em contatos intermitentes ou permanentes, sem, contudo estarem neles integrados.”

Conforme se vê, o legislador ordinário elegeu, no inciso I do art. 3º, como

critérios para determinar quem é índio o étnico (racial), o cultural e o identitário.

O critério racial (“ascendência pré-colombiana”) é frágil, pelos argumentos

retro apresentados, bastando lembrar, em termos jurídicos, que a própria existência

de raça é contesta (nesse sentido, v.g., Supremo Tribunal Federal – HC nº.

82424/2003 – RS

97

).

       

97 Trecho da ementa: “[...] 3. Raça humana. Subdivisão. Inexistência. Com a definição e o

mapeamento do genoma humano, cientificamente não existem distinções entre os homens, seja pela segmentação da pele, formato dos olhos, altura, pêlos ou por quaisquer outras características físicas,

O critério cultural (“cujas características culturais o distinguem da sociedade

nacional”) encontra maior solidez, desde que utilizado adequadamente, isto é, se

baseado em dois pressupostos implícitos, tal como expostos por M

ANUELA

C

ARNEIRO DA

C

UNHA

: “[...] a) a [pressuposição] de tomar a existência dessa cultura

como uma característica primária, quando se trata pelo contrário de consequência da

organização de um grupo étnico; e b) o [pressuposto] de supor em particular que essa

cultura partilhada deve ser obrigatoriamente a cultura ancestral.”

98

Essas ressalvas são justificadas se considerarmos que, de fato, as

comunidades desenvolvem a cultura recebida, formando uma cultura própria que

pode não corrsponder à ancestral. Por exemplo, no aspecto lingüístico, a língua

transmitida pelos ancestrais tende, em algum grau, a ser modificada, mas mesmo

com essa modificação ainda há a preservação da língua indígena (cf. as lições já

citadas de J

ULIO

C

EZAR

M

ELATTI

).

O critério identitário (“se identifica e é identificado como pertencente a um

grupo étnico”), embora seja o mais profícuo e o menos propenso a distorções (pelos

motivos também já expostos), restringe à comunidade indígena o poder decisório

sobre quem é e quem não é seu membro.

Essa restrição releva uma falha na estrutura do Estatuto, a qual também foi

denunciada por M

ANUELA

C

ARNEIRO DA

C

UNHA

: “Não faz sentido o Estatuto do

índio definir ‘índio’ antes de definir ‘comunidade indígena”.

A mesma autora propõe a inversão da ordem e as seguintes definições, por

nós perfilhadas: “Comunidades indígenas são aquelas que se consideram segmentos

distintos da sociedade nacional em virtude da consciência de sua continuidade

histórica com sociedades pré-colombianas. É índio quem se considera pertencente a

uma dessas comunidades e é por ela reconhecido como membro.”

99

Ainda quanto às definições, no seu artigo 4º, o Estatuto do Índio subdivide

os índios conforme seu processo de integração com a comunidade nacional:

“Artigo 4º: Os índios são considerados:

I - Isolados - Quando vivem em grupos desconhecidos ou de que se possuem poucos e vagos informes através de contatos eventuais com elementos da comunhão nacional;

       

visto que todos se qualificam como espécie humana. Não há diferenças biológicas entre os seres humanos. Na essência são todos iguais”.

98 CUNHA, Manuela Carneiro da. Os direitos do índio. Ensaios e documentos. São Paulo:

Brasiliense, 1987, p. 24.

99

II - Em vias de integração - Quando, em contato intermitente ou permanente com grupos estranhos, conservam menor ou maior parte das condições de sua vida nativa, mas aceitam algumas práticas e modos de existência comuns aos demais setores da comunhão nacional, da qual vão necessitando cada vez mais para o próprio sustento;

III - Integrados - Quando incorporados à comunhão nacional e reconhecidos no pleno exercício dos direitos civis, ainda que conservem usos, costumes e tradições característicos da sua cultura.”

Embora a elaboração legislativa do Estatuto do Índio esteja lastreada em

conceitos antropológicos, é nesse ponto referente à definição de índio que estão

concentradas as nossas maiores preocupações, uma vez que a integração social pode

excluir direitos e garantias, pois não há critérios sólidos, objetivos e nem mesmo

válidos (irrefutáveis) para a aferição do grau de integração com a sociedade.

Ademais, a definição envolve elementos fáticos em constante modificação,

o que torna a análise assaz subjetiva, dando margem a distorções (para não dizer a

arbitrariedades), desfavoráveis aos indígenas. A propósito ilustra M

ANUELA

C

ARNEIRO DA

C

UNHA

:

“Ora, o art. 4.° III, define ‘integrado’ os índios ‘incorporados à comunhão nacional e reconhecidos no pleno exercício dos direitos civis, ainda que conservem usos, costumes e tradições característicos de sua cultura’. Isto significa que o critério da integração é simplesmente a emancipação legal. Portanto uma comunidade indígena emancipada não constitui mais legalmente uma comunidade indígena: poderia argumentar- se que nada justificaria seus direitos territoriais especiais garantidos na Constituição”100.

