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2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE

2.3. Probleme Dayalı Öğrenme

2.3.1. Probleme Dayalı Öğrenmenin Temeli

Dentre as disputas argumentativas geradas em torno da reserva de vagas em universidades, destacaremos, nessa parte da pesquisa, aquelas que relacionam a noção de raça, de classe social e de meritocracia, sobre as quais intentamos discorrer a seguir.

Para Fry e Maggie (2004), por exemplo, a adoção de Ações Afirmativas, notadamente na acepção de cotas, representaria um retrocesso, podendo gerar embates sociais e divisão nacional. A liberdade dos cidadãos também estaria ameaçada, já que estes teriam de se identificar como negros ou brancos:

o argumento de que as cotas acabarão incentivando animosidades “raciais” não pode

ser facilmente descartado, porque a sua lógica é cristalina. Não se vence o racismo

celebrando o conceito “raça”, sem o qual, evidentemente, o racismo não pode

existir. Iniciativas de ação afirmativa oriundas da sociedade civil produzem consequências semelhantes para aquelas poucas pessoas envolvidas. Mas quando cotas raciais se tornam política de Estado, determinando a distribuição de bens e serviços públicos, ninguém escapa à obrigação de se submeter à classificação racial bipolar. O impacto sobre a sociedade como um todo não pode ser subestimado, portanto (FRY; MAGGIE, 2004, p. 77).

O ponto crucial na argumentação destes e de outros autores que viram na possibilidade de cotas um perigo à nação é a crença na inexistência do conceito de raça, o que, para nós, acaba por tocar no mito da democracia racial. Nesse sentido, ainda que a noção de raça como foi utilizada por teóricos do racismo científico tenha sido abandonada pela ciência contemporânea, quando pesquisadores das relações raciais utilizam tal conceito, eles o fazem considerando a noção de raça como uma construção social, histórica e política (GOMES, 2004). Assim, a concepção gira em torno do fenótipo e se sustenta pelo fato de que a sociedade ainda mantém atitudes discriminatórias com base na cor de pele.

De maneira geral, tanto se reforçou, nos dez anos de implementação de cotas, a inexistência do conceito de raça no sentido biológico, que tal alegação foi, aparentemente,

utilizada sem maiores reflexões, como argumento de autoridade, com status de ciência por carregar a imagem de neutro, exato. O estudo do genoma humano, encabeçado pelo professor Sérgio Danilo Pena, da UFMG, que visa comprovar a inexistência de raças do ponto de vista genético, foi amplamente revisitado como argumento para desacreditar a política de recorte racial, tanto em setores da mídia como em conversas cotidianas ou em artigos científicos. Um exemplo bastante conhecido foi a utilização do resultado do trabalho de Pena e Bortolini na edição de junho de 2007 da revista Veja, que trazia na capa a afirmação: “Raça não existe”. Na matéria, há uma tentativa clara de argumentar de forma a depreciar o sistema de cotas raciais em voga na UnB, comparando-o ao regime nazista e ao apartheid sul-africano. Em

artigo intitulado “Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e

demais ações afirmativas?”, Pena e Bortolini defendem que a ancestralidade africana e europeia encontra-se presente no genoma da população brasileira em maior ou menor grau. Interessa destacar, entretanto, que esses mesmos autores não descartam a existência de discriminação por características fenotípicas:

mesmo não tendo o conceito de raças pertinência biológica alguma, ele continua a ser utilizado, qua construção social e cultural, como um instrumento de exclusão e opressão. Independente dos clamores da genética moderna de que a cor do indivíduo é estabelecida por apenas um punhado de genes totalmente desprovidos de influência sobre a inteligência, talento artístico ou habilidades sociais, a pigmentação da pele ainda parece ser um elemento predominante da avaliação social de um indivíduo e talvez a principal fonte de preconceito (BORTOLINI; PENA, 2004, p. 46, grifos nossos).

Vê-se, então, que raça, enquanto fenômeno social, que independe de uma razão biológica, é algo bastante presente nas relações cotidianas, a despeito de se dizer popularmente que somos um país miscigenado.

