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A

obrigatoriedade da educação moral e cívica surge no bojo da consolidação da política autoritária aplicada no Bra­

sil a partir de 1964. Desde então, em nome da Segurança N a­ cionaI, adotaram-se medidas de cerceamento à liberdade de

organização, de expressão e de pensamento. Para oS gover­ nantes, a sociedade brasileira estava sendo ameaçada por in­ CUIllõeS maléficas de grupos ou facções interessados em ins­ taurar no país um clima de desordem, de intranqüilidade e de agitação social. Freqüentemente, associava-se a atuação desse. grupos à presença e divolgação de uma ideologia e de uma prá­ tica política identificadas com a dontrina comunista. Tal foi a ênfase dada ao perigo que essa disseminação ideológica re­ presentava, para o conjunto da sociedade brasileira, que a maioria dos problemas nela verificados eram usualmente impu­ tados ao avanço dessa doutrina "alienígena", que precisava ser bloqueada por uma intervenção governamental específica e efetiva.

Foi particularmente nesse contexto que surgiu a idéia de formalização, em nível nacional, de um projeto político-ideo­ lógico que tivesse como função precípua d;fundir certos vale­ res contrários àqueles que norteavam o ideário comunista. Era

preciso marcar a pedagogia com wna orientação filosófica de­ terminada, uma vez que, como afirmou o general

M

oacir Araú­ jo Lopes, os perigos do neutralismo faziam-se sentir concre­

tamente no mundo estudantil.

"Não explicitadas as bases filosóficas., que consultem às aspirações da maioria dos brasileiros e aos interesses nacionais, toma·se caótico o melhor do campo pedagógico, o que facilita a penetraçã0 de filosofias contrárias àqueles interesses e aspirações. Por isso, a pedagogia, du­

rante as décadas desh:: século, apresentou-se com fundamentos filosó­ ficos liberalistas, intelectualistas, pragmatistas, socialista-radicais e marxistas. A moral e o civismo, testados nos movimentos estudantis de 1968, nas escolas e nas ruas, revelaram os frutos amargos da impre­

cisão das bases filosófioo-pedagógicas da Educação Nacional e de grande número de nações do mundo ocidental." 10

Em 1969,

através de um decreto governamental, foi insti­ tuída a obrigatoriedade da educação moral e cívica

(EMC)

no currículo escolar, em todos os ramos e graus de escolari­ dade. Nascia assim uma disciplina comprometida com um pro­ jeto polít'co-pedagógico voltado para a socialização dos indi­ víduos dentro de princípios e valores políticos determinados. Com o compromisso ideológico explícito de difundir um certo tipo de visão política, a educação moral e cívica foi concebi­ da por seus idealiza dores como uma das prioridades do gover­ no na área educacional.

O propósito fundamental deste capítulo é demonstrar as razões pelas enais se pode pensar essa disciplina como instru­ mento de socialização política. Para tanto,

é

importante refle­ tir não só sobre sua natureza, seu conteúdo programático e as noções que pretende incutir nos alunos, como também sobre­ as razões que envolveram sua criação.

lO Lopes, Moacir Araújo. A grande opçãe da nação bratileira con­ substanciada na deutrina da educaçãe meral e cívica. Rio de Janeiro, s. ed., 1973. Ver p. 60.

Educação Moral e Cívica: A Ret6rica da Pacificação

Uma le'tura atenta do decreto que instituiu a educação moral e cívica como disciplina obrigatória é suficiente para se perc<ber a intenção deliberada do governo de socializar poli­ ticamente os alunos não só através da transmissão de conheci­ mentos e de valores mas, também, do que é denominado prá­

llca ed

u

cativa - "uma busca de condicionamentos sadios que estabeleçam os hábitos desejados".11

FOlmalmente, foi o Decreto-Lei

869/69

que estabeleceu essa obrigatoriedade, mas a preocupação com a criação de uma disciplina formativa de hábitos cívicos e políticos é anterior.

