Ainda no final do século XVIII, mais precisamente no período da Revolução Francesa, surgiram várias terminologias dispostas à definição de um nome àquilo
337 MERCIER, Paul. História da Antropologia. São Paulo: Editora Moraes, p. 27.
338 Segundo o próprio Hume, “a natureza humana é a única ciência do homem; e contudo tem sido até agora a
mais descurada. Terei feito bastante se contribuir para a pôr um pouco mais em moda: esta esperança ajuda-me a dissipar o meu humor melancólico e a dar-me força contra a indolência que às vezes me domina.” (apud Abbagnano, 1978, v. VII, p. 148)
que já começava a ganhar os contornos de uma “ciência do homem”, compreendida como o estudo da diferença entre as culturas, raças e etnias. Desde então a denominação dada à disciplina vem sofrendo freqüentes mudanças, ao passo que, atualmente, na maioria dos países cujas tradições intelectuais mais contribuíram para seu desenvolvimento prevalece o termo antropologia, enquanto que em outros a expressão etnologia ainda tem sido utilizada.
Tanto Mercier339 quanto Poirier340 destacam que a palavra antropologia é a
mais antiga.341 Segundo consta, os naturalistas teriam sido os responsáveis pela atribuição do nome de antropologia em substituição ao que até então se designava como história natural, conforme a perspectiva que havia sido traçada por Hume, voltada ao estudo do homem dentro dos esquemas biológicos da criação. Mas o que teria conferido popularidade ao termo antropologia enquanto um campo próprio do conhecimento foi a publicação, em 1798, de “Anthropologie in pragmatischer
Hinsicht” (Antropologia sob o ponto de vista pragmático), de Kant. Muito embora
esse filósofo não possa ser considerado um dos precursores diretos da Antropologia, nessa obra Kant propunha uma classificação das raças humanas utilizando como subsídio, dentre outros elementos, de relatos escritos de exploradores.
Por outro lado, as palavras etnologia e etnografia seriam verdadeiros neologismos, segundo aponta Poirier.342 Etnologia teria sido utilizada inicialmente em
1787 no livro “Ensaio sobre a educação intelectual, com o projeto de uma ciência nova”, da autoria de Chavannes, um filósofo que via essa disciplina primeiramente como um ramo da filosofia e da história, também voltada à análise das características raciais, e “ocupada em estudar as etapas do homem em sua marcha para a civilização, dentro de um marco que era uma antecipação do evolucionismo”. Somente no início do século XIX é que a etnologia passou a possuir o significado atual, mais relacionado, segundo Mercier, a “um aspecto ou procedimento antropológico”. Já a palavra etnografia teria aparecido de forma mais tardia, sendo que Poirier aponta que o historiador alemão B. G. Niebuhr foi o responsável pela sua concepção mediante a introdução do termo em seus cursos na Universidade de
339 MERCIER, Paul. História da Antropologia. São Paulo: Editora Moraes, p. 7.
340 POIRIER, Jean. Una historia de la etnologia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1992, p. 25.
341 Paul Mercier destaca ainda que Aristóteles e outros autores gregos já haviam empregado o termo
antropologia.
Berlim em 1810. Mas a popularização do termo é atribuída ao italiano Balbi, que residiu em Paris durante cerca de doze anos, e durante esse período publicou vários livros utilizando o conceito de etnografia, especialmente em sua obra “Atlas Etnográfico do globo”, de 1826.
Apesar de inicialmente a expressão etnografia ter sido utilizada para a classificação dos grupos humanos em função de suas características lingüísticas, mais tarde a análise etnográfica veio a se ocupar dos documentos básicos obtidos no trabalho de campo. Ou, na definição de Claude Lévi-Strauss343:
“Ela corresponde aos primeiros estágios da pesquisa: observação e descrição, trabalho de campo (field-work). Uma monografia, que tem por objeto um grupo suficientemente restrito para que o autor tenha podido reunir a maior parte de sua informação graças a uma experiência pessoal, constitui o próprio tipo do estudo etnográfico. Acrescentar-se-á somente que a etnografia engloba também os métodos e as técnicas que se relacionam com o trabalho de campo, com a classificação, descrição e análise dos fenômenos culturais particulares (quer se trate de armas, instrumentos, crenças ou instituições).”
Á etnologia caberia o mister de classificar e comparar os dados etnográficos. Interessante notar ainda que Copans identifica um movimento interno na matriz disciplinar que teria levado a etnologia a se converter numa antropologia, uma vez que esta última, ao se ocupar da “reflexão sobre si própria e a comparação de todas as sociedades humanas”, supera o princípio constitutivo daquela, construído a partir da “distinção entre sociedades européias e ‘não européias’”.344 Até mesmo porque,
com o advento do processo de descolonização, que transformava os nativos em cidadãos de nações independentes, seguido pelas múltiplas implicações sociais, culturais e econômicas trazidas com o fenômeno da globalização, passou-se a reforçar a noção de que o que interessa à antropologia são principalmente as “diferenças”, as quais nunca desapareceriam do âmbito das relações humanas, sendo o antropólogo um legítimo intermediário dessa relação.345
Em razão desses fatores de ordem etmológica e histórica que apontam uma proeminência do termo antropologia sobre as outras denominações tradicionalmente adotadas na referência à disciplina, também neste estudo foi adotada a terminologia antropologia, que, aliás, já é consagrada na tradição brasileira.
343 LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1975, p. 394-
395.
344 COPANS, Jean. et al. Antropologia: ciência das sociedades primitivas? Lisboa: Edições 70, 1971, p. 17. 345 LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1975.