Criado em 1994, no espaço da antiga Escola Normal de Natal, como projeto piloto centrado na idéia de construção de uma experiência de formação superior de professores “extra- universitária em serviço”51, com o intuito de tornar-se um novo modelo de referência para a política nacional de formação docente. De acordo com seu projeto inicial, trata-se de uma experiência piloto, concebida pela Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação e Cultura (MEC), como parte de “[...] uma nova política de qualificação docente” (RIO GRANDE DO NORTE, 1993, p.4), em consonância com determinações do Plano Decenal de Educação para Todos. O projeto se propunha a “[...] promover a revisão crítica dos cursos de licenciatura e da escola normal de forma a assegurar um novo padrão de qualidade às instituições formadoras” (RIO GRANDE DO NORTE, 1993, p. 4). Para tanto, o MEC contou com cooperação internacional – Cooperação Educativa Brasil-França, na área da formação docente, advinda de uma experiência instituída de formação de professores separada das
universidades. Esta proposta apresentava como horizonte de formação a melhoria do desempenho docente, a partir da estreita vinculação teoria/prática, assegurada pela “[...] valorização da ação docente do aluno-professor” (RIO GRANDE DO NORTE, 1993, p. 4) no Instituto de Formação de Professores, como se denominava inicialmente o IFESP. Propunha-se a tratar “[...] a formação dos recursos humanos para esse nível de ensino de modo diferente do convencional, unindo teoria/prática, tendo em vista a superação do problema da repetência” (RIO GRANDE DO NORTE, 1993 p.4) .
A base legal que fundamentou esse projeto acena, pois, para uma nova concepção de formação profissional do professor, buscada no art. 104 da extinta Lei 4.024/61, para justificar uma organização curricular própria, distinta do curso regular de graduação em Pedagogia. A estrutura curricular inicialmente proposta, em anexo ao final deste estudo, apresenta uma carga horária de 2.820 horas com duração de dois anos, já incluída a regência de sala de aula, cujas matérias de estudo pautaram-se no parecer 252/69 do extinto Conselho Federal de Educação(CFE), hoje Conselho Nacional de Educação (CNE). A referida composição curricular envolve matérias da parte comum, compreendendo 390 horas, e da formação profissional com 630 horas. Além dessas matérias, a parte dominante nessa estrutura curricular desenvolvida insere-se como a parte prática, correspondendo a 1800 horas, envolvendo a regência de classe (ação docente supervisionada e a mediação), integrante do estágio. Assim, a nova experiência de formação inaugurou a formação inicial em serviço, com ênfase na prática, válida para a licenciatura de graduação superior. No percurso dessa experiência do IFESP, alguns ajustes foram feitos na estrutura curricular do curso, chegando a perfazer um total de 3.210 horas distribuídas em três anos letivos, apresentada também em anexo ao final deste estudo. Contudo, a parte dominante do currículo continua sendo a prática, reunida como
Interação Profissional Docente com 1.230 horas, à qual se acrescentam minimamente 200 horas, relativas ao “atelier de estudos complementares, oficinas pedagógicas e iniciação à pesquisa”, perfazendo assim um total de 1430 horas, além da dimensão pedagógica da parte destinada à formação polivalente. Porém, a partir de 2002, com a regulamentação do curso e ajustamento às novas determinações oriundas do CNE (Resoluções nº 01 e 02/2002), ocorre uma nova reorganização curricular, com base, sobretudo, na Resolução nº 02/2002, que estabeleceu como carga horária mínima para todas as licenciaturas, inclusive o Curso Normal Superior, 2800 horas de duração, conferindo, agora, a possibilidade de uma maior credibilidade ao curso, devido às restrições postas à sua duração, como havia sido permitido por mais de dois anos.
Ainda com relação à experiência inicial, esta contou com apoio científico e técnico local por parte da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), através de assessorias e consultorias prestadas por seus professores. A oferta do curso de Pedagogia se deu em parceria com a Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), mediante convênio (RIO GRANDE DO NORTE, 1993).
O critério para a escolha dos docentes para o curso de Formação de Professores para o Ensino Básico, considerado naquele projeto como a primeira missão do então denominado Instituto de Formação de Professores (IFP). Este critério é referendado por um amplo estudo coordenado por Gatti (1996), sugerindo que a escolha dos/das formadores/as deveria “[...] pautar-se por aspectos como experiência no ensino de 1º e 2º graus” (GATTI, 1996 p.23), omitindo, assim, o critério de formação em nível de pós-graduação para o professorado encarregado da formação. Expressando-se de maneira coincidente com ela, considerava o Projeto:
[...] embora consciente do significado da formação acadêmica, notadamente quando verticalizada em nível de pós-graduação, considerou-se da maior relevância na constituição do corpo docente que deverá atuar no curso, a
experiência no ensino de 1º grau e formação de professores” (RIO GRANDE DO NORTE, 1993 p.6).