Já em

1965,

o então ministro da Guerra, marechal Artur da

Costa e Silva, na exposição de motivos n. o 180-RP de 10 de

dezembro de

1965,

dirigia-se ao primeiro governo militar de­ fendendo a atribuição da "mais alta prioridade" à educação moral e cívica, capaz de impedir a propagação da "ideologia marxista-Ieninista", de frear a "inflitração de doutrinas mal­ sãs". Desde o início, a criação da disciplina vem vinculada a preocupações com a Segurança Nacional, que ameaçada por investidas externas necessitaria de um "escudo protetor". Essa alegação justificava o propósito de não restringir esse projeto de socialização política aos educandos. Programada formal­

mente, de início, para as áreas de ensino, pretendia-se ampliar seu ra o de ação ao con

j

unto da sociedade, através de incur­ sões assistemáticas nos meios de comunicação de massa, com a finalidade de incutir "no povo em geral o sentimento de

apreço à Pátria, de respeito às instituições, de respeito à fa- 11 BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Comissão Nacional de Moral e Civismo. Educação moral e cívica como disciplina obriga­ tória nos três níveis de ensino. Guanabara, Instituto Nacional de Estu­ dos Pedagógicos. Comissão Nacional de Moral e Civismo. V:-r 13. 1 1 .

mília, de obediência à Lei, de fidelidade ao trabalho e de inte­ gração na comunidade" .'2

Da mesma forma, preconizava-se que a iniciativa de for­ mação da "consciência cívica", ainda que promovida pelo Mi­ nistério da Educação e Cultura, não deveria restr;ngir-se a ele, podendo "contar com a colaboração de outras esfesas do po­ der público ou mesmo de iniciativas privadas".lB

Reiteradas vezes foi mencionada a necessidade do envol­ vimento de todo o corpo docente na divulgação dos valores bá­ sicos de educação moral e cívica - valores gerais que, nesse sentido, extrapolariam os limites circunscritos a uma determi­ nada disciplina e prática educativas. Para o governo, a imple­ mentação dessa disciplina trazia a possibilidade de sanar os problemas e desajustes sociais, que tinham suas raízes na "fal­ ta de educação com princípios filosóficos adequados". A res­ ponsabilidade pelo preenchimento dessa lacuna deveria caber ao Estado. Partindo desse pressuposto, ele determina oficial­ mente a criação de nma disciplina respaldada em princípios teístas.

A leitura do Decreto-Lei 869/69, na parte relativa aos princípios que norteiam a implantação da disciplina, abre pers­ pectivas à compreensão dos valores que se pretendia incutir nos alunos como valores políticos: "a defesa do princípio de­ mocrát:co, através da preservação do espírito religioso", ua

pseservação, o fortalecimento e a projeção dos vaiares espiri­ tuais e éticos da nacionalidade", Noções de patriotismo, cida­ dania, unidade nacional e de culto à lei estavam incluídas en­ tre os princípios básicos que deveriam ser sistematicamente transmitidos aos educandos.

12 ANTEPROJETO de lei sobre educação moral e cívica acompa­ nhado de memorial. S. 1 . , s. ed., 1968. 13p. Mimeo. Ver p. 12. 18 Acioli, Júlia Azevedo. Educação cívica como prática educativa. S. 1.. Ministério da Educação e Cultura, Setor de Educação Cívica, 1967. 69p. Ver p. 21.

No eneaneo, é na análise da EMC como prática educativa que se pode detectar o cerne da orieneação ideológica que in­ formava essa medida governameneal. Enquaneo disciplina, a ENC tinha como projeeo eransmieir nm corpo siseematizado de conhecimentos, mas como práeica educativa, imaginava-se, aeravés dela, alimenear e gerir determinadas vivências pela for­ mação de hábitos e ideais. No âmbito dessas vivências, in­ cluíam-se o " ajuseameneo do homem ao meio", a "harmoniza­ ção dos indivíduos", a percepção da "integração pacífica das raças e dos grupos sociais brasileiros", e ainda a aceitação da perspectiva de "servir à Pátria", qualquer que fosse a posição social do educando.

( . .. ) "tanto vale o artesão que faz a louça como aquele que vai decorá-la; é tão importante o mecânico que conserta uma peça, quanto o comerciante que a vende ( . . . ) várias maneiras. de. servir ao pais." 14 o conceito de civismo englobaria erês aspectos considera­ dos cruciais: o caráter, que teria por base a moral e como fun­ dameneo a idéia de Deus; o

pacriotismo,

que se assentaria no

culto à Pátria e a ação, que teria a conseqüência prática, a ma­ terialização, pela auiuude, da ineeriorização de valores preesea­ be\<cidos. Nesse pareicular, o papel da religião eorna-se has­ tante relevanee: é ela que define uma correea escala de valo­ res.

