2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.3. Probleme Dayalı Öğrenme
2.3.11. Probleme Dayalı Öğrenme Süreci
Outro argumento bastante aludido no contexto das cotas foi a ameaça ao mérito acadêmico que tal política poderia representar. Segundo Jesus (2011), o mérito corresponde a um princípio liberal de seleção dos mais aptos e tem origem na Europa entre os séculos XVII e XIX, em que ocorriam grandes transformações de cunho político e social. Para esse autor, a defesa do mérito se relaciona à noção de liberdade dos indivíduos e, nesse sentido, a crença na
máxima “somos todos iguais” não é o mesmo que a crença na inexistência de distinções, mas
em distinções produzidas com base no esforço individual. Parte-se do pressuposto de que cada indivíduo possui capacidades e oportunidades no mesmo pé de igualdade para a competição (JESUS, 2011).
No que se refere ao ensino superior, a defesa do mérito individual e acadêmico foi evocado com certa recorrência no contexto de ações afirmativas de recorte racial. Na perspectiva de acadêmicos contrários à medida, julgou-se que a proposição de cotas seria uma afronta ao princípio constitucional da isonomia, com base no pressuposto de que o mérito seria o único meio para garantir a igualdade em processos seletivos. O posicionamento que defende o mérito como um locus inquestionável parte da perspectiva de uma sociedade ideal: aquela em que todos os cidadãos possuem oportunidades equivalentes de concorrência. Tal lógica não assimila diferenças produzidas socialmente, como raça, gênero, classe social e região geográfica, por exemplo, que são fatores de reprodução de desigualdades entre os
indivíduos (MOYA; SILVÉRIO, 2009). Como demonstram dados da UNICEF (2012), o
Brasil apresenta desigualdades regionais bastante marcantes “em termos geográficos, sociais e
econômicos, que influem de forma significativa em suas redes de ensino e nos desafios que
precisam ser vencidos” (p. 21). Soma-se a isto o fato de crianças e adolescentes negros ainda
representarem a maioria dos jovens fora da escola. É como aponta Jesus (2011):
Aqui, o conceito liberal de igualdade, assentado na igual capacidade dos indivíduos de tornarem-se diferenciados por meio do mérito individual, convive, de modo paradoxal, com evidências empíricas que mostram as desiguais oportunidades que diferenciam homens e mulheres, trabalhadores urbanos e trabalhadores rurais, negros e brancos etc. (JESUS, 2011, p. 127)
Nesse contexto, quando se considera que a universidade é formada por uma chamada elite intelectual, como se tem convencionado dizer, essa referida elite acaba por ser, em primeiro lugar, uma elite econômica, por consequência branca, para a qual há uma maior disposição de recursos materiais e simbólicos de acesso. É o que aponta, grosso modo, o Censo Socioeconômico dos Alunos de Graduação da UFMG sobre o retrato geral do aluno dessa instituição: de classe média, de ensino médio diurno, não profissional e privado; solteiro, de cor branca e, em sua maior parte, do sexo masculino. No caso de cursos que gozam de maior prestígio social, como arquitetura, engenharia elétrica ou medicina, a presença de egressos do ensino público é inferior a 20%42.
Outro fator que se alia ao discurso da meritocracia é o da democratização do ensino superior. Há recortes argumentativos que atestam que a universidade não é e não deve ser um espaço de acesso democrático, mas sim um espaço para poucos, como acabamos de destacar. Nessa linha de raciocínio, valores atinentes ao campo da pesquisa estariam ameaçados. É o que destaca um relato colhido por Moya e Silvério (2009) na ocasião de um seminário promovido pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, em 2009:
O tema da “inclusão social” passou a ser dominante no debate intelectual sobre o
ensino superior do país, e isto está prejudicando a discussão de outros temas
fundamentais. Uma forte pressão “igualitarista” também está afetando instituições
que deveriam ter como base os valores tradicionais da academia: competência,
competição e concentração de talentos, de uma “elite” do conhecimento (MOYA;
SILVÉRIO, 2009, p. 238).
