BÖLÜM 2: YENĠ ÇAĞ DĠNĠ AKIM TÜRLERĠ
3.2. Vahiy
3.2.3. Ġslamiyet‟te Vahiy
Os coordenadores, que estão lá o dia-a-dia com o pessoal, que dizem: “acho que esse aqui merece, que esse aqui não merece, não é o momento, dá para esperar mais um pouco”. E é colocado e levado numa assembléia, se é aprovado, bem, se não é... (Aziel)
Fora a correção anual da remuneração dos cooperados, conforme o dissídio da categoria (metalúrgicos), a UNIWIDIA conta com um processo anual de avaliação do trabalho dos cooperados para a realização de promoções. Estas promoções são, geralmente, mudanças de máquina ou de setor, em que os trabalhadores promovidos assumem atividades mais complexas ou de maior responsabilidade, recebendo em contrapartida retiradas também maiores.
Estas mudanças são decorrentes de necessidades da cooperativa, não de acordos ou decisões políticas, e estão orientadas a equacionar problemas na produção, como a saída de cooperados ou mudanças na demanda de peças pelo mercado. Alexandre conta um caso:
Por exemplo, tinha três que trabalhavam no torno e dois na retífica plana. O que aconteceu? Um rapaz da retífica plana resolveu sair [da
cooperativa] e na área de retífica plana nós estamos com (...) falta de
pessoas, a gente tinha mais máquinas que pessoas. Aí a gente verificou na área do torno, que era possível tirar uma pessoa do torno para trazer para a retífica plana, que aquelas duas que iam permanecer no torno iam dar conta do serviço que três estavam fazendo, e aqui onde tinha uma pessoa só fazendo o serviço da plana, poderia fazer uma recolocação. Então essa pessoa saiu do torno dela, ela veio para a retífica plana, somou junto com o outro que já tinha e agora tanto a retífica quanto o torno ficam cobertos e o problema está resolvido.
O processo de reconhecimento e avaliação do trabalho dos cooperados, entretanto, é um dos procedimentos que mais causa conflitos na fábrica, visto que reserva aos coordenadores a indicação daqueles que, como disse Aziel, merecem ou não tais promoções, e à assembléia, onde estão todos os cooperados, a ratificação ou não, destas indicações. Waldir (coordenador do Metal Duro) explica este processo:
Na cooperativa cada função tem o seu núcleo, a gente se baseia [para
avaliar] na participação em cada núcleo, que tem maquinários, funções.
Então a pessoa é avaliada naquela parte, se for avaliar entre A, B ou C, eu não coloco ninguém no A, nem eu, porque todo mundo é falho, se o
cara for A é mestre. A gente tem o B sempre para alcançar o A, a gente sempre luta para alcançar o reconhecimento, em todas as áreas. Aqui dentro é assim, todo ano, quando possível, (...) vai aumentar um pouco a despesa [com pessoal], sabendo que está limitada a uma certa importância. À medida em que se senta na mesa e é avaliado que tem condições de abrir um espaço para poder dar um benefício para alguém, isso é feito. [A indicação] é levada para assembléia também, não é decido pela diretoria, é apontado. (...) Vai para a assembléia e os outros vão discutir, se tem alguém contra, se tem abstenção ou se tudo bem.
Eucélia resume o procedimento formal de promoções:
Agora vai ter outra discussão de salário, eles pediram para rever o salário de alguns que estão ganhando menos e às vezes trabalham mais ou mudaram de setor. Vai ser assim: nós decidimos que será em uma reunião com os coordenadores – mais um trabalhador por setor – em que cada coordenador vai indicar aqueles que merecem o aumento e depois isso vai passar por assembléia.
Como foi visto anteriormente, o clima de trabalho na fábrica é bastante conflituoso, devido sobremaneira à vigilância recíproca que os cooperados mantêm uns sobre os outros, observando e avaliando o trabalho do companheiro. Anualmente, na época em que são decididas as promoções, este clima hostil se agrava, já que o tema se torna “o assunto da vez”, e que ocorre uma supervisão entre os trabalhadores para saber se quem foi indicado merece ou não tal indicação.
