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2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE

2.3. Probleme Dayalı Öğrenme

2.3.10. Probleme Dayalı Öğrenmede Öğretmenin Rolü

No tocante às considerações que giram em torno da invalidade do termo raça, é possível perceber uma relação íntima com pontos de vista que defendem a impossibilidade de se identificar quem é negro ou branco, já que o Brasil é um país mestiço. Nesse aspecto, as desigualdades de cunho econômico parecem ficar mais latentes e, portanto, desvencilhadas do recorte racial. Argumenta-se, ainda, que a “pobreza no Brasil é negra” e sobre as más condições do ensino público, espaço em que é possível encontrar maior quantidade de alunos pretos e pardos. Nesse ponto de vista, a sub-representação da população negra nos espaços de poder seria fruto de uma sociedade estratificada em classes, como defende Kamel (2006). Para o autor, o problema racial parece ser algo já superado, que talvez nunca tenha existido:

Estou cada vez mais convencido de que o racismo decorre essencialmente do

‘classismo’. O negro que dirige um carro de luxo e é confundido com um motorista, e, por isso, maltratado, é mais vítima de ‘classismo’ do que racismo. Uma vez

desfeito o mal entendido, um tapete vermelho se estende para a vítima (KAMEL, 2006, p. 101).

As palavras do jornalista são sintomáticas de uma crença que nega a existência de racismo, provavelmente devido a uma comparação com o racismo norte-americano. Nessa perspectiva, recusa-se o fato de que o imaginário social que leva o negro a ser confundido com um motorista quando este se encontra em poder de um carro de luxo encontra forte relação com a sua naturalização em posições sociais de menor prestígio em nossa sociedade40.

Nesse sentido,

[…] para a grande maioria dos brasileiros, a discriminação racial ainda é vista como

sinônimo de interdição, impossibilidade de entrar em algum lugar. É claro que isso resulta da histórica comparação entre as relações raciais brasileiras e estadunidenses, em que os autores frequentemente destacavam a ausência de segregação racial oficial no Brasil em oposição aos Estados Unidos, além da suposta benevolência do colonizador português e da miscigenação como importantes fatores que contribuíram para tornar as relações raciais no Brasil mais amenas (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2009, p. 229).

40 Fato semelhante ao imaginado por Kamel aconteceu em 2004, quando um dentista negro que dirigia seu carro

ao sair do aeroporto internacional de Guarulhos foi confundido com bandidos. Contudo, o engano não pode ser desfeito, já que ele foi morto pelos policiais antes que pudesse tomar a palavra. Também destacamos o uso do

termo “cor padrão” já utilizado por policiais na identificação de um suspeito de crime, referindo-se à cor negra

do suspeito. Disponível em: http://extra.globo.com/noticias/brasil/dentista-negro-foi-confundido-com-ladrao- morto-por-pms-em-2004-320928.html. Acesso em 10 de jan. de 2015. Em 2015, um estudante da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) foi abordado por policiais e levado para a delegacia acusado de ter roubado o próprio carro. Disponível em: http://noticias.r7.com/minas-gerais/universitario-negro-diz-ter-sido-acusado-por- policiais-de-roubar-o-proprio-carro-18042015. Acesso em 18 de maio de 2015.

No intento de traçar explicações para o racismo desenvolvido no Brasil e em

relação aos Estados Unidos, Oracy Nogueira define que o primeiro seria “de marca”, enquanto o segundo seria “de origem”. Assim, no preconceito de marca a atitude

discriminatória é centrada na aparência, no fenótipo; varia subjetivamente em função de quem julga e de quem é observado. Já no caso do preconceito de origem, presume-se a exclusão pelas características hereditárias dos membros. No Brasil, o preconceito se intensifica à medida que se acentuam os traços negroides: contudo, laços de amizade ou simpatia entre os sujeitos não são incompatibilizados. Nos Estados Unidos, por sua vez, o preconceito pode tomar forma de segregação e assim assumir a feição de ódio e antagonismo entre grupos (NOGUEIRA, 2006). Dentre os vários elementos que Nogueira (2006) usa para diferenciar o preconceito de marca do preconceito de origem, inclui-se a questão da classe, sobre a qual afirma:

onde o preconceito é de marca, a probabilidade de ascensão social está na razão inversa da intensidade das marcas de que o indivíduo é portador, ficando o preconceito de raça disfarçado sob o de classe, com o qual tende a coincidir; onde o preconceito é de origem, o grupo discriminador e o discriminado permanecem rigidamente separados um do outro, em status, como se fossem duas sociedades paralelas, em simbiose, porém irredutíveis uma à outra (NOGUEIRA, 2006, p. 290).