Em plano contrário, argumentos favoráveis à adoção de Ações Afirmativas de recorte racial também não negam o mérito acadêmico, mas o realocam, tanto do ponto de vista da admissão quanto do ponto de vista da trajetória acadêmica do aluno. Assim, da perspectiva da admissão, em nenhum momento de implementação das cotas raciais foi prevista a aplicação de provas diferentes para candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Ou seja, os candidatos cotistas estariam submetidos às mesmas avaliações e nota para aprovação. A diferenciação estaria no fato de que aqueles que optassem pelo sistema de cotas seriam avaliados ao lado de outros candidatos que optassem pelo mesmo sistema. Já da perspectiva da trajetória acadêmica, o mérito seria construído no processo desenvolvido pelo
aluno na universidade. Na perspectiva de D’ávila e Lesser (2008), que comparam a noção de
mérito acadêmico no Brasil em relação aos Estados Unidos:
uma das diferenças mais importantes entre a cultura acadêmica no Brasil e nos Estados Unidos reside na definição de mérito [...]. O prestígio verdadeiro vem de se formar por Harvard, não de ser admitido em Harvard. No Brasil, acredita-se que o mérito pode ser avaliado objetivamente por meio de um único exame, o vestibular. Um aluno entra em uma universidade brasileira com o mérito registrado através de sua colocação no exame (D´ÁVILA; LESSER, 2008, p. 123).
Dessa forma, vemos que a proposta de Ações Afirmativas no ensino superior não é de eliminar o mérito no processo de admissão dos candidatos, mas de adicionar ao processo de admissão aqueles critérios historicamente utilizados para excluir. Em outras palavras, trata- se de oferecer relevância para diferenças de ordem natural que foram desenvolvidas como desigualdades sociais (SILVÉRIO, 2002).
Como pudemos perceber, o exame dos argumentos em torno das políticas de Ação Afirmativa, especialmente em sua versão de cotas, não se mostrou conciliador. Tal fato nos leva a crer que a reparação histórica que tais políticas agregam para si não é algo tranquilo, pois se liga a crenças que, como explica Charaudeau (2007), constituem-se de um saber polarizado em torno de valores socialmente compartilhados.
Essa é a razão do interesse em destacarmos as contribuições que os estudos do discurso podem oferecer para a linguagem em ação, que se manifesta nos mais diversos campos de relação dos sujeitos. Dessa forma, para que possamos promover uma análise da temática das cotas raciais a partir de sua materialização nos artigos de opinião do Boletim, no espaço temporal de 2002 a 2012, importa promover uma associação do material sócio- histórico ao linguístico. Por isso, ressaltamos mais uma vez a importância do resgate histórico que fizemos até aqui, na medida em que ele confere maior clareza para indicar os sentidos
mobilizados para persuadir o outro, esclarecer representações expostas em propósitos argumentativos, e apontar os estereótipos usados na construção de imagens dos sujeitos envolvidos e da política em si. Essa abordagem nos faz concordar com Amossy (2007, p. 128)
sobre a “necessidade de examinar os funcionamentos argumentativos no entrecruzamento do linguístico e do social”.
A fim de concluir o percurso teórico dessa dissertação, no capítulo seguinte utilizaremos o aporte teórico da Análise do Discurso em sua vertente que considera a argumentação no discurso, o que nos leva a partilhar com Amossy (2001, p. 129) da
concepção de que, “na medida em que a análise do discurso espera descrever o
funcionamento do discurso em situação, ela não pode evitar sua dimensão argumentativa”. Tal abordagem nos parece frutífera, pois possibilita melhores ferramentas para a análise em torno da dimensão da construção de imagens nos artigos de opinião por meio de marcas deixadas na tessitura dos textos selecionados.
3 IMAGENS DAS COTAS RACIAIS À LUZ DA ANÁLISE ARGUMENTATIVA: A IMPORTÂNCIA DA TRÍADE ETHOS, PATHOS E LOGOS
É da natureza comunicacional do discurso que importa partir (AMOSSY, 2007).