A decisão por este procedimento, no entanto, se deu para evitar que os cooperados fossem diretamente à administração falar que este ou aquele cooperado deveria receber uma promoção, visto que, neste caso, a indicação final, realizada pela administração, poderia não apenas não coincidir com a do coordenador do setor, como também ser interpretada como favorecimento. Alexandre justifica:
Para mudança de setor ou para reconhecimento da área que a pessoa está, para uma promoção, tem o conselho de administração junto com os coordenadores, porque o coordenador, ele está no setor. (...) Eu sou coordenador, eu é que estou vendo aquele lado. (...) Geralmente é feita uma vez por ano essa avaliação, e fora isso a gente tem cumprido todo ano o dissídio da categoria.
Alguns casos de mudança de setor serão relatados para ajudar na compreensão do processo e também para tentar alcançar o que significa, para um trabalhador da UNIWIDIA, ser ou não ser promovido para uma atividade considerada melhor.
Alexandre e Daniel, nas falas abaixo, contam o processo de promoção de Sergio do Metal Duro para a Ferramentaria, do torno de grafite para a retífica plana. Alexandre diz que “A gente teve algumas mudanças, principalmente no final do ano. (...) Foi
assim, uma pessoa que trabalhava no torno e foi para uma retífica plana, é uma boa guinada, é tudo na área de mecânica, mas o serviço é completamente diferente”.
Daniel conta quais são os trâmites das promoções, através dos casos de Sérgio e dele próprio:
O Serginho, (...) ele era do Metal Duro, trabalhava no grafite, só torneando o grafite. Agora ele está operando a retífica plana, que é bastante serviço. (...) Essa decisão foi tomada pela administração, vendo a necessidade, e ele também se prontificou a exercer essa função. Numa assembléia foi apresentado e todo mundo aceitou, são os trâmites. É que nem no meu caso, eu estou sendo passado aqui para a frente, na área de orçamento, então juntou todo o pessoal da Ferramentaria e passou para eles: “a partir de agora o Daniel vai estar treinando orçamento para no futuro ele exercer essa função.
Outro exemplo é o de Marcos, que trabalhava no Metal Duro e assumiu, em 2002, o Controle de Qualidade dimensional das ferramentas produzidas na Ferramentaria. Eis o relato dele sobre o processo de promoção:
Eu não era deste lado, era lá do Metal Duro. Pensei que eles não iam querer alguém do Metal Duro aqui, tinha gente da Ferramentaria que queria vir para cá, mas ninguém foi contra. Vai fazer um ano que estou aqui, estou aprendendo, ainda não sei tanto como o Aziel, que entende muito de trigonometria, sabe fazer aqueles cálculos, mas eu estou estudando por fora e aprendo rápido olhando quem sabe fazer.
Se este procedimento de promoções via indicação dos coordenadores evita que a Administração seja acusada de favorecer aqueles mais próximos dela, por outro lado coloca grande responsabilidade sobre os coordenadores, que terminam por indicar para a assembléia sobre o mérito, ou não, da promoção dos cooperados do setor pelo qual são responsáveis. Este poder em pessoas tão próximas do dia-a-dia dos cooperados, já que os coordenadores trabalham ao lado deles na fábrica, cria uma sensação persecutória sobre os cooperados. Outro efeito é o surgimento de inimizades entre os eles, causadas pelo descontentamento daqueles não contemplados pela promoção.
Em um momento de desabafo, um cooperado mostra que este processo não é suficiente para evitar desconfianças de favorecimento:
Aqui eles sobem o salário de quem eles gostam e diminuem de quem não gostam, ou melhor, fica como está. O cara pode ser bom profissional, se eles não gostam não cresce, fica sempre na mesma e ainda tira um barato, diz que quem não teve aumento: ‘não foi contemplado’. Agora tem cara que trabalha com medida larga, no paquímetro, e ganha igual um profissional só porque eles gostam do cara. Os outros são obrigados a agüentar tudo isso.
