5. BULGULAR VE YORUM
5.1.3. Deney Grubu ve Kontrol Grubu İçin Matematik ÖnTest ve
Feitas nossas considerações sobre os elementos ligados à construção de imagens e aos afetos, voltemos, agora, nossa atenção para os caracteres argumentativos advindos do discurso propriamente dito, o logos, espaço de materialização do ethos e do pathos. Na concepção aristotélica, os aspectos vinculados ao logos estão relacionados com a necessidade
de que o orador “mostre possuir certas disposições e as inspire ao juiz” (ARISTÓTELES,
[198-?], p. 97), correspondendo, então, aos elementos argumentativos efetivamente aparentes no discurso. Ao se debruçar sobre as possíveis manifestações do logos na empresa argumentativa, Galinari (2007) sugere uma dupla orientação para essa prova retórica que nos parece bastante didática. Para o autor, teríamos significações para o logos que corresponde à fala ou discurso, de um lado e, à razão ou raciocínio, de outro.
No primeiro caso, em que o logos é associado à fala ou discurso, o potencial argumentativo, em parte, residiria na significação mesma da linguagem, o que abarcaria:
a. a seleção lexical e seus desdobramentos, como pronomes pessoais e demonstrativos, adjetivos, substantivos, verbos, advérbios, conectores dentre outras classes linguísticas;
b. funções sintáticas de base, como a voz ativa, passiva, asserções, negações, interjeições, silenciamentos e pressupostos, pontuação e quantificadores, dentre outros.
O exposto acima nos permite pensar que a orientação argumentativa teria forte influência das escolhas linguísticas efetuadas, pois a própria escolha do léxico pode direcionar visões acerca de determinado elemento e influenciar pressuposições e outros modos de ver (GALINARI, 2007).
Já a esfera que Galinari (2007) associa à razão ou raciocínio apresenta relação com as provas que visam o estabelecimento de uma verdade, de uma lógica. Na tradição dos estudos retóricos, não raras vezes o logos foi visto como espaço único de manifestação da razão, especialmente se confrontado com o domínio do pathos. Como relembra Plantin (2008), desde os estudos clássicos da retórica até a sua retomada contemporânea, às emoções foi relegado um espaço subordinado à chamada lógica do discurso. Contudo, como destaca Lima (2006), o fato de ao logos serem associadas provas técnicas e racionalidade não implica ausência de razão nas demais dimensões argumentativas, como também já destacamos. Como discutido em nossas considerações sobre o pathos, a própria intencionalidade de que as emoções são portadoras, conforme Charaudeau (2010), já apontaria para um aspecto racional. As provas técnicas associadas ao domínio do logos, no caso do nosso objeto de estudo, poderiam corresponder aos dados numéricos relativos às especificidades das universidades brasileiras e sua comunidade, fatos históricos sobre as relações raciais no Brasil, entre outros. As deduções e pressuposições feitas a partir da organização discursiva, notadamente quando associadas aos argumentos da ordem do ethos e do pathos, seriam capazes de angariar valor ao processo argumentativo. Assim, retomando Galinari (2007), o entimema, a dedução, o exemplo e os topoi entrariam na segunda rota de entendimento do logos. No caso da argumentação baseada no exemplo, Galinari (2007) recorda a força que episódios históricos possuem para orientar condutas coletivas. Nas palavras do autor:
os episódios (históricos) colocados como exemplos, além de associarem um acontecimento (particular) a uma possível generalidade de circunstâncias, acabariam construindo uma analogia entre momentos históricos que não possuiriam ou não
demonstravam, até então, semelhanças. O exemplo participa, portanto, da construção simbólica da realidade (GALINARI, 2007, p. 69).
No caso de nosso objeto de estudo, julgamos que não só os fatos históricos são responsáveis por construir uma associação no processo argumentativo, mas também a experiência de outros países que já adotaram as cotas raciais em seu processo de seleção ou mesmo as possíveis narrativas de vida apresentadas pelos articulistas. Galinari (2007) destaca, ainda, que construções de linguagem como a comparação, relação de oposição, proporcionalidade, dentre outros, estariam também no domínio do logos.
