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BULGULAR VE YORUMLAR

4.1. SÖYLEM DÜZLEMİ

4.1.1.1.1. SÖYLEYİŞ EZGİSİ

que emolduravam as lembranças de Beatriz, ao descrever quando e onde aconteceu o seu contato inicial com a Padroeira.

Ah, isso... desde pequena, né? porque, não tem... quer dizer... aqui pequ... muito pequeno. E também isso foi em casa. Tudo brota dentro de casa mesmo; não tem outra... num tem outra explicação1.

Em Morro Vermelho, Beatriz2 sinaliza que os primeiros indícios de proximidade com

1 GOUVEIA, B. S. X. N. Beatriz Sales de Xavier Nogueira Gouveia: depoimento [set. 2001]. Entrevistador: R. A. Araújo. Morro Vermelho: Igreja Matriz, 2001. 1 fitas cassete (60 min). Entrevista concedida a Renata Amaral Araújo. 2

A entrevista com Beatriz aconteceu dia 07 de setembro de 2001, à noite, após o término da Cavalhada, dentro da igreja matriz da cidade, no momento em que ela, junto a outras festeiras, limpava e iniciava as ornamentações do local e do andor de Nossa Senhora de Nazareth, preparando aquele espaço para a chegada dos romeiros e devotos no dia seguinte, quando aconteceria a missa em latim, pela manhã. Para o registro, utilizamos gravador e fitas cassete, não havendo oposição da entrevistada, que se encontrava muito a vontade para aquele momento. Essa conversa teve a duração de mais ou menos uma hora, sem interrupções e maiores comprometimentos técnicos para a entrevista, apesar da grande movimentação em função da organização interna do lugar e da presença de algumas pessoas que se encontravam realizando suas preces e se despedindo da Santa. Essa entrevista encontra-se analisada em sua integralidade (Araújo, 2003).

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Nossa Senhora aconteceram na infância e, principalmente, no âmbito familiar. Este era o ambiente no qual “tudo” era gerado.

Na casa de Beatriz ficava evidente que Nossa Senhora de Nazareth tinha uma importância fundamental; era Ela quem ajudava, quem protegia. De fato, em sua casa, a Padroeira associava- se a uma presença benéfica que oferecia auxílio e promovia “ambiente de muita oração”.

E... assim l‟em casa, toda vida foi assim: tudo quanto há era Nossa Senhora

de Nazareth. Num tinha... num tinha mesmo... é que tudo quanto há era

“Nossa Senhora de Nazareth que ajudava”, “Nossa Senhora de Nazareth que protege”, é “Nossa Senhora de Nazareth que ajuda”; e também, assim,

a gente cresceu, assim, num ambiente, assim, de muita oração. Porque igual, por exemplo, a reza do terço l‟em casa era... é toda noite, toda noite. Todo mundo tinha que reunir mesmo e todo mundo tinha que rezar. Às vez, a gente... o medo vinha... meio lá... com sono, mas todo mundo tinha que rezar. E quando era dia de quarta-feira e sábado era o ofício de Nossa Senhora, a gente tinha que ficar de joelho, num era... mamãe... A gente num dizia que a gente rezasse o ofício de pé, sentado, deitado, num admitia, né?3

A fidelidade à reza do terço, o cuidado com a postura das crianças nesse momento e a insistência pela seriedade na participação desses gestos exaltavam o valor que aquela devoção tinha para a família de Beatriz.

A devoção de seus pais aos trabalhos da igreja era fundamental para a sua vontade de trabalhar na festa.

(Beatriz) [...] Eu tenho vontade de trabalhar mesmo pra Igreja; pode ser na

festa, por conta de festa, mas eu tenho vontade de trabalhar; porque foi isso

qu‟eu vi dentro de lá de casa.

(Renata) Quê que „cê viu dentro de casa?

