Prestar cuidados de enfermagem, implica sempre lidar com uma escala de valores, nossos e dos outros, sendo estes uma referência para a nossa forma de estar e viver, de nos relacionar-mos com o mundo e os outros, por isso se torna tão importante a questão ética no processo de cuidar. Cuidar de alguém implica saber muita coisa! Saber quem é o outro, quais as suas capacidades, quais as suas limitações, quais as suas necessidades, o que contribui para o seu desenvolvimento,
34 entre outras. Cuidar dos outros tem um valor fundamental quando contribui para a liberdade humana, para a escolha e para a responsabilidade.
Para haver ética no agir é preciso haver qualidade nos cuidados que se prestam.
Fortin (1999:114) refere que a “ética é o conjunto de permissões e de interdições que têm um enorme valor na vida dos indivíduos e em que estes se inspiram para guiar a sua conduta”.
Os enfermeiros utilizam princípios éticos, como linhas orientadoras que os ajudam a criar juízos morais na sua prática profissional (justiça, bem, prudência, dever, responsabilidade, entre outros).
“… pela sua especificidade, pela relação tão próxima com os outros, pela vivência intersubjectiva e existencial, pela prática quotidiana, pelo conflito de valores e situações dilemática, o enfermeiro deve saber discernir e responder de forma assertiva e justa, em plena observância de valores éticos fundamentais” (Figueiredo, 2004:21)
Os direitos e deveres dos enfermeiros foram consagrados pela primeira vez em 1996 com a publicação do regulamento do exercício profissional dos enfermeiros (REPE) e foram depois reformulados com a publicação do decreto-lei 104/98 de 21 de Abril que garante os direitos e deres estabelecidos no estatuto da OE.
“ os padrões éticos profissionais assentam num conceito moral que é a preocupação com o bem- estar de outros seres humanos. Não basta a qualidade científica ou a técnica, pois somos gente que cuida de gente, pelo que exige uma qualidade humana e humanizadora” (NUNES et al, 2005:17).
Tendo por base a Declaração Universal sobre Bioética e os Direitos Humanos, as práticas desenvolvidas durante este Ensino Clínico foram orientadas de forma a respeitarem os princípios éticos fundamentais da Autonomia, Beneficência e não Maleficência, Vulnerabilidade, Igualdade, Justiça e Equidade, e enquadradas no Código Deontológico do Enfermeiro.
o Autonomia e responsabilidade individual: no decurso das minhas intervenções a autonomia das grávidas/família no que respeita à tomada de decisão, desde que assumida a respectiva responsabilidade e reconhecidos os deveres para com os outros, foi sempre respeitada. No entanto, em Obstetrícia as escolhas das grávidas/famílias envolvem sempre segundas e por vezes terceiras pessoas, sendo o respeito pelo princípio da autonomia colocado muitas vezes em causa. As próprias “normas” da instituição tornam- se num constrangimento ao cumprimento deste princípio. Para promover a autonomia, a grávida/família por mim cuidada foi sempre informada dos procedimentos a que iria ser sujeita, explicados correctamente os riscos/benefícios e pedido sempre o consentimento
35 para a realização de qualquer prática, respeitando os desejos e vontade da grávida/família, sem exercer qualquer tipo de coacção, nomeadamente no que se refere à observação interna, à escolha da presença ou não de um acompanhante, recurso a estratégias para alívio do sofrimento, medidas de conforto, contacto pele a pele com o RN, corte do cordão umbilical, entre outros. Uma das “rotinas” da instituição, que é um constrangimento ao cumprimento deste princípio é o número de profissionais presentes durante a observação da utente e durante o parto. Poucas vezes se respeita o direito da mulher decidir não se expor perante tanta gente…
o Vulnerabilidade humana e integridade pessoal: os indivíduos e grupos particularmente vulneráveis devem ser protegidos e deve ser respeitada a sua integridade pessoal. Os enfermeiros têm o dever de cuidar e proteger os interesses das grávidas/famílias e não tirar vantagens da sua ingenuidade, ignorância ou vulnerabilidade. A situação das grávidas perante o trabalho de parto e internamento coloca-as numa posição vulnerável, de pessoas com necessidades, que podem ser atingidas por algo no plano físico, psíquico, social ou moral, que reclamam a solidariedade e a equidade dos prestadores de cuidados. Elas sentem um risco iminente que lhes provoca sofrimento, tornando-as assim vulneráveis. Os cuidados de enfermagem passaram pela disponibilidade, pela informação, pela promoção da autonomia.
o A Igualdade, justiça e equidade: que define o direito a todas as pessoas a não serem descriminadas por considerações biológicas, tais como raça, sexo, idade, situação de saúde entre outras. A igualdade fundamental de todos os seres humanos em dignidade e em direitos deve ser respeitada para que eles sejam tratados de forma justa e equitativa. Deve ser evitada a descriminação negativa, abuso e exploração das pessoas. No respeito pelo princípio da justiça, tive o cuidado de proporcionar a cada grávida/família o que lhe era devido, isto é proporcionar que em situações similares fossem tratadas de forma semelhante, respeitando a individualidade de cada uma, assegurando que todas tivessem as mesmas oportunidades. A população utilizadora do HFF é multicultural, multiétnica e de diferentes estratos sociais o que evidencia a necessidade de um maior respeito pelo princípio da igualdade, equidade e justiça, não fazendo descriminações de qualquer tipo relacionadas com etnia, moral, religião ou condição social.
36 o Beneficência - não maleficência – Defende a obrigação de evitar fazer o mal ou prejudicar de forma intencional ou negligente. O dever de ajudar o outro a obter o que é bom para si, sem incorrer em paternalismo, o dever de não prejudicar aqueles de quem se Cuida. O não causar dano torna-se por vezes mais imperativo do que o praticar o bem. Na minha prática de cuidados tive sempre a preocupação de não actuar em situações sobre as quais não tivesse total domínio de conhecimento ou domínio técnico, em que não sentisse segurança, sem recorrer ao apoio de outros profissionais evitando situações de negligência e/ou dano perante as grávidas/famílias por mim cuidadas.
Tal como foi referido anteriormente o Código Deontológico foi sempre respeitado no decorrer do ensino clínico nomeadamente nos seguintes artigos:
o Art.º 78º - Realização de intervenções de enfermagem tendo como preocupação a defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana e do enfermeiro.
o Art.º 81º - a) Cuidar da pessoa sem qualquer descriminação económica, social, política, étnica, ideológica ou religiosa.
o Art.º 81º - e) Abster-se de juízos de valor sobre o comportamento da pessoa assistida e não lhe impor os seus próprios critérios e valores no âmbito da consciência e da filosofia de vida.
o Art.º 83º - b) Orientar o indivíduo para outro profissional de saúde mais bem colocado para responder ao problema, quando o pedido ultrapasse a sua competência.
o Art.º 83º - d) assegurar a continuidade dos cuidados, registando fielmente as observações e intervenções realizadas.
o Art.º 84º - a) Informar o indivíduo e a família, no que respeita aos cuidados de enfermagem.
o Art.º 84º - b) Respeitar, defender e promover o direito da pessoa ao consentimento informado.
o Art.º 85º - a) Considerar confidencial, toda a informação acerca do destinatário de cuidados e da família qualquer que seja a fonte.
o Art.º 85º - b) Partilhar a informação pertinente só com aqueles que estão implicados no plano terapêutico, usando como critérios orientadores o bem-estar, a segurança física, emocional e social do indivíduo e família, assim como os seus direitos
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