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HARF KULLANIM SAYISI B

4.1.2.5. DEVRİKLEME

Pertencer de coração tratava-se de viver uma experiência de filiação, primeiramente, a um único pai, Deus. A ligação original entre todas as pessoas se daria pela relação de parentesco com Deus. Morro Vermelho se assemelharia a uma casa, um lugar geográfico, delimitando a concretude física dessa pertença.

Capítulo 04 – Análise da entrevista com Paceli

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Eu... Pertencer, assim, de coração; porque... A gente pertence, todo mundo, a Deus. Eu acho que todos nós somos filhos dum Pai só. Então, eu acho assim: é como se fosse a minha casa... [...] Não... É como se fosse a minha casa, tá? Eu chego aqui, parece que eu tô chegando dentro da minha casa, uma casa assim que parece que tem anos que eu não entraria, num entrei nela, porque ela tava com portas fechada. Então, quando eu fico muito tempo sem vim aqui, parece que abriu a porta da minha casa, que eu tô chegando dentro do meu lar. Eu sinto assim bem, como se fosse um pedacinho do céu, que eu queria tá... 54

A imagem que Paceli utilizou para descrever essa casa, possivelmente por não residir na vila, era de alguém que, adentrando-a, encontraria uma porta aberta. Essa é a representação da sua experiência de acolhimento em Morro Vermelho, considerado por ele como “um pedacinho do céu”.

Se Deus era o pai único de todos, Morro Vermelho sua casa, as pessoas que ali residiam eram consideradas a sua família.

[...] Então, é assim: é um pedacinho do céu, para mim, é a alegria, porque... eu sinto assim, que o pessoal aqui é como se fosse a minha família... como, não, é a minha família e sinto também ser filhos deles. Então, os velhinhos, os idosos, as crianças... eu adoro chegar, dar um abraço, ir na casa deles, visitar... Meus afilhados, se eu passar e num vê os meus afilhados, não visitei Morro Vermelho, num vim aqui, entendeu? Se eu não for na casa dos meus compadre, dá um abraço nos meus compadre, eu não vim aqui, eu não sinto bem, eu acho que tá faltando alguma coisa... [...]

[cumprimentando alguém: Tá bom? Beleza, Helena?] 55.

Paceli exaltou a necessidade de convivência com a sua família, de maneira muito simples: por meio de gestos de afeição e de visitas aos compadres e parentes. Habitar essa casa significava compartilhar a vida com aquelas pessoas.

A convivência familiar era um relacionamento marcado pela afeição, intimidade e familiaridade, trocados reciprocamente: eles fazem parte de sua vida, de seu coração.

Então, da outra forma, também eles, quando eu não vou na casa deles, eles

reclama: “puxa vida! Mas, ´cê veio aí, não foi lá em casa!”. Então, a gente

faz parte já. A gente faz parte duma... Igual, por exemplo... num vô dizer... num é tão assim... mas, é... Quando ocê casa, sua esposa não faz parte da sua vida? Você já num faz parte da vida d´ela? Seus filhos num faz parte?

54 Pinheiro (2001), op. cit. 55 Ibid.

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Então, assim: o povo quando te ama, faz parte do seu coração; ele é tomado pelo seu coração e você também é tomado pelo coração deles... [...] Então, é recíproca. Então, é nessa parte que eu falei que eles faz parte da minha vida, porque eles tão na minha oração... quase todos os dias da minha vida, eu rezo, eu oro por esse lugar, pelas pessoas... num vô dizer separadamente por cada um, mas quas... Eu sempre oro e coloco Morro Vermelho e algumas pessoas, que, assim, que é mais de frente, eu coloco. E tenho certeza que eles também tão sempre orando por mim, torcendo por mim56.

Paceli utilizou o sacramento do matrimônio para explicitar o que seria uma ligação recíproca, na qual a vida das pessoas tem um significado, um valor incondicional, e a oração como o instrumento fundamental de demonstração de zelo por Morro Vermelho e pelas pessoas residentes naquela vila.