Considerando que a esfera do logos possui relação com os raciocínios lógicos (elemento muito privilegiado na cultura ocidental contemporânea), e também com provas técnicas, exemplos, entre outros, a essa dimensão é dada uma característica da ordem do verossímil. Talvez seja em decorrência desse fato que Eggs (2011), na esteira de Aristóteles, tenha atestado que o logos convenceria por si mesmo: “[…] o que é preciso reter inicialmente aqui é o fato de que [...] o logos convence em si e por si mesmo, independentemente da situação de comunicação concreta, enquanto o ethos e o pathos estão sempre ligados à
problemática específica de uma situação e, sobretudo, aos indivíduos concretos implicados”
(EGGS, 2011, p. 41, grifos do autor). Em posição distinta, Lima (2006) sustenta a importância das circunstâncias no processo argumentativo, como o desempenho do orador no manejo das
provas de que dispõe: “evidentemente, o sucesso da persuasão está associado à performance
do orador, pois nada garante que seus objetivos sejam alcançados apenas pela apresentação de elementos técnicos e por uma elaboração mais lógica de seu discurso” (LIMA, 2006, p. 155). A posição de Lima é, também, a nossa: nos dez anos de debates sobre as cotas raciais na mídia e outros setores sociais, foram (e continuam a ser) apresentados dados que apontam para a diminuta participação da população negra na divisão dos bens sociais. Há também dados que apontam para a pequena presença de negros e indígenas nas universidades, principalmente na primeira década dos anos 2000 e a associação desse fato a processos históricos de construção da nação. Os elementos a que nos referimos são passíveis de ser consultados nos resultados de pesquisas feitas por institutos como IPEA, IBGE, UNICEF, entre outros. Consideramos que as pesquisas que esses órgãos apresentam podem ser caracterizadas como argumentos da ordem do logos, por funcionarem como provas técnicas. Contudo, mesmo a apresentação de tais evidências não foi suficiente para evitar que parcela razoável da população mantivesse posturas desfavoráveis à adoção de cotas para o ingresso no ensino superior. Tal fato nos leva a crer na existência de um conjunto de elementos (ligados ao ethos e ao pathos) que vão além do logos no processo persuasivo. Nesse aspecto,
destacamos a observação de Lima (2006) ao afirmar que “[…] os topoï [relacionados ao
raciocínio lógico] não repousam apenas em conhecimento, mas também em crenças” (p. 157). No caso do nosso corpus, julgamos que, por mais que tenham sido apresentados números sobre a discrepância social entre a população negra e a população branca, por mais que se considere o fim recente de um regime longo como foi a escravidão, o discurso da meritocracia e o mito da democracia racial68, acalentados no imaginário brasileiro, faz com que a parcela opositora às cotas no ensino superior não perceba que tais disparidades sejam um fator relacionado à escravidão do povo negro e seus desdobramento. Pelo contrário, tais disparidades acabam sendo relegadas ao sujeito empírico e sua vivência particular, a questões de cunho unicamente social, como a pobreza, ou mesmo a estereótipos coletivos que associam a população negra à preguiça69.
Por fim, destacamos mais uma vez com Lima (2006) sobre a inter-relação constante das dimensões discursivas ethos, pathos e logos, mesmo que haja preponderância de uma ou outra em determinada situação de comunicação. Assim, a separação que fizemos no percurso teórico desta dissertação teve apenas finalidade metodológica, objetivando oferecer
maior clareza às características de cada uma delas. Nas palavras da Lima, “[…] o que
determina tais relações possíveis, a meu ver, não se restringe a questões formais, mas está intimamente ligado a questões situacionais, à identidade dos sujeitos, ao universo de crenças e de conhecimento desses sujeitos e daqueles com os quais eles estão interagindo” (LIMA, 2006, p. 158). Assim, de forma a verificar como as três dimensões do processo argumentativo podem funcionar discursivamente para gerar adesão, passemos para a análise do nosso corpus, que compreende, como já destacamos, 14 artigos de opinião do Boletim UFMG, na seção intitulada Opinião, que abrange o intervalo de tempo entre os anos 2002 a 2012, período em que o debate sobre as cotas raciais obteve grande destaque nos mais diversos setores da atividade social.
68 Como já debatemos em capítulo anterior, a ideia de meritocracia advoga que todos têm iguais oportunidades
de acesso, sem levar em conta as disparidades de toda ordem em que vive a população em um país como o Brasil. Já segundo o mito da democracia racial, que ganha força a partir da primeira metade do século XX, o Brasil seria um paraíso racial em que negros, índios e brancos conviveriam em perfeita harmonia.
69 A presença desse estereótipo (da preguiça) permaneceu intensa durante todo o debate sobre as cotas e mesmo
hoje ainda é possível ser percebido. Durante os dez anos em que o debate se fez mais intenso, não raro aconteceram em manifestações para o veto das cotas raciais a frase “quer passar no vestibular, estude”, que associa a política à preguiça, à ausência de estudo. No intuito de retirar estudantes negros do silêncio, alunos da UNB promoveram a campanha intitulada “Ah, branco, dá um tempo!”, de 2015, inspirados em uma iniciativa semelhante feita por alunos da universidade de Harvard, nos Estados Unidos. No caso da UNB, foram coletadas e divulgadas por meio de fotos, diversas frases que os estudantes negros costumavam ouvir em seu cotidiano como universitários. No caso dos cotistas, houve frases como “você é cotista? Então nem precisou estudar pra
entrar aqui!” “você tem sorte de ser negra, nem precisou estudar pra passar no vestibular” Ou ainda, “não sabia que gente como você tinha sensibilidade pra arquitetura”. A campanha teve grande adesão, sendo acolhida por
4 EMBATES DISCURSIVOS SOBRE AS COTAS RACIAIS: MERAS OPINIÕES OU