No contexto das relações raciais brasileiras, em que “[…] não é de bom tom puxar

o assunto da cor” (NOGUEIRA, 2006, p. 299), especialmente diante de uma pessoa preta ou

parda, a incorporação do debate sobre classes à adoção de políticas públicas surgiu como forte saída para a possibilidade da reserva de vagas com recorte racial. Como aponta Jesus (2011), o processo de implantação de cotas raciais parece ter favorecido o debate em torno das cotas sociais – estas que se faziam praticamente ausentes do debate sobre o ensino superior até surgir a proposta racial.

É importante ressaltar que não se pode ignorar a importância da variável classe social para o acesso ao ensino superior, tampouco a influência da escolarização dos candidatos: quanto melhor sua trajetória escolar, maiores são as possibilidades de obtenção de sucesso na entrada para a universidade. Com foco nessa situação, as ideias em torno de cotas sociais para alunos da rede pública de ensino foram parte da seleção do vestibular de algumas universidades, como foi o caso da UFMG, que teve o bônus aprovado pelo Conselho Universitário em 200841.

41 A política de bônus da UFMG entrou em vigor no vestibular de 2009 e vigorou até a seleção de 2012. A

Contudo, para além do problema existente de classe social que figura no país, a reserva de vagas para negros e indígenas serviria de meio para a criação de diversidade nos espaços de poder dos quais a população negra e indígena foi alijada pelos processos históricos de construção da nação. Assim, uma política universalista baseada no conceito de classe social não atingiria a população negra diretamente, como se convencionou pensar. Destacamos como uma das razões para esse ponto de vista a evasão escolar da população negra nos anos finais da escolarização. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF (2012) – sobre adolescentes de 15 a 17 anos apontam que 16,1% dos adolescentes negros estão fora da escola, o que representa um total de 937.681 jovens. Quanto aos adolescentes brancos nessa mesma faixa etária, esse percentual cai para 13,1%% – ou seja, 592.966. O trabalho infantil também é elemento fundamental que coloca em risco a estabilidade da criança na escola. Ainda segundo a UNICEF, entre crianças de 11 a 14 anos, 1.090.117 trabalham de forma paralela aos estudos. Entre as crianças brancas, esse percentual é de 34,60%, ou 377.167 crianças, e entra as negras, de 64,78%, ou seja, 706.160 crianças.

Outro argumento importante parece ter sido o de que uma política de recorte racial excluiria a necessidade de uma política para a melhoria do ensino público de base, quando, na verdade, haveria complementaridade entre ambas. Entretanto, não foi essa a perspectiva adotada pelos grandes meios de comunicação nacional, que, não raras vezes, apontaram para o fato de que cotas representariam um não investimento na base educacional e seriam, portanto, políticas concorrentes.

Essa referida complementaridade das políticas de cota racial e social deve-se, basicamente, aos objetivos diferenciados que cada uma carrega. Conforme Gomes (2004, p.

48), “[…] em nosso país, o negro não é discriminado só porque ele é pobre. Ele é

discriminado porque é negro e, também, porque é pobre”. Ou seja, havendo um contingente reduzido de brancos pobres na universidade, esse fato não decorre de questões raciais, mas sim da má distribuição de renda e suas consequências, exigindo uma política que leve em conta a baixa renda, dado que a representatividade de sujeitos brancos já está garantida. Uma política de cunho racial, paralelamente, estaria focada na garantia da representatividade dos sujeitos negros, devido à sua ausência tanto no espaço universitário quanto em outras instâncias de poder, que não se explica exclusivamente pelo viés de renda, mas também pelo do racismo, que exclui esses sujeitos para além do fato de serem pobres.