Do outro lado, Aziel justifica os descontentamentos de diversos cooperados, contemplados e não contemplados pelas promoções, dizendo que é “algo humano”, que quando o tema é dinheiro ninguém se sente satisfeito:
Nesta questão aí, não é porque é cooperado: é ser humano! (...) É lógico, isso aí é natural, se eu não sou contemplado, então: “poxa vida, não me enxergaram aqui”. (...) Então quer dizer, (...) se eu não sou contemplado, eu vou falar: “pô, eu fui injustiçado”. (...) E outra: “você vai ter uma promoção de duzentos reais na sua retirada”, ele vai achar que: “puxa vida, porque só duzentos? Eu merecia trezentos, não duzentos”. Então sempre vai ter esse [descontentamento], eu acho que dinheiro, quando se fala em dinheiro, nunca, nunca satisfaz, quando não dá, é porque não dá, quando dá, então é pouco.
Alexandre apresenta outro argumento, complementar ao de Aziel, do porquê da insatisfação dos cooperados com as não contemplações, dizendo que é necessário mais que “fazer seu trabalho direitinho” para ser contemplado:
Se você está trabalhando, você fala assim: “poxa, eu estou trabalhando, estou fazendo tudo direitinho, eu queria um direito a mais, eu queria um ganho a mais”, que é como a gente pensa num emprego. Mas, na verdade, você está trabalhando direitinho, fazendo mais, nem sempre isso quer dizer que você vai ganhar mais, isso quer dizer que você tem que fazer para ter o seu trabalho reconhecido.
Com ou sem justificativas, muitos se ressentem por não terem sido contemplados nestas promoções. Entretanto, não foram relatados descontentamentos com o processo de avaliação e promoções, o que poderia ser alterado em assembléia, se a maioria assim decidisse. A fala mais próxima da contestação do processo foi a deste cooperado, referindo-se à capacidade de alguém avaliar o trabalho dele:
Não tem ninguém aqui que entenda o meu trabalho, ninguém pode dizer se está bom, por isto se atentam no comportamento, no jeito. Desvalorizam muito meu trabalho, pensam que, se amanhã não tivesse mais, é a mesma coisa. (...) Não tem como crescer aqui dentro, as pessoas são muito vinculadas aos cargos. Na CERVIN um entrava e ia crescendo de cargo, agora não, cada um fica onde está. (...) Eu sinto falta de alguém que possa olhar o meu trabalho, de um orientador.
As falas acima, entretanto, não demonstram ressentimento exclusivamente com o processo de promoções na cooperativa, mas também com a falta de possibilidade de reconhecimento do trabalho deles.
Porém, este processo de promoções significa uma grande oportunidade para aqueles cooperados que desempenhavam funções tidas como desqualificadas, tais como os trabalhos de expediente ou de vigia. Para estes a possibilidade de trabalho numa fresa, num torno ou numa retífica plana, representa um grande ganho profissional, em termos de capacitação, possibilitado pela cooperativa. Já para aqueles profissionais de nível superior, como os engenheiros, a cooperativa representa um “fim de carreira” no sentido profissional, pois já estão “no topo”, salvo pela possibilidade de assumirem cargos eletivos e, com isto, poderem influenciar mais diretamente nos rumos do empreendimento.
Outra questão relevante é que uma escolha por um determinado procedimento, seja qual for, está orientado por certas premissas e produz resultados práticos no cotidiano. No caso deste processo de promoções, as premissas que o orientam são certamente subjetivas, como engajamento no trabalho e comprometimento com a cooperativa. Os resultados práticos que produz, entretanto, são: disputas entre cooperados, mal-estar entre cooperados e coordenadores, insatisfações com a cooperativa, vigília recíproca, hostilidades e inimizades entre trabalhadores.