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Sıtkı Bilgin Dönemi Belediye Hizmetleri (18 Nisan 1958 27 Mayıs 1960)

O período que sucedeu a Revolução Francesa, mais precisamente após a queda do primeiro Império Napoleônico, pode ser caracterizado como um período de transição entre o Antigo Regime, superado pela revolução industrial e política, e um novo mundo que se apresentava ao ocidente ainda de forma multifacetada, mas que já reunia um conjunto de condições intelectuais, sociais, e institucionais que, de forma lenta e dispersa, ao longo de todo o século XIX, foram determinantes para a constituição de uma ciência do homem.

Sob a bandeira do liberalismo, que no início do século XIX era essencialmente político, e da ideologia, a atividade intelectual desenvolvida naquele determinado período histórico revelava um novo matiz, marcado muito mais pela razão e pela experiência, do que pela idéias metafísicas. A partir desses ideólogos, inspirados pelas idéias de Condorcet,346 as ações humanas, incluindo a própria

política, deveriam ser pautadas no conhecimento científico. Buscava-se, assim, naquele momento histórico superar uma tradição erudita pautada, fundamentalmente, em discussões teóricas próprias da filosofia e em aproximações literárias. Os esforços intelectuais confluíam para a fundação de uma “Ciência do Homem”, ao mesmo tempo compreensiva, já que voltada às diversas atividades físicas e morais, e também objetiva, devido à necessidade de estrita observância ao método científico e livre de preconceitos filosóficos e religiosos.

Como exemplos desses novos ideólogos cujos trabalhos já podiam ser identificados à epistemologia e filosofia das ciências, tanto Cuin347 como Poirier348

citam principalmente os nomes de Destutt de Tracy (Elementos de ideologia, 1804), Cabanis (Das relações entre o físico e o moral, 1799), Daunou (organizador dos Arquivos de França no início do século XIX), Volney (Lições de historia, de 1795), Gerando (Considerações sobre os diversos métodos a seguir para a observação dos

346 Em sua obra “Ensaio de um quadro histórico dos progressos do espírito humano” , de 1794, Condorcet

reformula as idéias de Voltaire e Turgot sobre a história em um sentido mais otimista do que esses antecessores, acreditando na capacidade de um aperfeiçoamento indefinido do espírito humano. “Ao aperfeiçoamento das faculdades humanas”, diz ele, “não é fixado nenhum limite, e a perfectibilidade – doravante desvinculada de todo o poder que pretenda sustenta-la – não tem outro termo senão a duração do planeta sobre o qual a natureza nos colocou” (Abbagnano, 1978, v. VII, p. 241)

347 CUIN, Charles-Henry. História da Sociologia. São Paulo: Editora Ensaio, 1994, p. 26.

povos selvagens, de 1799), Jauffret (Memória para o estabelecimento de um museu antropológico, de 1803). A maioria desses intelectuais franceses, considerados verdadeiros precursores da Antropologia enquanto disciplina científica, fundaram em 1799, segundo aponta Poirier, a “Sociedade dos Observadores do Homem”, que após encerrar precocemente suas atividades já em 1805, muito provavelmente por haver suscitado uma certa inquietude em Napoleão Bonaparte, teve seu programa retomado posteriormente pela “Sociedade Filantrópica”. 349

Mas o que chama a atenção nessas duas instituições francesas, as quais podem ser consideradas como embrionárias do que viria a ser no fim do século XIX a Escola Francesa de Antropologia, é que seus membros eram médicos, naturalistas, historiadores e juristas. Apesar de todos estes intelectuais de profissões variadas também serem considerados “filósofos” àquele tempo, é importante considerar que suas reflexões não estavam mais voltadas a estabelecer considerações meramente teóricas sobre a humanidade em geral, mas sim em estudar o homem em sua “empiria”, ou seja, analisar o homem concreto em seu meio, de forma positiva e experimental.

E foi com fundamento nessas novas idéias que a antropologia foi se desenvolvendo progressivamente ao longo do século XIX, também compreendida num movimento intelectual que culminou no advento das ciências humanas em geral. Não obstante a singularidade e especificidade que marcou o desenvolvimento de cada uma das ciências humanas e sociais ao longo do século XIX, certos pensadores foram particularmente determinantes para consolidar essa nova era. É o caso de Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1825), que já em 1808 pregava a constituição de uma “Ciência do Homem”,350 enquanto uma ciência positiva que

tivesse como objeto o homem em suas relações sociais. E nesse aspecto, Saint- Simon já suscitava indicativos de uma reflexão epistemológica sobre diferenças essenciais entre a idéia de uma ciência do homem e as ciências da natureza, apesar de sustentar que todas as ciências que “começaram sendo conjecturais (...), estão

349 Ibid, p. 29.

350 Em sua obra “Carta ao Bureau de Longitudes”, escrita em 1808, Saint-Simon propunha que,“para acelerar os

progressos da ciência, o maior, o mais nobre dos meios é fazer experiências com o universo; ora, não é com o grande mundo, mas com o pequeno mundo, ou seja, com o homem, que podemos fazer experiências. Uma das experiências mais importantes a ser feita sobre o homem consiste em colocá-lo em novas relações sociais. Ora, toda nova ação que resulte de semelhante experiência só pode ser classificada como boa ou má depois das observações feitas sobre seus resultados.”, in, CUIN, Charles-Henry. História da Sociologia. São Paulo: Editora Ensaio, 1994.

destinadas a se tornarem positivas”.351 Também as crises experimentadas pelas

sociedades européias naquele turbulento início do século XIX, que já prenunciavam uma nova organização social a que Saint-Simon denominava de “sociedade industrial”, indicavam, no âmbito de uma filosofia da história, o advento de um outro tipo racionalidade onde o econômico sobrepujaria o político, eliminando as antigas formas sociais.

Nesse cenário marcado por profundas transformações que caracterizavam a transição entre os ranços políticos e religiosos do Antigo Regime para uma outra sociedade onde a principal força motiz era a ciência, a influência de Saint-Simon foi fundamental para que, seu então secretário Auguste Comte, a partir de 1830, inicia- se suas conferências sob o título de “Curso de Filosofia Positiva”, as quais se estenderiam até 1842. Foram nessas conferências que, segundo Cuin, o termo sociologia foi utilizado pela primeira vez.352

Inicia-se assim uma diversificação no estudo científico do homem. A multiplicidade de formas de abordagem sobre as relações humanas em sociedade acabou por impor a necessidade de uma especialização por parte dos pesquisadores. Com isso, para cada tipo de investigação sobre determinados aspectos particulares do homem em sociedade houve a necessidade de desenvolvimento de uma teoria específica, que fosse capaz de fornecer modelos e categorias apropriados para estudos que passavam a seguir direções cada vez mais autônomas. A crescente especialização do conhecimento sugeria assim a viabillidade de se promover uma classificação dos diversos temas e objetos de pesquisa em disciplinas científicas, com objetos próprios de estudo.