A epígrafe em destaque é parte de um trabalho de Ruth Amossy que discute sobre o lugar que a análise argumentativa pode ocupar nos estudos em AD. O referido trabalho e tantos outros que versam sobre argumentação permitem pensar que, para além de voltar nossa atenção para o campo das trocas verbais strictu sensu, orientar nossa atenção para a natureza comunicacional do discurso é lançar olhares sobre os elementos de linguagem que regem os fatos circulantes nas relações entre os sujeitos; relações permeadas por consensos e dissensos. Assim, comunicar, na perspectiva de análise que apresentaremos a seguir, é mover ideias para a ação. Nesse sentido, este capítulo se propõe a revisitar algumas noções importantes para o estudo contemporâneo da argumentação, voltando-se principalmente para a análise argumentativa do discurso, além de algumas contribuições da Teoria Semiolinguística. Antes, contudo, façamos um breve retrospecto dos assuntos tratados nesse trabalho até então.
No primeiro momento dessa dissertação, propusemos uma leitura sobre a noção de gênero discursivo a partir das contribuições de Bakhtin (2006), junto de alguns apontamentos da Teoria Semiolinguística de Patrick Charaudeau e de outros teóricos que têm trazido observações relevantes para o estudo dos gêneros discursivos, como Marcuschi (2008), Carolyn Miller (2009) e Charles Bazerman (2009), estes últimos representantes da Escola Norte-Americana. Esse apanhado foi importante para compor um primeiro entendimento comum sobre as nossas impressões de gênero discursivo para o nosso objeto de estudo – artigos de opinião do Boletim UFMG que trazem a temática das cotas raciais.
Consideramos que o artigo de opinião é um gênero bastante comum no cotidiano de muitos sujeitos desde a educação básica, e que comumente faz parte do cotidiano de leitura jornalística de muitos sujeitos. Contudo, julgamos que o suporte dos artigos que vamos analisar, o Boletim, que definimos como uma publicação jornalística universitária, editado e distribuído pela UFMG, seria capaz de imprimir características relevantes a tais textos. De maneira geral, pudemos pensar que os sujeitos não leem ciência do mesmo modo que um comentário jornalístico, e que os artigos de opinião, quando publicados no Boletim, devido às suas características situacionais já comentadas, poderiam criar um modo de recepção específico.
Posteriormente, procedemos a uma recapitulação histórica desde a construção da identidade nacional brasileira nos anos iniciais da república, passando pelos mitos e os ideais de nação difundidos por uma pseudociência que atestava a inferioridade do sujeito negro. Em seguida, discorremos sobre as políticas imigrantistas que visavam substituir a mão de obra negra pela europeia a fim de branquear a nação, fato que ficou conhecido como ideologia de branqueamento. Vimos ainda, com Munanga (2008), que, mesmo que o branqueamento tenha falhado no objetivo de resultar em uma nação de caracteres fenotípicos brancos, os imaginários que compunham esse ideal conseguiram permanecer nas crenças dos sujeitos. Por fim, fizemos uma passagem pelo pensamento culturalista de Gilberto Freyre, que oferece uma leitura do Brasil como uma nação com relações raciais forjadas na harmonia – imaginário que ainda ecoa fortemente em nossa sociedade e é conhecido como mito da democracia racial. Essa caminhada histórica é importante, uma vez que demonstra as raízes das desigualdades entre negros e brancos e justifica, ao menos para os que detêm posicionamentos favoráveis, a criação da primeira política pública que abarca o segmento não branco da sociedade: a política de cotas, temática debatida em nosso objeto de estudo.
Nessa terceira parte da dissertação, lançaremos olhares sobre a análise argumentativa do discurso ou a argumentação no discurso, perspectiva centrada no campo de estudos da AD e que trará contribuições relevantes para nossa posterior análise do corpus.
Ao traçar um panorama de teorias para o estudo da argumentação, Emediato (2001) assinala que o pesquisador desse campo irá se deparar, em algum momento, com o
problema da “intenção de influência” e da “persuasão”, o que parece ser uma preocupação
comum entre os diferentes panoramas teóricos. Nesse sentido, ainda que consideremos, com Amossy (2007), que nem todo ato de tomar a palavra tem o objetivo fundamental de convencer43, há sempre o exercício de influência em maior ou menor grau, orientando, assim, maneiras de ver e de pensar. Desta forma, são colocadas em cena estratégias discursivas de diversas ordens, como os lugares comuns, a construção de imagens, as emoções, elementos que os estudos em argumentação no discurso objetivam compreender nas diferentes situações de comunicação. Antes de adentrarmos na perspectiva da análise argumentativa do discurso propriamente dita, vejamos brevemente o entendimento de alguns estudiosos sobre o campo da argumentação.
