constatado o conteúdo discriminatório com base no gênero presente em muitos dispositvos penais, busca-se avaliar os diversos movimentos que contribuíram para que o tema entrasse na pauta das discussões atuais. esses movimentos, fundados em teorias crí- ticas, entendem o Direito como um instrumento de transformação social, isto é, um meio de inclusão de pessoas originariamente des- protegidas, portanto, o Direito visto como uma forma de implanta- ção da justiça social. assim, esses movimentos defendem a neces- sidade de romper com a mera reprodução acrítica do saber jurídico.
Antônio Alberto Machado explica que as correntes críticas do Direito buscam realizar uma “interpretação transcendente da or- dem normativa”, isto é, são orientadas pelo critério da inclusão so- cial, visando fazer do Direito um dos “[...] instrumentos de transfor- mação sociopolítica, econômica e cultural” (Machado, 2009, p.29). no entanto, é preciso salientar que os ordenamentos jurídicos, em
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geral, sempre foram tidos como mecanismos de manutenção da or- dem, sem qualquer compromisso com a transformação social.
inicialmente, propomos uma análise da criminologia tradicional, considerada a ciência que estuda o delito, o delinquente, a vítima e o controle social dos delitos. assim, inclui, entre outras, áreas do co- nhecimento como a Sociologia, a Política, a economia e a Psicologia.
originalmente, a criminologia possuía quatro pilares princi- pais: o conceito legal de delito não questionado, as teorias etiológicas da criminalidade, o princípio da diversidade patológica do homem delinquente e os ins conferidos à pena, como resposta justa e útil ao delito (García-Pablos de Molina; Gomes, 2008, p.66). A Crimi- nologia tradicional justiicava etiologicamente a clientela do sistema penal airmando que os criminosos eram indivíduos com alta carga de periculosidade, com maior tendência a cometer crimes. Depois, surge a criminologia crítica para romper com o senso comum que não se aprofunda nas raízes dos problemas e que parte do pressupos- to de que o sistema penal protege os interesses próprios das classes dominantes, mantendo o status quo e perpetuando a desigualdade social. nesse sentido, o pensamento crítico abre um diálogo com as determinantes sociais do fenômeno jurídico. As teorias críticas são sensíveis aos problemas reais da sociedade, e comprometidas com a transformação democrática (Machado, 2009, p.28).
Para Paulo césar corrêa Borges, a transformação democrática é a inalidade primordial das teorias críticas e está intimamente li- gada à inclusão de todas as pessoas às condições mínimas de uma existência digna, visto que a desigualdade social no Brasil é gritan- te e deve ser, portanto, combatida. apenas dessa forma é que será implementada a igualdade material, a essência do estado democrá- tico. o autor conclui que o Direito Penal poderá ser considerado democrático desde que não seja utilizado como “[...] instrumento de opressão de classes sociais subalternas e alcance todas as classes sociais na mesma proporção” (Borges, 2005, p.19).
Sob esse aspecto, a criminologia crítica tem um programa alter- nativo de política criminal, visando humanizar o sistema penal. ales- sandro Baratta trata do mito do Direito Penal como “direito igual por
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excelência”, e revela que o Direito Penal é tão desigual quanto os de- mais ramos do Direito burguês e, ao contrário do que aparenta, é o “direito desigual por excelência” (Baratta, 1999, p.162).
Por conseguinte, importa situar a entrada do movimento femi- nista no âmbito da criminologia crítica, pois foi responsável por re- vitalizar a discussão sobre o emprego do Direito Penal como instân- cia simbólica, na qual ocorre uma valorização dos problemas femi- ninos. Portanto, é preciso destacar a contribuição da criminologia crítica, que, ao incorporar a perspectiva de gênero, revelou a visão predominantemende masculina nos conceitos jurídicos. a entrada em cena do movimento feminista foi muito importante, pois contri- buiu para a ampliação e o reinamento do objeto de estudo da Cri- minologia crítica ao veriicar que a seletividade presente no sistema penal, num primeiro momento, não abrangia a desigualdade de gê- neros, mas somente a desigualdade de grupos e classes.
Assim, as criminólogas feministas airmam que, quando o Di- reito Penal exclui o gênero “mulher” do seu objeto, exclui o con- trole social, a criminalidade e a criminalização de metade da popu- lação, formada por mulheres. a criminologia feminista, ao entrar no campo penal, situou as categorias de patriarcalismo ao lado do capitalismo, as relações de gênero ao lado da luta de classe, e as for- mas de dominação masculinas sobre a mulher ao lado da dominação classista.11
a introdução da questão de gênero na criminologia crítica sig- niicou uma dupla contribuição: uma maior compreensão do fun- cionamento do sistema penal, e também mostrou que, sob o apa- rente mito da neutralidade e do tecnicismo com o qual são aplicadas as normas e são formulados os conceitos jurídicos, há uma visão predominantemente masculina (ibidem). o movimento feminista percebeu a necessidade de também se inteirar das questões bioéti- cas, após ser constatada a reprodução do viés hierárquico de gênero, classe e raça. assim, começaram os debates sobre a vulnerabilidade das mulheres. a desigualdade social, inclusive com base no gênero, foi airmada como instância necessária para uma relexão bioética.
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em suma, tanto a criminologia crítica como a Bioética crítica, em suas vertentes feministas, revelaram que não é somente durante o processo que o sistema penal atua com seletividade em relação às mulheres, visto que a discriminação está presente até mesmo na criação de tipos legais, em virtude da estereotipia.