Numa sociedade arraigada ao lucro e no acúmulo de riquezas, poucos centralizam os meios de produção e detém, além de poder, recursos estruturais e conjunturais do mecanismo de oferta de empregos.
Há tempos, sendo tema das mais acaloradas discussões, que as anomalias geram variações diversas na oferta de vagas de trabalho, das condições para seu exercício e, finalmente, o desemprego.
Seja pela oscilação dos vetores econômicos nesta ou naquela direção, pelas crises setoriais, a substituição humana pela tecnologia ou mecânica, é certo que há um círculo vicioso quando tratamos dos problemas trabalhistas, sobretudo com relação à absorção da mão-de-obra excedente e as condições para o perfeito exercício dessas funções.
O Direito do Trabalho tem se ocupado de maneira heróica em solucionar tais demandas, todavia, para as questões coletivas das relações laborais, ainda que muitas vezes as convenções firmadas entre empregadores e empregados venham colocar termo em algumas delas, não é algo que as sane completamente.
Como temos feito rotineiramente neste trabalho, buscaremos o direito material coletivo para as relações do trabalho como gestor de um novo quadro
paradigmático, pois, em auxílio aos demais ramos do direito permitindo, além do acesso ao trabalho, também instituir mecanismos sadios de meio ambiente para o seu exercício.
Reiterando que o Direito do Trabalho tem se aplicado na solução dessas demandas, é bem verdade que, em tempos de crises constantes, o empregado tem se sujeitado, em troca de obtenção ou manutenção de seu posto de trabalho, modificar suas condições com menos proteção, quiçá, partindo para ambientes insalubres ou que lhe causem algum dissabor, por exemplo.
Se a mão-de-obra se desvaloriza (sendo os empregados hipossuficientes na relação com o empregador), igualmente desvaloriza os mecanismos de proteção do direito do trabalhador como um todo.
O direito material coletivo, para os assuntos laborais, vem somar ao Direito do Trabalho, especializando-se em questões que não podem ser vistas apenas linearmente, por exemplo, salário, horas extras, férias, enfim, próprios da relação direta entre as partes, mas holísticos, como o meio ambiente do trabalho.
O direito material coletivo, além de ser conjunto de normas que permite e colabora para o fomento da oferta de emprego, é mecanismo de gestão para o perfeito exercício dessas atividades, como um dos fatores de bem-estar e condição sadia de vida.
Celso Antonio Pacheco Fiorillo leciona que o meio ambiente do trabalho é constituído pelo “local onde as pessoas desempenham suas atividades laborais,
sejam remuneradas ou não, cujo equilíbrio está baseado na salubridade do meio e na ausência de agentes que comprometam a incolumidade físico-psíquica dos trabalhadores, independente da condição que ostentem (homens ou mulheres, maiores ou menores de idade, celetistas, servidores públicos, autônomos, etc.). 89
Essa sadia qualidade de vida não diz respeito somente ao grupo de empregados, mas diretamente aos seus familiares e a toda sociedade. Uma sociedade que se preocupa com as condições de trabalho, é uma sociedade consciente do bem-estar de todo um povo.
Se o Direito do Trabalho milita nas relações entre as partes, o direito material coletivo, para as questões laborais, se preocupa com os direitos do empregado-homem (dentro da coletividade).
Fiorillo ainda constata que “a proteção do direito do trabalho é distinta da
assegurada ao meio ambiente do trabalho, porquanto esta última busca salvaguardar a saúde e a segurança do trabalhador no ambiente onde desenvolve suas atividades. O direito do trabalho, por sua vez, é o conjunto de normas jurídicas que disciplina as relações jurídicas entre empregado e empregador.” 90
Raimundo Simão de Melo compartilha o mesmo entendimento afirmando que “o meio ambiente do trabalho adequado e seguro é um direito fundamental do