Um elemento interessante contido nesse mesmo artigo diz respeito a um aspecto que foge da aparente assepsia emocional de artigos científicos de revistas conceituadas, especialmente aqueles do campo da biologia e áreas afins, que costumam carregar esse ethos de forma mais evidente: a epígrafe que abre o texto de Bortolini e Pena é parte do famoso pronunciamento do líder da luta por direitos civis para negros norte-americanos, Martin Luther King: “I have a dream that my four children will one day live in a nation where they

will not be judged by the color of their skin but by the content of their character”37. Em

seguida, é possível ver uma imagem na qual King acena para uma multidão. O apelo

37 Tradução livre: eu tenho um sonho de que minhas quatro crianças irão um dia viver em uma nação onde elas

emocional é atestado não só pelas palavras do líder, mas, principalmente, pelo uso de sua imagem.

É bem verdade que as ideias de King são já aceitas entre os que defendem uma sociedade com distribuição equânime de oportunidades, tornando-se um lugar comum nessa questão. Por essa razão, vemos que recorrer ao pronunciamento de King e, principalmente, à sua imagem, concatena duas visadas simultâneas: em primeiro lugar, a construção de uma imagem positiva do locutor, que evoca para si um ethos de virtude, de humanidade e de justiça. Dessa forma, é bem provável uma intenção de amparar possíveis refutações por antecipação advindas do interlocutor, já que a figura do líder pelos direitos civis da população negra norte-americana sugere que a sua voz – dos autores dos artigos – estaria assentada na voz de Martin Luther King e nas virtudes associadas à sua figura. De forma paralela, poderíamos inferir uma visada emocional (pathos) que objetiva influenciar o interlocutor com base nas emoções que a imagem do líder junto ao povo é capaz de evocar, posto que a persuasão pode ser mais facilmente empreendida por aqueles por quem nutrimos algum tipo de afeto do que por aqueles por quem nos desafeiçoamos. Da mesma forma, destacar um trecho do pronunciamento que é bastante conhecido por diversas pessoas ao redor do mundo é um lugar-comum que poderia criar uma imagem de que o artigo em questão seria acessível a todos, apesar de tratar de genética, temática pouco comum no cotidiano do cidadão não especialista. Ainda no tocante à articulação entre ethos e pathos38

pela imagem de King em um artigo acadêmico que versa sobre um tema tão complexo no contexto brasileiro, é possível pensar na elaboração da imagem de um locutor de caráter e humanitário, em oposição a um

“outro” com quem é travado um diálogo por vias interdiscursivas. Ainda assim, é preciso

destacar que o uso desse recurso argumentativo é mais ou menos paradoxal, uma vez que foi utilizado para a defesa de posicionamentos contrários aos da luta pelos movimentos civis encabeçada por lideranças como Martin Luther King.

Sobre o uso constante do ponto de vista genético como argumentação contra a adoção de cotas em universidades, pontuam Duarte e Netto (2012):

A ampliação dos programas de ação afirmativa para negros certamente envolve problemas operacionais que devem ser resolvidos com a experiência, porém, a descoberta de que a raça não se sustenta do ponto de vista da genética, por exemplo, é uma descoberta tão nova quanto a de que a chuva molha [...]. A discriminação e as desigualdades, essas sim, são categorias científicas comprovadas. O paradoxo das

38 As relações possíveis entre as provas retóricas ethos, pathos e logos com o corpus da pesquisa serão mais bem

raças não pode ser resolvido pelas ciências biológicas, mas pela apreensão das finalidades de uma norma que propõe garantir a igualdade material mínima entre grupos ou indivíduos desigualados pelos fatos sociais. O fato social da discriminação não precisa ser cientificamente lógico para existir; ele pode ser reconhecido à medida que sua generalização é estatisticamente comprovada e sujeitos sociais, na condição de vítimas, empreendem uma luta por reconhecimento cujo cerne é a busca por igual respeito e consideração (DUARTE; NETTO, 2012, p. 55).

Nesse contexto, os posicionamentos, aparentemente irreconciliáveis, marcaram a primeira década dos anos 2000, o que se mostrou ainda mais evidente pelo aparecimento de documentos em forma de manifesto assinados por intelectuais. O primeiro destes, intitulado Todos têm Direitos Iguais na República Democrática, de 2006, foi entregue às lideranças que à época presidiam o Senado e a Câmara Federal. Poucos dias depois, esse mesmo manifesto teve sua versão opositora, o chamado Manifesto em favor da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial39. Também assinado por intelectuais, o texto foi igualmente entregue ao

Senado e à Câmara Federal e sustentava posicionamento favorável à adoção de cotas em universidades. Nesse mesmo ano de 2006, o livro Não Somos Racistas – uma reação aos que querem nos transformar em uma nação bicolor, do jornalista Ali Kamel, foi entregue ao presidente do Congresso Nacional da mesma forma que os demais. O livro teve ampla divulgação em uma emissora de televisão e em meios jornalísticos e diversos de seus argumentos foram reproduzidos pela opinião pública brasileira (JESUS, 2011).

