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BÖLÜM 2: YENĠ ÇAĞ DĠNĠ AKIM TÜRLERĠ

2.1. Ezoterik ve Neo-Pagan Kökenli Akımlar

2.1.1. Rael

[Na época da CERVIN] Aqui era tudo assim, dividido, como se

fossem duas fábricas, uma do Metal Duro e outra da Ferramentaria. Aqui [no controle de qualidade] tinha placas nas portas dizendo assim: ‘proibido a entrada de pessoal do Metal Duro’, de do outro lado o contrário: ‘proibido a entrada de pessoal da Ferramentaria’, eles faziam isto de propósito, para dividir, jogar um lado contra o outro. (Marcos)

É raro que os cooperados da UNIWIDIA refiram-se à área produtiva da cooperativa como “a fábrica” e, quando acontece, geralmente são cooperados da “Administração” que estão falando, pois como foi explicado anteriormente, a fábrica da UNIWIDIA está dividida em três setores: Ferramentaria, Metal Duro e “Fornos”.

O mais freqüente é que os cooperados diferenciem na produção a Ferramentaria do Metal Duro, caracterizando estes “setores” de maneiras distintas, seja pela qualificação dos trabalhadores, maior na Ferramentaria, seja pela integração destes, julgada maior no Metal Duro, seja pelas brigas cotidianas, consideradas mais comuns na Ferramentaria etc. Milton, cooperado do Metal Duro, discorre sobre as brigas na Ferramentaria:

São 23 anos aqui e é sempre assim lá [aponta com os olhos para a

Ferramentaria]: discussão, briga, leva e traz. Tem muito leva e traz44 lá. 23 anos que é assim, é difícil mudar uma coisa que sempre foi assim, tem muito entrega-entrega45, por nada vai lá contar para a administração. Aqui não, aqui a gente pode trabalhar tranqüilo, pode conversar o dia todo, desde que faça o trabalho não tem nenhum problema. Lá [na

Ferramentaria] é difícil, imagina esta peça, eu plaino aqui, aí ele [olha para o Paulo] corta, aí volta para mim e eu dou a altura, aí vai para ele e

volta de novo para mim. Imagina se a gente não conversasse, pusesse a peça aí em cima e deixasse, tem medida, tem que conversar.

Milton apontou, no final de sua fala, para uma dificuldade na produção oriunda das dificuldades de comunicação e relacionamento entre os cooperados, que desta maneira tornam mais complicado o processo de trabalho. Waldir, coordenador do Metal Duro, também considera os efeitos na produção ao comentar sobre “o lado de

lá, do outro lado da parede”, a Ferramentaria:

Lá do outro lado é assim, fica um olhando o trabalho do outro, vigiando, quando um termina o trabalho e pega outra máquina, depois vai um reclamar que a máquina é dele. Lá tem muita vaidade pessoal, que eu sou isso, que eu sou aquilo... Aqui no Metal Duro não, acho que aqui é melhor como cooperativa. Olha pelo semblante das pessoas, é mais tranqüilo, cada um sabe que é importante para o todo, quando acaba o trabalho vai procurar outro. Acho que é você que tem que ir atrás do trabalho, e não o trabalho que tem que ir atrás de você.

Waldir ressaltou outro aspecto. Além da comunicação, indispensável para a coordenação do trabalho entre os cooperados, também a atitude “ir atrás do

trabalho” está, segundo ele, comprometida pelo personalismo dos cooperados na

relação com as “suas máquinas”.

Tanto na Ferramentaria quanto no Metal Duro cada trabalhador tem lotes de peças por fazer. Trabalhando em uma ou mais máquinas, ao término do lote as peças são por ele repassadas para outro trabalhador e, se houver outro lote, ele continua lá, caso contrário sai em busca de trabalho, procedimento que é freqüentemente considerado mais comum no Metal Duro que na Ferramentaria. Este fato por si

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“Leva e traz ” é a pessoa que realiza o “entrega-entrega” (ver próxima nota), é aquele que vai até ao Conselho de Administração contar o que está acontecendo na fábrica.

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“Entrega-entrega” é como é chamado o ato de informar ao Conselho de Administração sobre algo que está ocorrendo na fábrica. Podem ser temas de “entrega-entrega”: algum cooperado que não está trabalhando, alguma discussão entre os trabalhadores, algum erro cometido por alguém etc.

poderia ser considerado como mais uma diferença de atitude entre os cooperados de cada lado, entretanto, o Metal Duro parece contar com um artifício técnico que colabora para esta cooperação, o exaustor. É o que mostra Edílson:

Quando liga isso aí [o exaustor] todo mundo tem que trabalhar, porque senão gasta energia à toa. Aí quando alguém termina antes o trabalho, corre pra terminar o do colega, para assim poder desligar o exaustor antes também. Porque para ficar um só trabalhando com o exaustor ligado, não vale a pena.

Almir, na época coordenador da Ferramentaria, também se refere ao “outro

lado”, ao falar do déficit de cooperados na Ferramentaria, coberto em parte pelos

cooperados do Metal Duro. Alguns destes cooperados (como no caso de Sérgio) foram posteriormente transferidos para a Ferramentaria. Almir fala:

O pessoal ficava encostado, lendo um livro, conversando, fazendo roda46 e atrapalhando, principalmente o pessoal do Metal Duro, daí nós conscientizamos e treinamos o povo para a Ferramentaria, assim, sempre tem gente do Metal Duro, da expedição, que cobre a falta na Ferramentaria.