89 Op. cit., p. 22/23. 90 Op. cit., p. 23.
cidadão trabalhador (lato sensu). Não é mero direito trabalhista vinculado ao contrato de trabalho, pois a proteção daquele é distinta da assegurada ao meio ambiente do trabalho, porquanto esta última busca salvaguardar a saúde e a segurança do trabalhador no ambiente onde desenvolve as suas atividades.” 91
Amauri Mascaro Nascimento leciona que o trabalho é algo “inerente ao
trabalhador, ao seu próprio ser. Quando o homem trabalha para outrem, dá um pouco de si. Não é o mesmo que ocorre quando alguém fornece a outrem uma mercadoria. A matéria ou objeto do contrato de trabalho, portanto, é muito especial.”92
Com propriedade ainda conclui que a relação de trabalho é “meio de
preservação da dignidade humana.” 93
E é nesse sentido que se conduz este capítulo, sendo o direito material coletivo o conjunto de normas que tutela as questões holísticas da relação de trabalho, sobretudo permitindo que essa atividade laboral seja digna e sadia.
A Constituição Federal de 1988, artigos 200 e 225 instituíram cláusula pétrea acerca da saúde do trabalhador, firmando a necessária qualidade e equilíbrio do meio ambiente do trabalho para alcance de sua dignidade e vida saudável. É um direito fundamental.
91 Op. cit., p. 31.
92 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho. 12ª ed. São Paulo: Saraiva, 1996, p.
271/272.
Alexandre de Moraes conceitua “direitos humanos fundamentais” como “o
conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser humano que tem por finalidade básica o respeito à sua dignidade, por meio de sua proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana.” 94
O artigo 3º, da Lei nº 6.938/81, a denominada Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, o conceitua como conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abrigam e regem a vida em todas as suas formas.
Emerge do texto legal a preocupação não somente da qualidade do meio ambiente em si, num sentido imediato, mas também com relação à saúde, segurança e bem-estar do cidadão, num sentido mediato, ou seja, para o nosso tema, na tutela da sadia qualidade de vida e do bem-estar do trabalhador-homem.
Cristiane Derani extrai que, o “conceito de meio ambiente não se reduz a
ar, água, terra, mas deve ser definido como o conjunto das condições da existência humana, que integra e influenciam o relacionamento entre os homens, sua saúde e desenvolvimento.” 95
Verificamos com facilidade que o bem tutelado não se subsume às questões lineares relativas ao contrato de trabalho (direito do trabalho), mas exaram
94 MORAES, Alexandre de. Direitos humanos fundamentais: teoria geral, comentários aos arts. 1º a 5º
da Constituição da República Federativa do Brasil, doutrina e jurisprudência. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 2003, p. 39.
a tutela de bens como a saúde e o bem-estar do trabalhador no cumprimento desse pacto (direito material coletivo – meio ambiente do trabalho).
A Convenção nº 155, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em seu artigo 4º, consigna que “1. Todo Membro deverá, em consulta às organizações
mais representativas de empregadores e de trabalhadores, e levando em conta a condição e a prática nacionais, formular, por em prática e reexaminar periodicamente uma política nacional coerente em matéria de segurança e saúde dos trabalhadores e o meio ambiente do trabalho.”
O direito material para as relações trabalhistas institui o meio ambiente do trabalho, tutelando, não a relação linear entre empregado e empregador, mas a saúde humana (de interesse coletivo).
A defesa ao meio ambiente, inclusive do trabalho, é também um dos princípios da ordem econômica, que tem por finalidade assegurar a todos existência digna, conforme ditames da justiça social inclusa no artigo 170, da Carta Política de 1988.
O objetivo dos legisladores foi, portanto, estimular a busca de soluções técnicas cada vez mais aperfeiçoadas para dotar os locais de trabalho de condições favoráveis à presença da pessoa humana em seu seio, reduzindo, a ponto de eliminar, os fatores de risco à saúde do trabalhador e à sua dignidade.
Enquanto perdurarem as condições de risco ou nocividade, sem prejuízo da adoção de medidas que objetivem proteger o meio ambiente do trabalho, não haverá uma perfeita coalizão de interesses sociais.