Os argumentos que, como vimos, pautam-se em posições antagônicas sobre as cotas continuaram em 2008. Outros dois manifestos foram entregues ao Supremo Tribunal Federal e ao Senado. O primeiro deles, intitulado 113 Cidadãos Antirracistas contra as Leis Raciais, se mostrava contra as cotas e o Estatuto da Igualdade Racial. O segundo era chamado Manifesto em Defesa da Justiça e Constitucionalidade das Cotas. Nesse mesmo período, outras manifestações defendendo bandeiras diferentes foram trazidas a público. Em meio a tantos textos, chama-nos a atenção a forma com que o termo raça era adotado por defensores e por detratores das cotas raciais durante todo o período de debate. Aparentemente, houve poucas iniciativas, por parte dos reivindicantes, de conciliar os objetivos da política de cotas, que se sobrepõem a qualquer terminologia, fato que nos leva a pensar que os imaginários

39 Aprovado em 2010 por meio da Lei nº 12.288, o Estatuto da Igualdade Racial objetiva garantir à população

negra a efetivação da igualdade de oportunidades, o combate à discriminação entre outras demandas. Por prever elementos básicos para a efetivação da igualdade racial, como a liberdade de cultos religiosos de matriz africana e a definição da ação de discriminação racial, vemos que sua aprovação foi extremamente tardia frente os efeitos gerados pelos mais de três séculos de regime escravista. A lei que regula o Estatuto está disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm. Acesso em 25 de fevereiro de 2015.

residuais do pós-escravidão é que foram colocados em jogo nos debates. Ou seja, em meio às possibilidades que as Ações Afirmativas representam, foi a temática racial, notadamente em sua acepção terminológica, que teve grande destaque. Como destacou Jesus:

Chama-nos a atenção o fato de que, em ambos os períodos, e nos quatro manifestos, o debate em torno da existência ou inexistência de raças no Brasil e, em consequência, em torno da pertinência da adoção de políticas com recorte racial, continuou tendo centralidade. Assim, para além das evidentes controvérsias em torno das alternativas mais adequadas para resolver os problemas raciais brasileiros, é possível perceber que também estamos envolvidos em um debate sobre a existência ou inexistência de problemas raciais no Brasil (JESUS, 2011, p. 116).

Finalmente, a ideia reiterada de que o Brasil é um país mestiço traz a bandeira de que as cotas fariam de nós uma nação bipolar (FRY; MAGGUIE, 2004; FRY, 2008), mas não explica como ocorre a discriminação cotidiana, que é de cunho subjetivo, a exemplo daquelas que destacamos dos alunos da UFRGS e que ocorre com tantos outros sujeitos em diversos locais. Para Fry (2008), retomar a consciência histórica das raízes da população negra é um perigo, pois institucionaliza o racismo e promove conflitos. Dessa forma, o Brasil não possuiria relações de raça, mas de classe, porque somos um país mestiço – argumento-álibi das relações raciais harmônicas. Já para Jesus (2011), a consciência histórica das relações raciais é importante, dado que pode ressignificar marcas utilizadas para desumanizar. Como pondera Silvério (2003):

[…] a invisibilidade do negro é decorrente de uma representação social que o “apaga”, porque nós, no Brasil, não temos negros, somos todos mestiços, ao mesmo

tempo, as práticas discriminatórias e racistas cotidianas são banalizadas, porque no pós-Abolição nunca tivemos segregação racial legal (SILVÉRIO, 2003, p. 70).

Dessa forma, ao debater o conceito de raça, estudiosos e militantes do movimento negro consideram, em sua argumentação, que, muito além da genética, existe um hiato histórico e social que justifica a exclusão cotidiana como decorrente de outros fatores que não o racismo, ainda visto no Brasil como algo que está em outro lugar. Ou seja, se, de um lado, a raça não existe para aqueles que são detratores da política de cotas, amparados pelo discurso científico, por outro, ela se mantém presente, seja nas representações de menor prestígio, nas ausências dos espaços de poder, ou na violência física e simbólica do cotidiano.