Tracejaram-se algumas hipóteses envolvendo a proteção e promoção de determinadas identidades culturais, étnicas e nacionais. Entretanto, em alguns casos, as
pessoas podem não pertencer a grupos nacionais e culturais. Abordam-se, neste tópico, formas de proteção à identidade de quem não se encontra inserido em nenhuma cultura nacional ou em nenhuma nação, como é o caso dos apátridas, aqueles que não são considerados nacionais por nenhum Estado74. Não se trata de nacionalidade efetiva, mas fática. A condição fática que
levou o indivíduo a não possuir uma nacionalidade não é relevante para os fins da breve análise deste tópico.
Os principais critérios utilizados para determinar alguém como nacional são o jus solis e o jus sanguinis. Assim, é cidadão de uma nação quem nasce em seu território ou quem é filho de nacionais. Note-se que “nenhum dos dois critérios exige o pertencimento à uma comunidade étnica como condição da nacionalidade, pois, mesmo na hipótese de jus sanguinis, o que determina não é o sangue do indivíduo, mas a qualidade de membro da comunidade política reconhecida a seus pais, que podem ou não ter laços biológicos com o grupo” (CANOTILHO, 2013).
O direito à nacionalidade representa um direito humano e os Estados devem reconhecer situações de nacionalidade originária por meio dos critérios do jus solis e jus sanguinis, bem como de nacionalidade derivada, como ocorre com os naturalizados75. A
naturalização também deve ser reconhecida aos apátridas, e em especial a eles, uma vez que a ausência de nacionalidade acarreta privação de muitos direitos, além de uma verdadeira crise de identidade.
A crise de identidade cultural sofrida pelos apátridas é retratada por Benedetto Vecchi no livro “Identidade”, que relata o conteúdo de uma entrevista feita por ele a Zygmunt Bauman (2005), sociólogo polonês que, por motivos de perseguição e práticas antissemitas, emigrou para a Grã-Bretanha, onde se tornou professor universitário. A entrevista começa com o relato de que Bauman fora homenageado na Universidade Charles, de Praga, com o título de doutor honoris causa. Na cerimônia de entrega do título, quando deve ser tocado o hino do país de origem do homenageado, pediram que ele escolhesse entre o hino da Polônia e o da Grã-Betanha.
74
Artigo 1º da Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas. Adotada em 28 de setembro de 1954 por uma Conferência de Plenipotenciários convocada pelo Conselho Econômico e Social em sua resolução 526 A (XVII), de 26 de abril de 1954. Entrou em vigor em 6 de junho de 1960, conforme o artigo 39. (SÃO PAULO, 1954).
75
São brasileiros naturalizados, como determina o inciso II do artigo 12 da Constituição Federal: “a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira” (BRASIL, 1988).
A escolha do hino causou certa angústia ao entrevistado, que não se sentia identificado culturalmente com nenhum dos dois países. Embora tenha sido acolhido na Grã- Betanha devido às perseguições na Polônia, onde fora impedido de lecionar, ele se sentia estrangeiro na terra que o acolheu e era tratado como tal.
A solução encontrada por ele foi pedir que se tocasse o hino europeu, por abranger seus dois pontos de referência cultural identitária, tirando da questão uma identidade definida em termos de nacionalidade, que lhe fora negada. Bauman (2005, p. 18) nunca havia se questionado acerca de sua identidade nacional; em seu entendimento, nascera e morreria polonês, entretanto esse direito lhe foi negado e desde então nenhum lugar representa para ele um habitat natural, em todos eles sente-se deslocado.
A situação ora relatada representa uma história vivida por cerca de quinze milhões de pessoas no mundo (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2007). Os problemas jurídicos, sociológicos e psicológicos dos apátridas são sérios, envolvem não apenas o pertencimento identitário cultural a uma nação, mas também o acesso a direitos básicos como saúde, educação, direito ao nome – em relação ao registro público e assento de documentos – e direito de propriedade, dentre outros.
O artigo 15 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E CULTURA [UNESCO], 1948) determina que todos têm direito a uma nacionalidade, e que ninguém será privado dela de maneira arbitrária e nem do direito de adquirir nacionalidade diferente, embora este último não seja sempre conferido aos indivíduos devido aos mais variados aspectos políticos dos Estados.
O Brasil é signatário da Convenção de Nova York de 1954 – Estatuto do Apátrida - e deve ter uma política interna de acolhimento, proteção e atribuição de direitos a essas pessoas (SÃO PAULO, 1954).
A Justiça Federal do Rio Grande do Norte reconheceu a um africano que ingressou de maneira ilegal no País o direito de aqui residir e de tirar documentos de identidade. A situação do africano era bastante complicada, uma vez que seu país de origem não aceitava sua extradição e nem o reconhecia como nacional. A decisão fora confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (RECIFE, 2011), reconhecendo que, em virtude da ausência de nacionalidade, o autor da ação encontra-se numa espécie de limbo jurídico, que afronta a dignidade humana consagrada na Constituição Federal e na Convenção de Nova York (AFRICANO..., 2010).
Assegurar direitos similares aos dos nacionais brasileiros não é capaz de solucionar a crise de identidade e de pertencimento sofrida pelos apátridas, mas é um passo para a proteção de um indivíduo que, apesar de ter sido privado da condição de nacional, pode vir a se estabelecer e se recriar em outra cultura e nacionalidade.
A identidade, entendida como um constante autodefinir-se, há de ser considerada um processo eterno de invenção e reinvenção da história de vida de cada um (BAUMAN, 2005); essa história de vida não possui temática única, sendo composta pelos variados elementos conformadores da identidade, mas a desarmonia e a privação de algum deles é capaz de gerar danos irreparáveis à personalidade humana.