O assombro da expert brasileira, M

ANUELA

C

ARNEIRO DA

C

UNHA

,

apresenta o seguinte desenvolvimento argumentativo:

“Na base dessa argumentação está uma confusão abusiva e perigosa entre os conceitos de integração e assimilação. Integração refere- se a uma articulação das sociedades indígenas com a sociedade que as domina, manifesta nos vários planos da vida social (Ribeiro et alii, 1960; Agostinho, 1980, pp. 174 e segs., e 1982, p. 67). Por exemplo: a produção de mandioca para o mercado regional ou a extração de borracha para o mercado internacional são formas de articulação econômica de grupos indígenas. Essa articulação não supõe sua assimilação, sua diluição na so- ciedade envolvente. Grupos indígenas continuam com sua identidade étnica distinta e no entanto articulam-se com a sociedade nacional. A integração harmoniosa, que é o propósito do Estatuto do índio (art. 1.°), não significa portanto que a comunidade deva deixar de ser indígena, e isso não só de fato como juridicamente. E se uma comunidade permanece indígena, o que justifica a retirada de seus direitos territoriais? Estes não derivam da incapacidade relativa dos índios, e não podem portanto ser abolidos com sua emancipação. Derivam, isto sim [...] do reconhecimento

       

100

do título congênito que tem sobre a terra, o indigenato (Mendes Jr., 1912, p. 57).”101

Do exposto se pode deduzir que os conceitos encampados pelo artigo 4º do

Estatuto do Índio somente podem ser considerados se não implicarem a negativa de

direitos. Melhor dizendo, jamais poderão obstaculizar o exercício de direitos

previstos na Constituição, uma vez que esta não previu essas distinções (quanto à

integração) para o reconhecimento de tais direitos.

Assim sendo, a lei ordinária não poderá impedir tal exercício de direitos,

nem poderá cercear os direitos previstos em outras leis que regulamentem normas

constitucionais, mesmo que estas expressamente acolham os critérios previstos no

artigo 4º do

Estatuto do Índio,

posto que estaremos diante de uma norma

inconstitucional, já que é nítida a violação ao reconhecimento do grau de igualdade

entre os indígenas.

Em suma, não é plausível que o Estatuto do Índio, lei erigida com a

finalidade de proteção aos indígenas e que reconhece o critério da auto-identificação

(artigo 3º), atue em desfavor daqueles a quem busca proteger.

Nesse prospecto e tal como ocorre em outras questões relacionadas aos

direitos humanos, a conceituação infraconstitucional esculpida no art. 4.º do Estatuto

do Índio deve prevalecer somente quando não for prejudicial aos indígenas.

Em supedâneo ao argüido, merece comento o posicionamento adotado no

julgamento da

ação nº 2004.03.99.033626-0

102

, do Tribunal Regional Federal 3ª

Região (TRF3).

Ao apreciar o pedido da indígena J

OVINA

M

ODESTA

, de concessão do

benefício previdenciário de salário-maternidade, o juízo, conjugando o artigo 4º e 8º

do Estatuto do Índio (“serão nulos os atos praticados entre o índio não integrado e

qualquer pessoa estranha à comunidade indígena quando não tenha havido

assistência do órgão tutelar competente”), resolveu indeferir a inicial, sob o

fundamento de ausência de assistência da Fundação Nacional do Índio ou de prova

da condição de integrada.

       

101 Os direitos... cit., p. 26-27. 102

Tribunal Regional Federal 3ª Região, Apelação Cível nº 2004.03.99.033626-0 – MS, Rel. Des. Fed. Santos Neves, j. 05.11.2007.

Conforme se deflui da decisão, a ausência de prova da “condição de

integrada” obstou o exercício do direito de ação e, em última instância, o gozo do

benefício pleiteado.

Esse entendimento, data venia, não merece aplausos. Aplicável seria, in

casu, o princípio do melhor interesse albergado, tal como previsto na exceção

contida no parágrafo único do artigo 8º do Estatuto: “Não se aplica a regra deste

artigo no caso em que o índio revele consciência e conhecimento do ato praticado,

desde que não lhe seja prejudicial, e da extensão de seus efeitos”.

Em termos práticos, a aplicação do princípio resultaria no raciocínio bem

arquitetado pelo douto Procurador Regional da República da 3ª Região, P

AULO

T

HADEU

G

OMES DA

S

ILVA

, assim expresso em seu parecer (apresentado nos autos

referidos), in verbis: “Ademais uma vez concedido o salário-maternidade, a

requerente e seus filhos terão um benefício e não um prejuízo. Na pior das hipóteses,

a sentença declarará a não existência de seu direito de obter o benefício

previdenciário.”

103

Doutro norte, ainda em face do caso apresentado, também deveria ter sido

considerado o artigo 232 da Constituição Federal, que conferiu legitimidade aos

“índios suas comunidades e organizações” “para ingressar em juízo em defesa de

seus direitos e interesses”, ressalvando apenas a intervenção obrigatória do

Ministério Público em todos os feitos.