o móvel caealizador dessa proposea políeico-educativa

é

a crença de que a ordem ineerna da sociedade brasileira esta­ ria sendo ameaçada por incursões de elemeneos e idéias esera­ nhas a ela. As noções de "froneeiras" e de "inimigo exeerno" ueilizadas pela aneropóloga Mary Douglas fornecem-nos uma fonte rica de ineerpretação para esse fenômeno: a idéia de que os conflieos presentes na sociedade eêm nma origem fora de seu campo de eserueuração, caracuerizando-se por nma een- 14 lbídem, p. 50.

tativa de ultrapassar as fronteiras do permitido socialmente. Os agentes dessa ação intervencionista, na medida que propi­ ciam o rompimento dessas fronteiras, são vistos como inimigos externos, que nessa qualidade acabam por ofender a ordem. Eliminá-los não é um movimento negativo; ao contrário, é um

esforço positivo para preservar a organização do ambiente ameaçado. O movimento de reordenação passa a ser a meta principal daqueles que se atribuem a tarefa de manter a esta­

bilidade interna. ( . . . ) "a ordem da sociedade é guardada por perjgos que ameaçam os transgressoresn .1ã

A idéia de desastre é catalogada de acordo com os prin­ cípios ativos envolvidos no universo de uma determinada cul­ tura. No campo político-ideológico no qual se insere a educa­ ção moral e cívica, a ameaça, o desastre, bem como seus agen­ tes propulsores, os inimigos externos ou os transgressores são identificados com a doutrina e a prática comunistas. Reconhe-' cido como "doutrina malsã" - portanto doente, insalubre, maligno, refratário a qualquer disciplina -, o comunismo não pode ser concebido como parte da sociedade. Nessa medida, não se acha sujeito às leis que a regem, sendo ao fim e ao cabo potencialmente contrário a ela. Essa constatação credita, àqueles que se atribuem a defesa da ordem, toda uma autori­ dade para impulsionar ações que eliminem sumariamente o inimigo.

(. . . ) "acredito que idéias sobre separar, purificar, demarcar e

punir transgressões têm como sua função principal impor sistematiza­ ção numa exp eriênc ia inerentemente desordenada. É so mente exagerando a diferença entre dentro e fora. acima e abaixo, fêmea e macho, com

e contra que um semblante d e ordem é criado." 16

Na reflexão sobre a ordem inclui-se o tratamento a ser dado às anomalias, ou seja, aos eventos que parecem desafiar

15- Douglas Mary. Pureza e perigo. São Paulo, Perspectiva. 1 976. Ver p. 13.

os pressupostos dessa mesma ordem. Recouhecer essas ano­ malias é o primeiro passo para se compreender o que é configu­ rado como poluição, sujeira, desordem. A etapa seguinte con­ sistirá na desenvoltura da ação saueadora, purificadora e or­ deira: a expulsão daquilo que, não pertencendo àquela cul­ tura, ameaça-a por uma presença indesejável, estranha e ma­ ligna. A idéia de fronteira é estritamente associada à idéia de ordem, porquanto sua ausência é própria do reino da desor­ dem. Essa, sim, não prevê limites, nenhum padrão é nela reali­ zado. Por isso é nociva aos modelos estabelecidos, que pressu­ põem a existência de limites e de padrões. Porque gerado na desordem, o inimigo externo simboliza perigo e poder. Ele pode encontrar dentro do sistema, inerentemente desordena­ do, como bem o disse Mary Douglas, um campo propício de fertilização, sendo esse o fundamento de seu poder. Enquanto desprovido de limites e de padrões, o inimigo deverá ser com­ batido por outros, ou por aqueles que os tenham.

"Parece que se uma pessoa não tem lugar num sistema sodal, sendo, por consegulflte, marginal, toda precaução contra o perigo deve partir dos outros. Ela não pode evitar sua situação anormal." 11

Quanto mais precárias forem as linhas internas de uma so­ ciedade, quauto mais frágeis os laços de solidariedade, mais as idéias de perigo, sujeira e poluição funcionarão para susten­

tá-las. O poluidor passa a ser o exemplo de ousadia e ameaça; ao mesmo tempo que cruza as frouteiras, coloca em risco ou­ tras pessoas. Será ele responsabilizado pelos conflitos, pelos de­ sajustes e pelas discórdias existentes. A obra de saneamento

social será garantida pela negação dos valores defendidos pelo trausgressor, e a tarefa de reconstrução da ordem vai consistir ua transmissão e posterior incorporação de valores contrários aos do inimigo externo. Nessa dimensão, colocam-se no pro­ jeto de educação moral e cívica os valores religiosos e espi- 17 Ibidem, p. 121.

