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Como vimos nos tópicos anteriores, tão impossível quanto falar de uma unidade étnica para o Israel original, é falar de uma unidade religiosa para este mesmo Israel. Entender o contexto e prática religiosa deste tempo requer entender a prática de cada um dos grupos fundantes desta nação.

Os arameus, por exemplo, veneravam os “deuses dos pais”. Esta divindade não era associada a um local centralizado de culto, onde teoricamente teria se revelado pela primeira vez ao patriarca, mas sim pela pessoa a quem ela se revelara pela primeira vez. Esta apresentação da divindade em conexão com o nome do patriarca tinha a ver com suas experiências pessoais, isto é, cada patriarca teve uma experiência diferenciada com a divindade, e a divindade que se revelara a um patriarca não era inicialmente associada à mesma divindade que se revelara ao outro patriarca.

A peculiaridade de cada experiência ia conferindo singularidade a cada uma das revelações da divindade. Por isso, a lista vai ficando extensa: "Deus de Abraão", "Deus de Isaque", "Deus de Jacó", "Deus de teu pai". Aqui pode até se tratar de experiências hierofânicas distintas. De acordo com a descrição de Schwantes:

"[...] Estes títulos qualificam cada uma das experiências teológicas de modo diferenciado, permitindo-nos afirmar, em conseqüência, que efetivamente, se deve distinguir entre 'Deus de Abraão', 'Deus de Isaque', 'Deus de Jacó', porque se trata de três 'Deus de...', de três diferentes experiências e comunidades religiosas [...]" 27.

Schwantes elenca nove características principais do "Deus dos Pais": 1) é pessoal (vinculado à pessoa a quem se revelou), 2) é dinâmico (que age e intervém), 3) é familiar (ligado às realidades familiares), 4) é peregrino (que caminha com seus devotos), 5) faz promessa, 6) tem um culto particular, 7) é adorado na casa ou 8) no

27

SCHWANTES, Op. Cit., p. 78, (minha tradução). Conferir também VON RAD, Teologia

lugar onde estiver o altar, 9) não precisa de mediadores especializados na adoração. Como se vê, o deus dos patriarcas era um deus da intimidade da vida do clã e nele se revelava. Era o deus da família.

Quanto ao grupo sinaítico, este era o grupo que adorava ao Yahweh do Sinai. Schwantes afirma que a tradição de Yahweh como o Deus do Sinai é tão antiga e estreita que basicamente o Sinai identifica Yahweh e Yahweh identifica o Sinai28. O cântico de Débora em Jz 5, um dos textos mais antigos do AT, mostra de uma forma interessante como é que este Yahweh dos tempos tribais é percebido em Israel.

Yahweh não é uma divindade local como os diferentes baales. É um deus que quando tem que livrar seu povo ele ouve desde o Sinai e vem em seu socorro (Ex 3 e Jz 5). Sua manifestação também é muito ligada à terra dos midianitas e que depois veio a ser habitada pelos Edomitas. O sogro de Moisés, Jetro, é identificado como um sacerdote de Yahweh, e Moisés, por sua vez, teve um encontro com Yahweh em locais habitados por midianitas. Os beduínos de Edom também são associados com Yahweh, até mesmo em textos egípcios:

"Em um texto egípcio se menciona, ao redor do ano 1400, a 'terra dos beduínos de Yahweh'. Também outros textos egípcios se referem a estes beduínos. Um texto de aproximadamente 1200 a.C. alude aos beduínos de Edom, outros aos 'beduínos de Seir' [...] um texto egípcio chega a mencionar, lado a lado, a 'terra dos beduínos de Yahweh’ a terra dos ‘beduínos de Seir’[...]" 29.

Yahweh é imaginado como aquele que mora no Sinai. Deve-se peregrinar até lá para adorá-lo; é diferente do “Deus dos Pais” que acompanhava o clã em suas peregrinações. Suas manifestações estão conectadas com eventos espetaculares da natureza. O grupo sinaítico tinha por divindade este Deus Yahweh.

28

SCHWANTES, Op. Cit., p. 115.

29

Yahweh é identificado na tradição posterior do Judaísmo como o mesmo deus dos que guerrearam para tomar as cidades em Canaã (dos hapirus?); o mesmo deus que libertou os escravos do Egito, o mesmo deus dos pais. Esta identificação demonstra uma acomodação de distintas tradições religiosas sob a hegemonia da fé em Yahweh. Ao ser admitido como o deus comum de todos os grupos que compõem Israel, tanto divindade como povo passam a identificar-se mutuamente, isto é: Yahweh é o deus de Israel e Israel é o povo de Yahweh.

Dois elos principais conectaram os diferentes grupos constitutivos de Israel: 1) a experiência de libertação da opressão do Egito e 2) Yahweh – o deus que liberta, aquele que não é sustentado por aparelhos estatais compostos por governantes, no- breza e sacerdotes que massacram ainda mais os oprimidos com pesadas cargas de tributos e trabalhos forçados. E sobre isso devemos falar mais um pouco agora.

A religião das cidades cananitas bem como a dos hapirus que contra elas se rebelavam era marcada por um sistema de tributos. A cidade possuía um rei. Este por sua vez tinha a seu serviço uma administração, os nobres, o exército e por fim os sacerdotes. Para que havia sacerdotes? Era comum a associação do rei como um filho da divindade. A religião legitimava teologicamente a pessoa do rei. Era uma forma de estabelecer um compromisso dos súditos com o sustento da realeza. Os camponeses pagavam seus tributos com ofertas dos cereais que cultivavam e dos animais que pastoreavam. Ao distribuir a bênção divina sobre os súditos do rei, quando estes traziam suas ofertas aos templos, os sacerdotes vinculavam o rei à pes- soa de deus.

Este modelo havia saturado os camponeses e, em especial os hapirus. Suspeitamos que os hapirus adotaram uma religiosidade diferente, vinculada à guerra e à combates, e não apenas à agricultura como grande parte dos baales. Isto porque, adorar a divindade instalada nas cidades, era comungar com o sistema de opressão normatizado pelo tributarismo e pela religiosidade cananita.

Concluindo a análise sobre o contexto religioso, percebemos que a religião não era unificada, assim como a etnia também não era. Não existia um só deus, o Israel original não era monoteísta, não era etnicamente puro, não tinha uma lei unificada que possa regular a religião, mas era um ajuntamento de vários grupos humanos, com

religiosidades diferentes que se acomodaram sob uma tradição de libertação que se transformou na memória fundante da nação. É importante então conhecermos um pouco da pesquisa sobre as origens de Israel e perceber como este ajuntamento se tornou uma só nação.