O Projeto recomendava ainda que essa experiência, de no mínimo cinco anos, deveria ter ocorrido preferencialmente em escola, sendo todos os docentes pertencentes ao quadro da Secretaria de Educação do Estado. O respaldo teórico necessário ao desempenho dessas atividades, tanto para assegurar o aprofundamento dos estudos a serem ministrados quanto para a análise da prática docente, foi atribuído pelo projeto a uma equipe, externa ao Instituto, formada por “[...] professores com nível de pós-graduação” (RIO GRANDE DO NORTE, 1993, p. 4). De modo que os/as professores/os formadores/as do IFESP não precisavam portar níveis de pós-graduação, apenas a titulação básica exigida pelo Estado por ocasião de sua integração aos seus quadros funcionais, além de restringir a docência à dimensão da prática de ensino. Sequer era cogitado nesse projeto um percentual mínimo de formação em nível de pós- graduação para a equipe de professores formadores, conforme apontava o debate nacional acerca da reforma educacional e que acabou sendo incorporado à legislação hoje em vigor. Desta forma, afirma-se a decisão de uma formação centrada exclusivamente no ensino, justificando o critério de seleção dos profissionais a serem encarregados da formação do futuro professorado, para essa nova instância de formação, como advindo apenas de uma experiência prática. Assim também contribuindo para desonerar a formação docente, tornando mais atraente a criação de institutos pela iniciativa privada.
Construído, assim, para servir de vitrine para as propostas de formação docente que viriam, com a reforma que apontava, o Instituto de Formação de Professores Presidente Kennedy, hoje o IFESP, mal acabava de formar a primeira turma em 1995, já era veiculado em encontros e audiências públicas como exemplo de experiência exitosa no campo da formação, enquanto que experiências bem sucedidas, centradas na docência como base da formação,
levadas a termos desde a década de 80 por universidades públicas brasileiras, foram ignoradas e, mesmo, dadas como desconhecidas pelo MEC, como aponta Brzezinski (1999).
Do exposto, pode-se perceber que não é destituída de fundamento a idéia de que Institutos nasceram em contraposição à idéia de universidade. Deste modo, a experiência norte- riograndense teria o sentido de legitimar a cisão pretendida. O secretário de educação do Estado, à época da criação do IFESP, ao apontar como falso o debate sobre o locus da formação, universidade ou instituto, acabava por confirmar o direcionamento indicado. Defendendo a criação do instituto, argumentava ele que o mesmo imprimiria um outro ritmo à formação, capaz de permitir mudanças rápidas nos sistemas de ensino, às quais as universidades não teriam condições de responder (GUERRA, 1996). Não obstante a pressa defendida e a premência por mudanças, o IFESP não conseguiu, nos seis primeiros anos de sua existência (1995 a 2000), formar sequer mil, dos mais de trinta mil que demandavam a formação em nível superior, em todo o Estado. Pelo contrário, apresenta-se uma tendência à redução, pois dos duzentos alunos que ingressaram nos três primeiros anos, houve uma redução na matrícula em torno de 50 alunos, em média, a cada ano para esse curso, de 1998 para cá. Em síntese, a proposta de formação em serviço, formulada como uma licenciatura plena, passa a realizar-se de maneira intensiva, em dois anos inicialmente, tendo posteriormente passado a três anos com a regulamentação dos Institutos Superiores de Ensino. O curso foi direcionado ao privilegiamento da dimensão da prática, chegando a sobrecarregar a sua carga horária com a inclusão do horário de efetivo exercício em sala de aula, como parte do próprio currículo.
Por fim, não é possível deixar de ressaltar o esforço criador com que a equipe de formadores do IFESP vem multiplicando as possibilidades de articulação e fortalecimento da teoria/prática, nos limites dos dispositivos da formação e diante da dificuldade de encaminhamentos de questões pedagógicas por estarem vinculadas ao gerenciamento
institucional. Estes cargos são ocupados por nomeações políticas, independentes de critérios pedagógicos e desvinculados do corpo docente. Consubstanciou-se tal esforço na validação das estratégias pedagógicas adotadas para o curso (mediação, tutoria) e nas atividades complementares e de pesquisa, procurando alçar as atividades de ensino a um processo de construção do conhecimento afeto ao cotidiano de sala de aula das escolas públicas do Estado. As atividades a serem desenvolvidas nas escolas-laboratórios, bem como a problemática de sala de aula de cada aluno/a, as políticas, as estratégias, o empenho e a experiência de formação ali oportunizada vêm sendo analisados, a partir de diferentes enfoques, em estudos vinculados às bases de pesquisa do Programa de Pós-graduação da UFRN, tais como os trabalhos desenvolvidos por: Baldi, 1996, 2000; Gadelha, 1997; Carrilho, 2002; O. Dantas, 2003; S. Dantas, 2003 e Virgínio, 2003, entre outros ainda em andamento.
Quanto aos recursos para o desenvolvimento da formação docente, no caso do IFESP, o sistema estadual de ensino vem arcando com a maior parte, contando, inicialmente, com a cessão de alguns professores formadores por parte da Secretaria Municipal de Educação de Natal, em contrapartida ao significativo número de professores em situação de formação no Instituto.
2.3 O Programa Estudante – Convênio / Rede Pública da Universidade Federal da Paraíba