rituais que devem fazer parte do cotidiano das pessoas, grupos e insuituições sociais para assegurar o equilíbrio, a harmoni­ zação, o pacifismo e a solidariedade na sociedade brasileira. São inúmeras as referências que reforçam a concepção de que o Brasil é um país que preza, alimenta e reprodnz cultural­ mente, pela tradição, valores como a cordialidade, o pacifis­ mo, a tranqüilidade. Esses valores internos e inerentes à so­ ciedade brasileira estariam sendo ameaçados por outros exter­ nos, consubstanciados no ateísmo materialista. Com a exclusão deste, seriam apagadas as fontes de antagonismos. A religião, nesSe momento, passa a ser o recurso fnndamental justificador dessa prática de não-violência com que é marcada, nessa tra­ dição de pensamento, a realidade brasileira.

Todas as diferenças étnicas, econômicas e sociais passam a ser dillúdas no âmbito da ideologia religiosa, que termina por influir numa concepção ideológica de política basuante difun­ dida, e que se fez elaborar plenamente numa concepção ideo­ lógica da natureza humana do "brasileiro". O desenvolvimento dessa concepção ideológica, como

salienton Bolívar La­ mounier, pode ser visto como uma resposta adaptativa ao po­ tencial de conflito inerente à sociedade. A idéia do "brasileiro pacífico", do uhomem cordial", ou ainda a nossa irresistível propensão conciliadora acabariam por explicar o que em ou­ tras circunstâncias poderia ser visto simplesmente como habi­ lidade na construção de alianças, ou mesmo habilidade políti­ ca,18

A ideologia religosa funciona como uma estratégia para iguaJizar os homens e é assumida como característica inata ao povo brasileiro, como Um componente inerente à índole do brasileiro. Em conferência proferida no primeiro congresso de educação moral e cívica, realizado em 1972 na cidade do Rio de Janeiro, o general Moacir Araújo Lopes exprimiu de forma 18 Lamounier. Bolivar. Ideologia conservadora e mudanças estrutu­

clara o que foi dito acima. Discursando sobre a formação da cultura brasileira, ele faz referências sobre a formação étnica do povo brasileiro e sobre o papel da religião como fator expli­ cativo do pacifismo e da cordialidade naturais a este povo.

"(o europeu português) elemento fundamental, doou à civilização brasileira, com sua formação biopsíquica, os símbolos culturais subje­ tivos das. velhas dvitizações. Esse grupo teve que enfrentar valores

culturais menos evoluídos dos índios, naturais da terra, e, logo em seguida, transportou para o mesmo cenário a cultura do negro." 19

Em seguida, atribui à religião, tida como um legado a mais do colonizador, a responsabilidade pela harmonia e soli­ dariedade étnicas aqui estabelecidas.

"Mas sempre com a vredQminânCÊa do espirito religioso dos grupos

étnicos formadores, evidenciado nos sentimentos de fraternidade, de benevolência e de solidariedade humanas, com que foi realizada a com­ preensão recíproca e com as quais foram recebidas, e amorosamente assimiladas, as contribuições étnicas posteriores." 20

A primeira colocação exprime de forma clara toda uma concepção de formação étnica baseada no caráter paternalista com que é caracterizada a atuação do colonizador português, ao mesmo tempo que se lhe confere uma superioridade sobre os demais grupos. Como decorrência da postura de pai e não de colonizador, transparece toda uma crença na atitude com­ preensiva e paciente do português para com os grupos indíge­ nas, reduzidos à qualificação de infantis. Foi ainda o portu­ guês quem transportou para a sociedade brasileira os negros que completaram o bloco diferenciado mas unido que veio a ser o povo brasileiro?' A harmonia entre unidades tão distin- 19 Lopes, Moacir Araújo, op. cito (1973), p. 47. (grifo nosso) 20 ldem.

21 O capítulo IV deste trabalho é reservado para a reflexão sobre o problema da democracia racial, um mito construído para forjar uma

tas pôde ser efetuada e construída em cima do ideal religioso, também esse trazido principalmente pelo português.