Especialistas como Ruth Amossy, Patrick Charaudeau, Chaïm Perelman, Oswald Ducrot e Christian Plantin, para citar alguns, concordam sobre o fato de que os estudos em
43 Nesse trabalho não nos deteremos na distinção entre convencer e persuadir traçada por alguns estudiosos da
argumentação retomam a tradição retórica44 após o longo período de rejeição a que essa disciplina foi submetida desde que o racionalismo da idade moderna passou a operar. Apenas no final dos anos de 1950, com a publicação da obra Tratado da Argumentação: a Nova Retórica, de Perelman e Olbrechts-Tyteca (1958), é que a retórica retomou sua importância e passou a ser estudada no campo da argumentação. Na visão de Emediato (2001, p. 164) “o que encontramos em Perelman e Olbrechts-Tyteca corresponde, com efeito, a uma retomada
da retórica clássica e de grande parte de seus fundamentos”. Ainda segundo o autor
(EMEDIATO, 2001), além da fidelidade à retórica clássica que a perspectiva contemporânea dos autores da Nova Retórica apresenta, há, na obra, uma busca por analisar técnicas de discurso capazes de causar determinados efeitos em um auditório.
Também o criador da Teoria Semiolinguística, Patrick Charaudeau, elaborou uma proposta para o estudo da argumentação, colocando-a no interior dos modos de organização do discurso – enunciativo, descritivo narrativo e argumentativo (CHARAUDEAU, 2012). O modo argumentativo em Charaudeau, grosso modo, é definido sobre os modos de raciocínio e de uma encenação argumentativa45. Outra perspectiva para o estudo da argumentação seria aquela desenvolvida por Toulmin (1958), que centra suas análises em uma lei de passagem variável em função do tipo de argumento e do domínio ao qual ele faz referência (EMEDIATO, 2001). Na perspectiva de Toulmin, são estudadas as técnicas para um determinado raciocínio, o que o coloca na mesma perspectiva dos autores da Nova Retórica, apontando para uma visão racional do discurso argumentativo (LIMA, 2006).
Destacamos ainda a Teoria da Argumentação na Língua (ADL), de Anscombre e Ducrot, em seu desdobramento na Teoria dos Topoï. Amossy (2007) considera que foi por meio dos trabalhos de Anscombre e Ducrot que os estudos da argumentação entraram para a ciência da linguagem. Nesse caso, a argumentação seria vista como um encadeamento de proposições, sendo, portanto, um fato da língua e não de discurso (AMOSSY, 2007). Sumariamente, a ADL de Ducrot recupera a noção de topos aristotélico, propondo-o no quadro de uma lei de passagem.A Teoria da Argumentação na Língua volta-se para objetivos
44 Reconhecemos a fundamental importância de se compreender os primeiros pensadores da história da retórica
para os estudos contemporâneos em argumentação. Seria um engano desprezar, por exemplo, a relevância dos gêneros retóricos, as contribuições de Aristóteles, dos sofistas e dos romanos para o estudo das estratégias de persuasão que buscamos compreender na atualidade. Contudo, não iremos fazer um percurso histórico detalhado das bases da retórica até os dias de hoje, devido às dimensões de uma pesquisa de mestrado, ainda que em determinados momentos dessa pesquisa possamos nos remeter brevemente aos fundamentos clássicos da disciplina. Um percurso minucioso da história da retórica até os estudos contemporâneos da argumentação pode
ser encontrado na tese de doutoramento de Helcira Lima intitulada “Na tessitura do Processo Penal: a argumentação no Tribunal do Júri”, defendida em 2006 na Universidade Federal de Minas Gerais.