A pertença de coração, assim, seria marcada pelo fato de que todos possuem uma mesma e única origem, pela existência de um local concreto, onde se compartilharia o desenvolvimento da vida, e pela convivência afetiva e acolhedora que favoreceria o aprendizado e o crescimento singular.

Dessa forma que eu acho que eu pertenço a eles de coração, de amor. Dessa grandeza que é esse lugar. Do jeito que eles me recebe, com toda a alegria. Então, eu acho que é dessa parte que eu acho que eu pertenço um pouco a eles e eles um pouco a mim57.

Morro Vermelho era mais do que um lugar delimitado geograficamente; ali a vida se expressava de uma maneira nobre e alegre. E a existência dessa grandeza e júbilo manifestava o seu pertencimento.

A grandeza espiritual que é esse lugar

A dinâmica do pertencimento, explicitada por Paceli, não seria suficiente para explicar a permanência no tempo daquele distrito. A sua grandeza espiritual, sim, era o que salvaguardava aquele lugar.

56 Pinheiro (2001), op. cit. 57 Ibid.

Capítulo 04 – Análise da entrevista com Paceli

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(Renata) Quando ´cê fala assim dessa grandeza daqui, quê que ocê quer

dizer com isso?

(Paceli) A grandeza...

(Renata) A grandeza desse lugar?!...

(Paceli) ... espiritual. A grandeza espiritual, a grandeza do amor de Deus, a

presença realmente da Virgem Maria. Quantas pessoas simples! Quantas pessoas tão lindas! Quantas pessoas que são incapazes de falar qualquer coisa que seje pra mi magoar, qualquer coisa que seje pra mi ferir, um palavrão que escandaliza, que se... seriam capazes de escandalizar os olhos duma criança. Que... são pessoas que respeitam verdadeiramente Deus no s... na sua mente, no seu corpo, no seu coração, na sua vida, em todas as partes da sua vida, a pessoa procura se preservar aquilo que Deus quer: o respeito. Então, eu assim, eu admiro demais, eu admiro muito, eu acho muito lindo essas pessoas que vivem pra amar, que entrega de coração e alma58.

Essa grandeza espiritual era o que gerava a existência de Morro Vermelho, bem como a sua maneira de existir. E o que a edificava era a presença do amor de Deus e da Virgem Maria.

O fundamento construtivo desse amor divino expressava-se por meio do relacionamento entre as pessoas daquela comunidade, no como concebiam o seu corpo, o seu coração, a sua vida, alimentados por esse amor de Deus e pelo que Ele queria: o respeito. Este se traduzia, sobretudo, no amor, ou seja, na dedicação integral de toda a vida para amar.

[risos] Acredito que aqui é a minha casa. Ela já demonstrou isso pra mim. Porque eu sou alegre, eu gosto de sair, eu gosto de dançar... tocar música, cantar, brincar, visitar, e lá eu não sei sair de dentro da minha casa... E lá [Belo Horizonte] eu não sei sair de dentro da minha casa... não sei... não consigo... não confio em ninguém lá... Não é assim – “em ninguém” –, eu sei que existe muitas pessoas maravilhosas ali dentro, sei que existe muita gente boa, sei, tenho certeza disso... [...] ... mas, lá é uma vida corrida, uma vida diferente, não é igual aqui, não. Nem é uma vida pra quem quer viver, a amar a Deus e encontrar todas as portas abertas pra servir a Ele59.

A maneira como Nossa Senhora confirmava essa pertença de Paceli a Morro Vermelho estava relacionada à sua sensação de bem-estar e a sua liberdade de expressão; em contraposição, a vida na capital, que não se ordenava pelo amor a Deus e pela sua devoção, cuja desconfiança disseminada entre os relacionamentos era, para Paceli, uma grande dificuldade; embora afirmasse a existência de boas pessoas naquele local.

58 Pinheiro (2001), op. cit. 59 Ibid.

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Eu tenho certeza que Ela guarda esse lugar

Em Morro Vermelho, local sustentado pelo amor de Deus e da Virgem de Nazareth, Paceli fez a experiência de sentir-se certo de Seu cuidado e Seu carinho, expressão de afeto esta vivenciada em unidade com as demais pessoas daquela comunidade.