Diante do exposto, pode-se afirmar que, ao promover a aplicação da norma,

é mister que todos os dispositivos percucientes sejam sistematizados de modo

adequado, posto que a prática jurídica deve estar direcionada para a efetivação do

princípio do melhor interesse do indígena.

Em que pesem os esforços despendidos acerca da definição de índio

encampada pelo Estatuto do Índio nos artigos 3º e 4º, a questão não se finda nessa

quadra. O debate se abrasa em face da Convenção nº 169, da Organização

Internacional do Trabalho (OIT) – Convenção “Sobre Povos Indígenas e Tribais” –,

de 1989.

A Convenção nº 169 da OIT, abordada oportunamente com mais afinco

noutro capítulo preocupou-se em definir seus destinatários:

“Artigo 1º : 1. A presente convenção aplica-se:

       

103

a) aos povos tribais em países independentes, cujas condições sociais, culturais e econômicas os distingam de outros setores da coletividade nacional, e que estejam regidos, total ou parcialmente, por seus próprios costumes ou tradições ou por legislação especial;

b) aos povos em países independentes, considerados indígenas pelo fato de descenderem de populações que habitavam o país ou uma região geográfica pertencente ao país na época da conquista ou da colonização ou do estabelecimento das atuais fronteiras estatais e que, seja qual for sua situação jurídica, conservam todas as suas próprias instituições sociais, econômicas, culturais e políticas, ou parte delas.

2. A consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da presente Convenção. [...].”

Consoante se observa, a Convenção nº 169 da OIT repete os critérios

cultural, biológico e identitário adotados pelo Estatuto do Índio, bem como acresce o

critério colonial.

Malgrado essa repetição estrutural, a Convenção é mais precisa na definição

dos critérios, pois evita conflitos, já que fixa o critério identitário (de auto-

identificação) como “critério fundamental”(arts. 1º e 2).

Pois bem, embora erigida no plano internacional, a Convenção nº 169 da

OIT foi incorporada pelo Brasil, passando a gozar de aplicabilidade no âmbito

interno. Daí deflui ao menos dois questionamentos: 1) A Convenção nº 169 da OIT é

um tratado de Direitos Humanos?; e 2) Se a Convenção nº 169 da OIT é um tratado

de direitos humanos, qual o seu status no âmbito interno?

Mesmo considerando que essas questões serão abordadas com mais vagar

no capítulo seguinte para melhor compreensão do presente embate conceitual, urge

declarar que reconhecemos a Convenção nº 169 da OIT como um tratado de direitos

humanos e, também por pertinência, declarar que comungamos a tese de que os

tratados de direitos humanos gozam de hierarquia constitucional no ordenamento

pátrio.

Nesse diapasão, o conceito de indígena estabelecido no art. 1º (1-2) da

Convenção nº 169 da OIT passa a ser o conceito constitucional de índio, devendo ser

aplicado quando do cumprimento das disposições constitucionais pertinentes aos

indígenas.

Por consequência, o conceito estabelecido pela Convenção nº 169 da OIT

goza de supremacia em relação aos conceitos adotados pelo Estatuto do Índio,

particularmente no que se refere ao artigo 4º.

Oportuno relatar que a Convenção nº 169 da OIT é amiúde invocada por

representantes indígenas, na luta por seus direitos. No “Manifesto indígena”,

apresentado por representantes indígenas brasileiros durante o “V Fórum Social

Mundial”, realizado na cidade de Porto Alegre em 2004, constou o seguinte

postulado: “Aplicação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho

(OIT), com todo o seu significado, garantindo a participação dos nossos povos em

todas as questões de âmbito legislativo e administrativo que nos afetem de alguma

maneira”.

104

Por outro prisma, mesmo que se adote o entendimento atualmente firmado

pelo STF, no sentido de que os tratados de Direitos Humanos gozam de status de

supralegalidade (v.g., HC nº 94702 – 07.10.2008), isto é, que eles estão abaixo da

Constituição e acima das leis infraconstitucionais, ainda assim, indubitavelmente, a

Convenção nº 169 da OIT prevalecerá sobre o Estatuto do Índio.

Finalmente, ainda que prevaleça o entendimento por muitos anos

predominante no STF, qual seja, o de que os tratados de Direitos Humanos gozam da

mesma hierarquia das normas ordinárias, e mesmo que a Convenção nº 169 da OIT

não seja considerada um tratado de Direitos Humanos, ainda assim não se pode

perder de vista que a Convenção revoga as disposições do Estatuto do Índio que dela

discrepam.

Essa revogação ocorre em assonância ao critério cronológico estabelecido

na Lei de Introdução ao Código Civil, precisamente artigo 2º, § 1º

105

, posto que a

Convenção foi “formalmente” integrada em 19 de abril de 2004, pelo Decreto nº

5.051, e, portanto, em data posterior à da vigência do Estatuto.

Findando esse item, não se pode deixar de fazer a seguinte ponderação:

embora se admita a possibilidade de regulamentação das disposições constitucionais,

tal como pontua E

DUARDO

G

ARCIA DE

E

NTERRIA

, essas normas “só serão válidas se