Waldir confirma que os cooperados do Metal Duro têm ido, freqüentemente, trabalhar nas retíficas da Ferramentaria: “Ao menos no Metal Duro, a gente sempre

procura não deixar um engargalado e o outro sentado, um procura desembaraçar o outro. Nas retíficas, por exemplo, a pessoa vai sem problema nenhum”. Waldir

considera, como os demais, uma transferência do Metal Duro para a Ferramentaria como uma promoção, uma possibilidade para o trabalhador “visualizar mais longe”:

Teve pessoas que trabalhavam no setor [Metal Duro] e foram para a Ferramentaria. Várias pessoas estão lá, fazendo outras funções. Isso aí é uma coisa que jamais poderiam imaginar, que iam trabalhar na máquina. Inclusive até incentivou que eles retornassem à escola. Um incentivo, uma máquina, leva a pessoa a visualizar mais longe.

Além das diferenciações entre as atitudes dos cooperados de um lado ou de outro, são comuns também acusações recíprocas. Waldir conta que:

Já teve reunião em que teve gente de lá dizendo que eles fazem trabalho fino, de milésimos, e que por isso devem ganhar mais, que são melhores. E que aqui no Metal Duro é só prensa, que na usinagem é coisa de

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“Fazer roda” é quando os trabalhadores se juntam para conversar sobre um assunto qualquer durante o horário de trabalho, esteja ou não o assunto relacionado à cooperativa.

décimos, diminuindo a gente. Uma vez, no início da cooperativa, teve quem dissesse até que aqui no Metal Duro a gente usava fita métrica, dessa de costura, para medir.

Apesar destas acusações e diferenciações não existe, efetiva ou oficialmente, uma relação conflituosa entre a Ferramentaria e o Metal Duro, que seria considerado um conflito político de grande ordem. O que existe são boatos sobre os trabalhadores do

“outro lado da parede”, sobre o clima de trabalho etc., daí ser considerada uma

questão velada, junto daqueles temas tratados como “fofoca”.

Considerar esta política apenas como “fofoca” seria, contudo, uma leviandade, visto que as imagens que cada lado criou e alimenta sobre o outro são importantes, pois estão presentes no cotidiano da cooperativa e são utilizadas por todos, inclusive pela Administração, influenciando nas decisões da cooperativa. Eucélia, na extensa fala abaixo, mostra quais são estas “imagens” que circulam pela cooperativa:

Entre administração e fábrica, existem mesmo essas visões em que a administração é vista como: “os gravatinhas, que não fazem nada, só ficam sentados”. Tem ainda a visão sobre o Metal Duro: “as pessoas que trabalham no Metal Duro não são especializadas, então portanto não tem o seu merecimento”. No Metal Duro, eles [os trabalhadores] são mais tranqüilos, eles trabalham mais fechados (...), eles são mais amigos entre eles. A Ferramentaria não, existe muita desunião entre eles, ali na Ferramentaria é individual, cada um por si e Deus por todos. No Metal Duro não, existe uma união entre eles, eles trabalham em conjunto, mesmo porque acho que o serviço exige isso. Não sei explicar, eu sei que eles são unidos, trabalham em conjunto, enquanto um tiver com a máquina ligada, todos estão ali tentando ajudar no que for possível. Na Ferramentaria não, é individual mesmo, eles trabalham sempre um criticando o outro, deles mesmos, eles falando deles mesmos.

Correspondam ou não à realidade, visto que também demonstram algum conhecimento sobre as diferenças no processo produtivo em cada setor, estas e outras imagens sobre os setores da cooperativa circulam pela Administração e influenciam nas decisões, sobretudo nos momentos de definição sobre mudanças de cargo e promoções. A fala de Alexandre indica que “ver como a administração” é necessário para compreender as decisões tomadas:

Quando eu não era coordenador e não fazia parte da administração, muita coisa eu já via como a administração, até por essa proximidade

que eu tinha com o conselho, com as pessoas. Eu estava trabalhando na máquina mas eu tinha consciência do quão difícil é, muitas vezes, você ter que abrir mão [do seu lado em uma decisão sobre promoções].

Ver como a administração significa, neste caso, considerar nas negociações sobre promoções os aspectos vinculados à viabilidade econômica do negócio, submetendo ao cálculo desta viabilidade as decisões quanto aos benefícios e/ou melhorias que os cooperados julgam que a cooperativa pode lhes proporcionar.

É possível, em qualquer negociação, assumir a posição de um dos lados deste triângulo (ver figura 14) composto por Administração, Metal Duro e Ferramentaria, visto que todas as posições são legítimas e falam de interesses reais dos cooperados.

Figura 14: Conflitos entre instâncias da cooperativa

Apesar da Administração não ser imparcial nas negociações, uma vez que assumiu o papel de guardiã da viabilidade do negócio (e não poderia deixar de fazê- lo), seus posicionamentos possuem um poder diferenciado, funcionando como uma espécie de “voto de Minerva” nas resoluções de conflitos entre as partes. O papel da Administração na resolução de conflitos, entre outros aspectos relativos às negociações entre cooperados, será tratado no próximo capítulo.

Administração

Ferramentaria Metal Duro