Em suas obras “Les règles de l’art”, publicada originalmente em 1992, e
“Raisons pratiques – sur la théorie de l’action”, de 1994, Pierre Bourdieu150 propõe e
apresenta os fundamentos de uma “ciência das obras”. Segundo esse autor, os vários campos de produção cultural, como, por exemplo, os campos literário, artístico, político, jurídico, etc., propõem aos sujeitos que estão envolvidos, um “espaço de possíveis” que condiciona e orienta suas buscas e seus respectivos universos de problemas, referências, e “todo um sistema de coordenadas que é preciso ter em mente – o que não quer dizer na consciência – para entrar no jogo”.
148 Ibid, 217. 149 Ibid, p. 263.
São esses espaços de possíveis que fazem com que os sujeitos participantes desses campos culturais sejam, ao mesmo tempo, situados e datados, mas também relativamente autônomos em relação aos determinantes sociais e econômicos de sua própria época. Nesse sentido, é necessário levar em consideração toda uma evolução histórica sobre a teoria, legislação, doutrina, e jurisprudência, no âmbito do qual se insere uma problemática específica, para que um juiz de direito digno do seu elevado ofício possa assumir uma posição coerente.
Para Bourdieu,151 esse “espaço de possíveis” que se sobrepõe ao sujeitos
condicionando e orientando suas escolhas, faz com que, “mesmo que não se refiram uns aos outros, os criadores conteporâneos estejam objetivamente situados uns em relação aos outros”. Mas não obstante esse autor se referir nessa proposta de fundar uma “ciência das obras” mais especificamente à literatura, parece em principio que devido à gênese discursiva que estabelece relações mútuas entre esse campo cultural e o direito, parece que esses fundamentos também podem ser aplicados às obras produzidas no campo jurídico. Até mesmo porque, também no universo das práticas jurídicas há um “espaço de possíveis” que faz com que um determinado sujeito, dentre as diferentes teorias, métodos, doutrinas, e jurisprudências possíveis, escolha uma e não outras.
Referindo-se à obra como texto, uma primeira divisão que se coloca é a que opõe as explicações externas e as interpretações internas. Esta última é aquela feita pelos próprios sujeitos em relação ao seu campo cultural específico, que no caso do campo literário é feita, em sua forma mais comum, pelos professores de literatura (lectores). E na medida que a instituição universitária incorpora uma lógica de interpretação corrente, ela acaba permanecendo em um estado de doxa. E, nesse aspecto, é interessante notar que quando Bourdieu152 se reporta à pretensão de
pureza na interpretação literária proposta pelo “New Criticism”, onde as obras culturais deviam ser concebidas “como significações atemporais e formas puras que pedem uma leitura puramente interna e a-histórica”, há um significativo contraponto no purismo normativo que também se estabeleceu no campo do direito.
151 Ibid, p. 54. 152 Ibid, p. 55.
Mas nesse projeto de formulação teórica de uma ciência das obras, e em atenção à tradição formalista que despreza fundamentos, Pierre Bourdieu153 vê duas
possibilidades:
Podemos invocar a teoria neo-kantiana das formas simbólicas ou, de maneira mais geral, todas as tradições que pretendem descobrir estruturas antropológicas universais (como a mitologia comparada) ou recuperar as formas universais da razão poética ou literária, as estruturas a-históricas que estão na base da construção poética do mundo (por exemplo, a “essência do poético, do simbólico, da metáfora etc.).
Segundo fundamento possível, a teoria estruturalista é bem mais pujante, intelectual e socialmente. Socialmente, ela assumiu o controle da doxa internalista e conferiu uma aura de cientificidade à leitura interna como desmonte formal de textos atemporais. A hermenêutica estruturalista trata as obras culturais (língua, mitos e, por extensão, obras de arte) como estruturas estruturadas sem sujeito estruturante que, como na língua saussuriana, são realizações históricas particulares e, portanto, devem ser decifradas como tais, mas sem qualquer referência às condições econômicas ou sociais de produção da obra ou dos produtores da obra (como o sistema escolar).
E nesse âmbito de análise, a obra de Michel Foucault foi fundamental para a formulação de um projeto estruturalista de análise de obras culturais. O estruturalismo simbólico de Foucault, como afirma Bourdieu,154 teve o mérito de reter
“o que é, sem dúvida, essencial em Saussure, isto é, o primado das relações”. Até mesmo porque, se na perspectiva saussuriana a língua é forma e não substância, a obra também não existe por si mesma, ou seja, “fora das relações de interdependência que a que a vinculam a outras obras”. Desse modo, Foucault se “recusa a buscar fora da ordem dos discursos o princípio da elucidação de cada um dos discursos que aí se encontram inseridos”. E esse sistema discursivo no interior do qual cada obra singular se define é denominado por Foucault de “campo de possibilidades estratégicas”.
Percebe-se, portanto, que em todo campo cultural há um sistema de referências, conceitos, orientações, e coordenadas necessárias para que o sujeito possa participar do jogo, e que é chamado por Pierre Bourdieu de “espaço de possíveis” e por Michel Foucault de “campo de possibilidades estratégicas”, apesar de haver uma pequena diferença na essência desses dois conceitos. E a proposta de análise do discurso de Foucault tem como fundamento justamente considerar as diferentes “linguagens” ou “fatos de discurso” não apenas em seu aspecto lingüístico, na linha desenvolvida por Saussure, mas como estratégias adotadas
153 Ibid, p. 55-56. 154 Ibid, p. 56.
pelos sujeitos em seus campos culturais específicos. Ou, conforme propõe o próprio Foucault:155
Teria então chegado o momento de considerar esses fatos de discurso, não mais simplesmente sob seu aspecto lingüístico, mas, de certa forma – e aqui me inspiro nas pesquisas realizadas pelos anglo-americanos – como jogos (games), jogos estratégicos, de ação e de reação, de pergunta e de resposta, de dominação e de esquiva, como também de luta. O discuro é esse conjunto regular de fatos lingüísticos em determinado nível, e polêmicos e estratégicos em outro.
