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BULGULAR VE YORUMLAR

4.1. SÖYLEM DÜZLEMİ

4.1.1.1.3. SÖYLEYİŞTEKİ SUSUŞLAR, DURAKLARIN DÜZENİ

Participando da vida da comunidade, Beatriz descobriu-se provocada e afeiçoada pela vida da Padroeira. E através dos sacramentos e das orações que dedicava a Nossa Senhora de Nazareth, ela experimentava uma forma de se relacionar com a Santa.

Então, eu fico muito... eu fico me... eu sou apaixonada com Nossa Senhora! Sou mesmo! Sou apaixonada mesmo por ela, porque Ela é tudo, porque vale

a pena „cê fazer tudo pra Ela, em cada Ave Maria... quando a gente fica

rezando Ave Maria bem devagarinho, mas vem, parece que aquele negócio

Capítulo 03 – Análise da entrevista com Beatriz

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vai entrando na gente; vai... vai... num sei... vai incrustando... Ela tá... num tem jeito, Ela... Nossa Senhora é demais. No Magnificat19, a gente... eu gosto

muito de rezar o Magnificat, eu vejo muito essa humildade, essa coisa de Nossa Senhora, num tem... Então, eu peço Ela muito mesmo é pra me ajudar a amar Jesus como Ela amou. Ela e São José. Pra Ela me ensinar a adorar a Jesus como Ela adorou lá em Belém por... naquela situação que Eles

estavam... Porque é aonde „cê vê: é demais as coisas que Nossa Senhora...

toda a... assim, a vida de Nossa Senhora que a gente vai lendo... esse silêncio de Nossa Senhora, esse silêncio mexe com a gente20.

Beatriz explicitou por que a Padroeira era “tudo”: ao realizar a prece mariana experimentou que algo, sutilmente, ia se instaurando nela. Assim, as orações eram a forma facilitadora de Nossa Senhora chegar até Beatriz21.

Também havia outro aspecto nesse tipo de prática valorizado por ela: o fato de que, rezando o Magnificat, foi se familiarizando ainda mais com as características de Maria. Através da oração, a vida da Padroeira era revelada para Beatriz, alimentando, inclusive, a forma como realizavam os seus pedidos.

Beatriz realizava súplicas à Santa, sobretudo, nos momentos e preces sacramentais, que seria incapaz de expressar diretamente a Cristo. Nossa Senhora, portanto, era a medianeira que vinha em seu socorro.

Eu acho impossível cada eucaristia que a gente recebe, eu num falar com

Ela pra me ajudar falar com Ele, qu‟eu num sou capaz de falar. A gente num

é. A gente peleja pra falar, mas Ela mesma é que fala pra gente; porque Ela tem tudo pra falar com Ele, porque Ela é cheia de graça, Ela é plena! Ela é, né? Se entorna de graças! Então, num tem como a gente não gostar de Nossa Senhora, num tem como a gente não amar Nossa Senhora22.

19 “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus meu Salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. Sim! Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada, pois o Todo- poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o temem. Agiu com a força de seu braço. Dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu os ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando de sua misericórdia – conforme prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre!” (Lc 1, 46-56).

20

Gouveia (2001), op. cit.

21 Nesse trecho, evidencia-se a transição do fundamento da fé de Beatriz para Nossa Senhora, que vai se interiorizando nela, à medida que se utilizava do recurso oferecido pela tradição, a oração.

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Pelo sacramento da Eucaristia, Beatriz foi provocada a pedir ajuda a Nossa Senhora para falar com seu Filho. O reconhecimento de sua impotência para falar com Cristo não abalava a certeza da intercessão da Padroeira, o que aumentava sua afeição por Ela.

Ela mexe comigo lá no fundo

A oração, instrumento de relacionamento com Nossa Senhora, aparecia também nos momentos da festa, quando Beatriz dava-se conta do quanto era agraciada por Deus.

(Renata) então viver o melhor possível... (Beatriz) +23 Possível!

(Renata) ... é fazer o melhor da festa?

(Beatriz) + Fazer tudo... Eh, num tem... num adianta não, minha filha, „cê

olha pr‟ocê ver, „cê vive uma vida aí, assim, igual, você é jovem e tudo... A

vi... „cê vai vivendo a vida, assim, sem... sei lá. Sem... sem sentir. Quer dizer,

eu, às vez, eu falo isso com muitas pessoas, as pessoas riem muito de mim!

Fala assim: “mas, Nossa Senhora... „cê é muito... muito... Ih, Nossa Senhora!”. He... “rezadeira!”. Num sou, não. Num é isso, não. O que Deus

faz pra gente, a gente num vale nada! Num vale nada, não! Passa? A gente num passa, a gente vive... a gente... sei lá. A gente tinha que ser muito boa. Eu peço muito isso a Deus pra... assim, pra que a gente seja boa, porque [risos] vale a pena. [risos] Vale. A gente... sei lá. É isso aí.

[Ela começa a chorar]24.

A sua absoluta dedicação à festa aparecia relacionada, sobretudo, à consciência de que a vida poderia perder a vitalidade, ser banal e insignificante; entretanto, o que impedia isso era uma ação gratuita do Divino. Dar-se conta de que a vida era efêmera e frágil e que, no entanto, mesmo assim, a sua condição transitória não era suficiente para fazê-la desaparecer por completo, fazia nascer em Beatriz um dever, “a gente tinha que ser muito boa”, e a consciência de que, por si mesma, não era capaz de sê-lo. Dessa desproporção entre a sua vontade e a capacidade em realizar a bondade nascia a oração a Deus; que não era realizada de modo formal, ao contrário, era fruto de uma comoção pelo dar-se conta de que a sua vida era nada, porém não passava, tinha um sentido. Esse entendimento era o que tornava significativo o querer ser boa.