A religião vai ser um elemento crucial para a preservação e o bem-estar da sociedade. Ao mesmo tempo arma de pacifi­ cação e combate, harmoniza a relação dos grupos étnicos di­ ferenciados na cultura e na hierarquia social e dificulta a evo­ lução de, doutrinas malignas. Tem um duplo papel essa ideo­ logia relig,osa: não só isola os comunistas como transgresso­ res e perigosos, e no ato de isolamento reforça a unidade e o fundamento da religião, o seu oposto, como também age como um escamoteador das divergências reais e agudas da socieda­ de. Daí a grande incidência da religião em todos os documentos sobe EMC e ainda em praticamente todos os artigos dos de­ cretos promulgados para essa disciplina. O artigo 2.' do De­ creto-Lei 869/69, ao estabelecer os princípios doutrinários em que a EMC deverá se apoiar, deixa claro o papel que a reli­ gião desempenha nesse projeto:

"a defesa do princípio democrático, através da preservação do espírito religioso, da dignldade da pessoa e de amor à liberdade com responsabilidade, sob a inspiração de Deus",22

Dentro do discurso que fundamenta os princípios da EMC, a doutr.na marxista pode ser equiparada ao feiticeiro que Mary Douglas tão bem definin na análise de certas comunidades. En­ quanto algo que vem de fora do sistema, vai ser alvo de um tipo de acusação que tem por finalidade reafirmar os limites e a solidariedade do grupo. O feiticeiro raramente pode ser iden­ tificado, e a vítima atingida é objeto maior de atenção do que o agente do feitiço. E quando um elemento do próprio grupo recebe a acusação, ele passa em seguida a ser denunciado como intruso, como estranho, como alguém de fora. Na hipótese de 22 Lopes, Moacir Araújo. A educação moral e ch'íca no Brasil; pers­

pectil'as atuais. Goiânia, Universidade Federal de Goiás, 1971. 23 p. Ver p. 14.

ser o feiticeiro considerado um inimigo interno, o efeito da

acusação distingue-se do primeiro caso. A emergência desse inim.go implica a existência, dentro da comunidade, de duas facções. Os simbolos de ataque tendem a transformar o corpo da vítima uuma imagem de comunidade traída. Como mem­ bro da facção rival, receberá um tipo de acusação que fun­ ciona para redefinir os limites da facção contrária, dividindo portanto a comunidade e realinhando a hierarquia segundo as facções. Promovendo a rivalidade entre as facções, dividindo a comunidade e redefinindo a hierarquia constrói-se a arma de combate à facção rival com o objetivo de reforçar a unidade e obter a vitória da facção contrária?"

Dentro do modelo sobre o qual

estamos

refletindo, o co­

munismo acumula esses dois significados: ora é visto como

inimigo externo, um corpo estranho e deslocado do ambiente nacional, ora como inimigo interno, por já ter criado no sis­ tema uma rede de relações que resnltou na formação de uma facção rival. Assim, a arma de combate conserva uma face dupla. Por um lado, age no sentido de unificar toda a comu­

nidade em tomo de um ideário totalizante, retirando desse bloco qualquer espaço possível de legitimação para idéias con­ trárias. Por outro, na medida que se reconhece o inimigo como uma facção interna alimentada por

principias doutrinários

ma­ léficos, justifica-se toda uma est

r

atégia de punição e de elimi­ nação pela repressão daqueles que a ela aderirem.

O reforço à unidade e às linhas de solidariedade internas é feito através da utilização de categorias abstratas bastante abrangentes. Privilegiando-se constantemente categorias gené­ r�cas como "alma coletiva nacional", "povo brasileiro" e "in­ teresse nacional", os autores do projeto de EMC evitam nma discussão que efetivamente delimite o alcance dessas catego­ rias.

2S Doug]as, Mary. Witchcraft - confessions & accusations. Edinburgh, Tavistock Publications, 1970.

Na verdade, o que se estabelece é uma hierarqUia entre duas facções internamente homogêneas: uma ampla, totalízan­ te, que engloba a grande e esmagadora maioria da comunida­ de nacional e uma outra pequena, restrita a um grupo marginal controlado por mteresses estranhos à sociedade como um todo.

A primeira não traz em si conflitos, discórdias nem diferen­ ciações. As categorias abstratas diluem o que há de incongruen­ cias e disparidades na lógica desse discurso. Ao se falar em