45 Apesar de nos valermos em vários momentos das contribuições da Teoria Semiolinguística, não adentraremos
diferentes daqueles da Teoria da Argumentação no Discurso ou análise argumentativa, que,
dentre outras bases, “pretende mostrar que a força da fala não é puramente intrínseca à língua
(na qual as conclusões seriam sempre dadas de antemão), nem puramente exterior à
linguagem, porque vinda do poder proveniente da legitimidade institucional” (AMOSSY,
2007, p. 128), mas há um elo entre essas posições.
Para este trabalho, ao nos depararmos com uma variedade de caminhos para o tratamento da argumentação, optamos por trilhar a vertente de Amossy (2010 e 2011). Presumimos que o prisma adotado pela Análise Argumentativa do Discurso nos pareceu mais se adequar aos nossos objetivos de análise, que vez ou outra será acrescida da contribuição de outros teóricos cujas perspectivas encontrem eco para o diálogo com a teoria eleita. Estamos cientes, contudo, de que essa escolha é uma entre outros caminhos possíveis para subsidiar nossa análise dos artigos de opinião sobre a temática das cotas raciais no contexto do Boletim da UFMG.
No campo da análise argumentativa, Amossy (2007) relaciona dois pontos fundamentais para caracterizar a sua teoria da argumentação no discurso como um ramo da AD. Em primeiro lugar, a autora elenca a inscrição da argumentação na materialidade linguageira, participando, assim, do funcionamento global do discurso. Em segundo lugar, é destacada a importância do exame dos funcionamentos argumentativos na interseção do linguístico e do social. Nesse sentido, a autora concorda com Maingueneau (2007, p. 19), que
percebe “o discurso como intricação de um texto e de um lugar social, o que significa dizer
que seu objeto não é nem a organização textual, nem a situação de comunicação, mas aquilo que as une por intermédio de um dispositivo de enunciação específico”. Outro aspecto importante é que a análise argumentativa guarda grande relação com a retórica, pois que resgata o estudo dos meios utilizados para gerar uma influência sobre o outro. A respeito da influência dos pressupostos da retórica na AD, afirma Lima:
o fato é que a herança retórica se faz presente de modo significativo no âmbito da AD, o que traz à tona a relação entre o caráter social e o caráter cultural da linguagem [...] a AD apropria-se, assim, da herança retórica ao lidar com a linguagem em uso visando a uma ação (LIMA, 2015, p. 3).
A autora continua a esclarecer o vínculo que une a retórica à AD ao relacionar que tanto esta quanto aquela pressupõem tomadas de atitudes e de posições dos sujeitos em determinado quadro político-social, dado que os grupos humanos se constituem em torno de valores simbólicos que os unem. Essa perspectiva se assemelha à de Michel Meyer, que vê a
retórica como o espaço em que identidade e diferença são colocadas em jogo, ora de aproximação ou de comunhão, ora de exclusão (MEYER, 2007). Esta é também a relação estabelecida com o corpus dessa pesquisa, uma vez que o texto opinativo é um gênero em que pesa a negociação de distâncias com vistas a obter adesão em torno de valores e bens simbólicos, nesse caso o acesso à universidade, ao lado de uma possível redefinição das relações raciais desenvolvidas no Brasil. Sobre a questão do uso da palavra com vistas à ação de que o discurso retórico é portador, afirma mais uma vez Lima (2015, p. 3): “é preciso agir em função desses valores, contra ou a favor, mas, de todo modo, é preciso agir em relação a esse universo de signos, de crenças, de interesses”.
Em suma, cremos ser possível pensar que a análise argumentativa é um campo de estudos que se vale de uma associação entre a herança retórica, por lidar com a linguagem em uso com vistas à ação, associada à argumentação linguística, pois é nessa materialidade que se torna possível captar as marcas deixadas na enunciação, oferecendo, assim, maior sustentação às análises empreendidas. Tal perspectiva de entendimento da argumentação prima por ser, dessa forma, linguístico-discursiva-retórica (LIMA, 2015). Nessa relação, um olhar para as condições de produção do discurso, como destaca Lima (2015), mostra-se de suma importância: é a partir desse olhar que são abertas possibilidades de pensar a argumentação como estando vinculada às relações de poder existentes nas interações, e que se materializam