23O sinal “+”, nas entrevistas, indica que, enquanto um dos interlocutores estava falando, o outro falou alguma coisa e, em seguida, sem interrupção da linha de pensamento, a fala continua.

Capítulo 03 – Análise da entrevista com Beatriz

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Essa constatação que lhe vinha à tona gerava um momento de autêntica e forte emoção em Beatriz. A percepção da fugacidade da vida que, ao mesmo tempo, possuía um sentido, em função da intervenção amorosa do Divino, da necessidade de ser boa e da sua incapacidade em levar esse querer até o Cristo Salvador, conduzia Beatriz a Nossa Senhora.

(Renata) Por que que vale a pena ser boa?

(Beatriz) [continua chorando durante um tempo - Silêncio] Toda vez eu faço isso

[ainda chorando - Silêncio]. Isso é efeito de Nossa Senhora [chorando e rindo].

(Beatriz) [Agora sem chorar] Nossa Senhora num era chorona não, viu? Se

Ela fosse, Ela não agüentava o tranco, não. Eu sou chorona, viu? [Silêncio] Ai, ai [volta chorar]. [Silêncio]

(Renata) Isso é Nossa Senhora, Bia.

(Beatriz) É. [ainda chorando]. Ela mexe comigo lá no fundo, mas muito, muito

mesmo! [choro doído]. [ainda chorando e com voz tremida] Mas, eu tenho um desejo de imitar Nossa Senhora [volta a chorar e rir ao mesmo tempo].

(Beatriz) [vai parando de chorar] Sei que é difícil mesmo. Mas, eu tenho

vontade. Cada comunhão que eu faço, eu peço Ela pra me ajudar a ser boa. Vale a pena ser boa [risos]. [Silêncio]

(Renata) Vale a pena imitar Nossa Senhora?

(Beatriz) Vale [risos]! Ela doou tudo d‟Ela; isso me encanta demais. Ela doou

tudo: a mocidade, a... a... tudo! Pra nós! Então, he... Eu acho que... Acho, não. Num gosto da palavra acho. Eu tenho certeza, assim, que Ela faz tudo por nós! Num tem como, num tem como a gente não amar Nossa Senhora. Eu quero amar Nossa Senhora e fazer Ela amada. [Silêncio] [risos]. Ai, ai. Eu falei:

“Nossa Senhora, eu sou chorona”. Olha, ano passado, eu fiz... eu fiz aquela

choradeira lá, falei: “nó, assusta o povo” [risos]25

.

A bondade de Nossa Senhora, aspiração veemente de Beatriz, traduzia-se na Sua doação incondicional, na Sua renúncia à mocidade pelo bem do outro. Essa era a bondade de Maria, que chegava a ela através dos ritos sagrados, orações e atuação na festa, encantando-a. Era essa mesma bondade que tornava o amor por Nossa Senhora irresistível, bem como suscitava o desejo de fazê-La amada.

Ela num desampara a gente não

Através da sua convivência com as práticas comunitárias de Morro Vermelho, sobretudo através de sua atuação na paróquia, Beatriz mostrou como foi sendo envolvida pela

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vida simples e santa de Maria e como a sua afeição pela Padroeira estava fundamentada na certeza de que Ela não a desamparava.

(Renata) Por que que é importante amar Nossa Senhora?

(Beatriz) Ah, primeiro, que a gente sente muito bem, a gente sente muito,

assim, acolhida. É como se ocê tivesse assim no... tivesse um colo pr‟ocê

apoiar. Tivesse não, temos um colo pra nos apoiar. Porque eu acho que Nossa Senhora nos dá esse colo. E qualquer situação da vida da gente, Ela dá pra gente esse colo. Ela é que dá o aconchego pra gente mesmo. E

também porque Ela, olha bem pr‟ocê ver, Ela num tem jeito como num amar uma pessoa... É a mesma coisa d‟eu te falar assim: “‟porque que „cê ama sua mãe?”; “Uai, porque ela me deu a vida! É, eu devo minha vida a ela”;

pois é, eu amo a Nossa Senhora porque Ela deu vida pra gente po... por

Jesus. Porque, senão, a gente estaria perdido... Porque, olha bem pr‟ocê

ver, Ela assumir tudo aquilo embora tão nova, para que a gente pudesse um dia encon... ter a salvação. A chance! Uma pessoa… Ah, é gostoso demais,

uma pessoa que te abre a porta pra... na hora que „cê tá apertada, ela te abre a porta pr‟ocê entrar e ocê... te acolhe! É bom demais, eu amo Nossa

Senhora por isso e por tudo, menina [risos]! E vale a pena amar, eu acho que deve amar mesmo porque Ela num desampara a gente, não26.

A importância de amar Nossa Senhora estava relacionada ao fato de que Beatriz sentia-se amparada, sustentada por Ela em qualquer situação. E uma nova comparação elucidava a expressão do valor de seu amor devoto a Maria de Nazareth: ama-se a mãe por que ela dá a vida pelos seus filhos, no sentido de que se submete a ser um veículo que gera uma nova vida. Maria era o modelo dessa doação: ela deu a vida para todos, por Seu Filho.

A manifestação de doação por Seu Filho, Jesus Cristo, aceitando todas as implicações da maternidade divina, uma vez que carregava em seu seio o Salvador – “a chance” – é experimentada por Beatriz como demonstração de afeto, uma vez que ela tomava para si, mesmo jovem, a responsabilidade da maternidade. Maria carregava os traços de uma pessoa que não se omitia diante da necessidade de alguém, entregando-se de forma compreensiva e incondicional, ou seja, acolhendo. Uma pessoa assim era digna de ser amada, uma vez que contar com Ela lhe fazia bem.

Capítulo 03 – Análise da entrevista com Beatriz

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