Ó... é um... uma coisa que a gente que criou e aprendeu a amar Ela, tá? A gente chega aqui dentro, a gente sente proteção... parece que ocê... é

igual eu te falei: “eu tô dentro da minha casa”. Eu tenho certeza que Ela

tá, que Ela guarda esse lugar, eu tenho certeza que Ela toma conta das pessoas, que Ela realmente administra esse lugar, tá? E, eu tenho certeza que todos nós aqui sentimos a mesma coisa, o mesmo carinho d´Ela... Ela tem muito carinho com nós... não é a nos... Eu falo Nossa Senhora de Nazareth, porque é a padroeira daqui, é a Virgem Maria, Ela tem muito carinho com as pessoas d´Ela. Então, Ela... dá a gente assim uma tranqüilidade muito grande, dá a gente assim uma alegria muito grande de ter nascido aqui... e a alegria maior que eu te falei é no sentido de ter conhecido Deus aqui, ter conhecido Deus através das palavras dos meus pais que amava Ela, ter conhecido Deus através do sentido do amor da Virgem Maria, ter conhecido Deus através da oração, através das festas d´Ela, dos exemplos que Ela deixou, no trabalho bonito que Ela implantou, a viver pra servir a Deus, falando pra Deus igual Ela falou:

“Eis aqui a escrava do Senhor”. Se Ela própria falou... “Eis aqui a

escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa Palavra”, é porque Ela era realmente uma pessoa grande, uma pessoa que tinha um Deus muito grande dentro do coração60.

A satisfação e gratidão por ter nascido naquele lugar estão ligadas à forma como Paceli conheceu a Deus. A familiaridade com a vida de Maria significou aprofundar o sentido de Seu amor expresso nos exemplos que Ela deu e na Sua simplicidade em aceitar, confiar e se dedicar, integral e incondicionalmente, ao serviço de Deus.

Segundo Paceli, essa autenticidade alcançada dentro de si, exemplificada na postura da Santa, confiando-se ao objeto de seu amor, com simplicidade, certa de seu valor, indicava um coração tomado por esse amor: ali habitava Deus. Assim, tocada em seu centro, essa pessoa estaria pronta para servir e gerar formas de amor que transformassem o ser humano, como a Padroeira.

Quando a pessoa chega a essa verdade, dentro do seu coração, que ele se entrega a Deus... [Tá bom? - cumprimentando alguém que passou]... quando ele chega a se entregar a Deus duma forma tão simples, mas de

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tanto valor, tão grande, é porque realmente Deus está ali morando... fez uma morada dentro do seu coração. Então, essa pessoa está prestes a servir a humanidade, essa pessoa está prestes a servir os amigos, ela tá prestes a criar alguma forma do amor, a criar alguma coisa pra te transformar. Então, eu acredito que Nossa Senhora, Ela zela por esse pessoal aqui. Eu acredito que Ela é realmente a nossa medianeira de todas as graça, que Ela intercede a Deus por cada um de nós. Então, eu que sou pai de família, eu tenho certeza que Ela também está zelando pela minha família, tá? Como Ela zelou pelos meus pais. Hoje, Ela zela por cada um de nós. Então, nesse sentido é que eu sinto muito bem dentro da minha casa, porque eu sinto a presença das pessoas mais importantes. E a primeira presença que eu sinto dentro dessa casa de Morro Vermelho, é a presença de Deus, é a presença de Jesus Cristo, é a presença da Virgem Maria, de muitos santos... 61

Deixando-se tocar pela Padroeira, pelo seu amor-serviço, expresso em tantas formas citadas por Paceli, o amor supremo de Deus poderia alcançá-lo. Atingido por esse amor, seria inevitável que ele o propagasse, favorecendo mudanças. Essa é a forma como a Padroeira zela por todos: intercedendo a Deus por cada um, protegendo e difundindo esse amor.

A pertença de Paceli, caracterizada pelo “sentir-se bem em casa”, decorria, sobretudo, do reconhecimento de pessoas, valorosas, que eram para ele sinal evidente desse Amor. E Deus, Jesus Cristo e Nossa Senhora eram os primeiros que se encontravam na porta, esperando por ele chegar.