últimos anos da educação na rede pública. Outros 5% seriam somados para os candidatos que se autodeclarassem negros e que tivessem estudado na rede pública de ensino. Disponível em:

É no sentido de analisar a questão racial em comparação com a social que o relatório de desenvolvimento humano realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD – coloca a questão racial como parte de problemas sociais:

cada vez mais se aceita que a pobreza tem subjacente, o problema da desigualdade social. No caso brasileiro, acrescente-se a desigualdade racial. O centro da questão estaria no confronto entre minorias que comandam e maiorias que sustentam os privilégios daquelas. Em sociedade, não se disputam apenas bens materiais escassos. Carência material, em si, não implica necessariamente desigualdade, se for a mesma para todos. A desigualdade aflora entre agentes históricos que disputam poder e dimensões correlatas, como prestígio, oportunidades, vantagens, liderança (PNUD, 2005, p. 44).

Dessa maneira, como destaca ainda o relatório do PNUD, a natureza da escravidão no Brasil levou a uma destituição de poder econômico da população negra (PNUD, 2005). Assim, as relações, ditas harmônicas por haver ausência de uma segregação explícita entre negros e brancos, não foram o bastante para o alcance da igualdade de oportunidades. Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre as desigualdades de gênero e raça (2011) apontam a relativa desproporção entre brancos e negros no ensino superior:

Em 1995, a taxa de escolarização líquida no ensino superior – que mede a proporção de pessoas matriculadas no nível de ensino adequado para sua idade – era de 5,8%, chegando, em 2009, a 14,4%. Neste mesmo ano, esta taxa era de 21,3% entre a população branca, contra apenas 8,3% entre a população negra, chegando a apenas 6,9% entre os homens negros. Em 2009, a taxa de escolarização das mulheres no ensino superior era de 16,6%, enquanto a dos homens, de 12,2%. A taxa de escolarização de mulheres brancas no ensino superior é de 23,8%, enquanto, entre as mulheres negras, esta taxa é de apenas 9,9%. As políticas de expansão das universidades, o Prouni, as ações afirmativas e outras políticas têm contribuído para os avanços nesta área, no entanto, as desigualdades raciais que determinam e limitam as trajetórias de jovens negros/as explicam a discrepância dos dados (IPEA, 2011, p. 21).

A despeito dos conflitos de opinião que se pôde verificar nos dez anos de debates sobre as Ações Afirmativas, o recorte racial dessa política acabou por ter menos espaço que o recorte social na Lei de Cotas de 2012 – aLei nº 12.711, direcionada a instituições federais de ensino, que estabelece a reseva de 50% das vagas para alunos oriundos de escola pública. No contexto dessa Lei de Cotas, que é de caráter majoritariamente social, foram operadas subcotas, com diferentes critérios de renda e o de raça. Dessa forma, o que temos no contexto universitário federal na atualidade são cotas sociais com recorte racial.

Ao problematizar a ideia da classe como parte predominante de práticas racistas, ponderam Figueiredo e Grosfoguel:

temos refletido pouco sobre a eficácia do discurso sobre a desigualdade de classe no Brasil e, consequentemente, sobre o preconceito e a discriminação de classe que perdura em nossas representações até hoje. Desde crianças, somos socializados para percebemos a desigualdade de classe – quando visitamos um bairro cujos habitantes são majoritariamente, quando não exclusivamente, brancos, denominamos o local de bairro de classe média, e não como bairro de brancos; o mesmo ocorre com as escolas, sempre referidas a partir da classe, e não da cor. Frequentemente, quando somos excluídos, tendemos a interpretar a exclusão a partir da classe, e não da cor. (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2009, p. 229).

Os autores continuam, afirmando que uma perspectiva que analise as diferenças entre os sujeitos e que se centre unicamente na classe social não apenas dificulta o reconhecimento de práticas racistas, mas também contribui para um olhar desfavorável ante as Ações Afirmativas de recorte racial.