(Beatriz) esse trabalho... toda vida, papai e mamãe, toda vida gostaram

muito de ajudar em tudo que puderam da Igreja, sabe? Toda vida, nunca

mediram esforço: “Ah, o padre chegou, tá precisando de servir o padre lá, arrumar um almoço, uma janta, um café? Então, vamos lá”. “Então, o padre tá precisando d‟uma cama lá. Uai, é bom, s‟ele quiser ir dormir l‟em casa, ele pode dormir, s‟ele num quiser, nós vamos arrumar um lugar pra ele dormir, ou eu vô arrumar um lugar que ele queira dormir, né?”. Quer

dizer, depois... he... Pira [vaso em que arde um fogo simbólico – Dicionário

Michaelis], igual l‟em casa: mamãe fazia hóstia, mamãe fazia vela, mamãe

foi zeladora, mexia com as toalha toda da igreja, lavava, engomava, passava tudo, aquela alegria toda! Né?! Quer dizer, valeu a pena! Valeu a

Capítulo 03 – Análise da entrevista com Beatriz

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pena! Foi ótimo, né?! Então, eu acho que o que a gente tem que fazer é seguir o que a gente viu e sabê que vale a pena4.

Diante de uma solicitação que era feita aos pais de Beatriz – como arrumar almoço ou receber o padre –, ela se deparava com uma disponibilidade sem restrições. O esforço empregado para realizar esse acolhimento de forma aprazível é lembrado, sobretudo, sob a ênfase de que eles faziam tudo para prestar o auxílio que lhes era pedido da melhor maneira possível. O envolvimento de sua mãe nas atividades corriqueiras também é destacado como uma exemplificação desse devotamento ao trabalho, como um serviço incomensurável prestado à igreja. O modo como seus pais trabalhavam é, para Beatriz, algo valioso e que precisava ser seguido5.

Convivendo e compartilhando esses momentos com seus familiares, Beatriz deu-se conta de que recebeu algo muito importante e que permanece independente de circunstâncias externas: a “base” que lhe foi dada está enraizada em Beatriz.

Quer dizer que... Foi uma coisa que foi crescendo e foi e uma coisa muito

forte porque... olha bem pr‟ocê ver: eu saí de casa eu tinha nove anos

porque, assim, eu saí do grupo que aqui só tinha até 3ª série primária, então

eu fui pra Caeté morar com minha irmã, pr‟eu fazer a 4ª série lá; quer dizer,

olha pr‟ocê ver, que até... quer dizer, foi feita a base, num é?6

Seus pais procuravam ativamente incutir-lhe aquilo que era “bom”, e Beatriz se recorda do cuidado e dedicação de seus pais como expressão do intuito que eles tinham em lhe proporcionar um bem.

O que eles puse... puderam... o que papai e mamãe puderam colocar em mim de bom, eles colocaram; quer dizer, a gente sempre frisa muito: eu, hoje, mais do

que nunca, eu vejo essa... como que é importante a família, com‟é que é

importante plantar o que é bom e a gente num pode perder tempo. Porque é um tempo precioso; a gente perdeu aquele tempo... depois, quer dizer, o que foi... aí... quer dizer, eu tive a graça de ter tido papai e mamãe que me incutiram, apesar da simplicidade, apesar de num ter coisa... mas tinha perto7.

4 Gouveia (2001), op. cit. 5

Beatriz, convivendo e compartilhando esse ambiente familiar, começa a se despertar para um sentido fundamentalmente importante para a sua vida: o servir.

6 Gouveia (2001), op. cit. 7 Ibid.

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Esse reconhecimento aparece carregado de uma tensão: “a gente num pode perder tempo”. O “tudo de bom” aconteceu dentro de uma situação simples, sem recursos e que poderia não ter acontecido. A consciência dessa excepcionalidade é experimentada como uma graça8.

Para Beatriz, os filhos nasciam não apenas com os traços físicos, mas recebiam também as graças que seus pais tiveram, o que demonstrava que ela se sentia ligada a eles não apenas pelos laços de sangue, mas também pelas graças que eles recebiam.

Eles puderam passar isso pra mim; quer dizer que, então, num tem como...

num tem, he... como „cê... „cê viveu ali, he... raiz mesmo... é, negócio, parece

até incutido na gente. Parece, assim, eu sempre tenho falado, assim, muito com Celso que eu acho interessante que, com a gente, nasce não só com os traços físicos dos pais, mas a gente nasce com a... parece que com um pouquinho dos dons que eles têm... da graça que eles têm... a gente acha... eu acho que a gente recebe também9.

A noção de filiação, nesse sentido, é ampliada pela dádiva que também a eles foi concedida: há um alargamento na concepção de herança e começa aparecer a noção de que a sua vida era sustentada por algo que transcendia possíveis determinações.

3.2. A gente vai percorrendo a vida de Nossa Senhora (...), ela cativa a gente