Nessa perspectiva analítica, as obras culturais são vistas em relação direta às características sociais dos autores, considerando suas origens diferentes origens culturais, e também dos próprios grupos que eram os destinatários de suas obras, considerando as diferentes expectativas que possuem em relação a elas. Assim, na análise das obras culturais é necessário considerar que cada um desses campos ou “microcosmos sociais” que as produzem possuem suas próprias estruturas e leis específicas, e que constituem um “habitus” próprio dos sujeitos que os compõem (juristas, cientistas, políticos, intelectuais, escritores, presos, etc.). De um modo geral, para proceder a uma análise do discurso é necessário uma redução ao contexto discursivo maior onde o “fato discursivo” encontra-se inserido e é por ele relativamente determinado.
Assim, é preciso considerar que os sujeitos produtores das obras culturais, como é o caso dos discursos jurídicos, estão situados e datados em um espaço onde as relações entre eles assumem posições objetivas, como, por exemplo, o jurista consagrado e o jurista polêmico, o juiz “caneta pesada” e o juiz liberal, o criminalista renomado e o criminalista “porta de cadeia” etc. Desse modo, para compreender a obra cultural de forma adequada, é necessário situar o sujeito em suas relações objetivas com todo o grupo. Conforme sintetiza Bourdieu:156
É no horizonte particular dessas relações de força específicas, e de lutas que têm por objetivo conservá-las ou transformá-las, que se engendram as estratégias dos produtores, a forma de arte que defendem, as alianças que estabelecem, as escolas que fundam, e isso por meio dos interesses específicos que são aí determinados.
155 FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005, p. 9. 156 BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: Sobre a teoria da ação. Campinas, SP: Papirus, 1996, p. 60.
E é justamente a partir dessa perspectiva relacional no “campo das possibilidades estratégicas” ou “espaço de possíveis” que se pode compreender as tomadas de posição dos sujeitos entre uma teoria, método, jurisprudência, escola, e todas as outras que também se apresentavam como possíveis de serem escolhidas. De modo que são as diferenças entre cada um desses possíveis que acabam identificando o próprio sujeito à medida que este assume sua posição no campo. Em outras palavras, Bourdieu157 parece propor que é o fato do sujeito assumir uma
posição em um campo determinado, onde há uma “luta” entre todo um sistema de possibilidades que “são oferecidas pela história e que determinam o que é possível e impossível de fazer ou de pensar em um dado momento do tempo”, que também irá orientar suas futuras escolhas. Se sua posição no campo se situar no “pólo dominante”, a tendência é que siga as possibilidades mais seguras, estabelecidas, menos polêmicas, e, se o sujeito se encontrar no “pólo dominado”, suas escolhas seguiram outras possibilidades mais originais entre aquelas que já se encontram disponíveis no próprio campo, ou mesmo seguir em direção a novas possibilidades ainda não consideradas ou previstas. E são através dessas “lutas” entre as diferentes posições que os sujeitos assumem em um determinado campo cultural que poderá ter “o efeito de conservar, ou de transformar, a estrutura do campo das formas que são instrumentos e alvos nessas lutas”.
Trazendo essa proposta para o campo jurídico, as estratégias discursivas dos sujeitos e instituições envolvidas nas “lutas” dependerão da posição que ocupam nessa relação estrutural de distribuição do capital simbólico, e que, considerando às “disposições constitutivas de seus habitus (relativamente autônomos em relação à posição), inclina-os seja a conservar seja a transformar a estrutura dessa distribuição, logo, a perpetuar as regras do jogo ou a subvertê-las”.158
Delineada a estrutura do campo, a lógica de seu funcionamento, e as “lutas” que levam às suas transformações, parece que a análise das obras culturais e, em específico do discurso jurídico, deve ser feita através de um exercício de compreensão que considere o contexto histórico, relacional, e estrutural no qual a mesma se acha inserida e, assim, determinada. Com efeito, a análise do discurso jurídico deve compreender as características sociais dos autores, levando em conta suas diferentes origens culturais, como também as características dos próprios
157 Ibid, p. 63. 158 Ibid, p. 64.
grupos que eram os destinatários de suas obras, e as expectativas que possuem em relação a elas. Os discursos jurídicos, enquanto obras culturais, devem ser analisados como resultado de estratégias, escolhas, e hábitus tomados por sujeitos que ocupam uma determinada posição não só perante o próprio campo, mas também em seu microcosmo, que por sua vez possui suas próprias estruturas e leis internas, e é permeado por uma complexa relação de interesses e expectativas externas.
Essa visão histórica, estrutural, e discursiva proposta por Michel Foucault e Pierre Bourdieu realmente parece possibilitar, conforme sugere este último autor, uma interpretação muito mais pujante, intelecutal e socialmente também quando é aplicada às obras do campo jurídico. Até mesmo porque, é necessário romper com o dogma fetichista que direciona o olhar interpretativo apenas na “essência” das obras jurídicas, na ânsia de assegurar a objetividade da leitura através de um purismo normativo, onde os enunciados discursivos são vistos como significações a- históricas e formas puras, como resultado de um artificioso e insustentável movimento autopoiético. Ou, como advoga Bourdieu,159 essa visão realista que torna
a “produção do universal um empreendimento coletivo, submetido a certas regras, parece-me, afinal, mais tranqüilizadora e, se posso dizê-lo, mais humana, do que a crença nas virtudes miraculosas do gênio criador e da paixão pura pela forma pura”.