A partir do cenário traçado nos tópicos anteriores, podemos avançar um pouco sobre o surgimento da nação Israelita. Muitas narrativas bíblicas, reputadas como incontestáveis durante tantos séculos de história da igreja foram seriamente questio- nadas com os estudos mais recentes sobre a formação de Israel. Todavia, o surgimento da nação Israelita continua sendo um fenômeno complexo.
Alguns crêem numa unidade racial inicial, outros acreditam que, aquilo que uniu os diversos grupos sociais sob a forma de nação Israelita teria sido a prática comum do pastoreio de gado. Outros ainda acreditam que, na verdade, Israel formou-se de uma insurreição camponesa.
" [...] todos reconhecem uma diversidade de elementos na formação da nação de Israel e que, portanto, todas as teorias têm uma parcela de verdade. O que está em jogo ao optar por uma delas é saber qual o elemento que contribuiu na formação da unidade da nação tribal de Israel" 30.
A seguir faremos um resumo das teorias sobre o surgimento da nação, registrando na conclusão um breve levantamento do estado da questão sobre a História de Israel na pesquisa atual.
1.5.1. Teoria da unidade racial e conquista de Canaã
A teoria de que Israel surgiu através da conquista de Canaã, por um grupo de descendentes de um tronco familiar único, vindo do Egito, liderado primeiramente por Moisés e por fim por Josué, tem sido defendida por vários pesquisadores. Entre
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eles encontram-se: William Foxwell Albright (1891-1971), George Ernest Wright, Yehezkel Kaufmann31 (1889-1963), Nelson Glueck, Yigael Yadin, Abraham Ma- lamat e John Bright (1908 - 1995). Os maiores nomes desta teoria são Kaufmann e Bright e a origem da mesma é norte-americana e judaica.
Considera-se basicamente que havia muitos vínculos familiares entre as tribos, o que justificaria a união das mesmas. Gottwald nos esclarece que, após a I Guerra Mundial, a Teologia Bíblica tentou mediar o debate entre o método histórico-social e o teológico visando defender a unicidade original de Israel32. Embora grande parte dos pesquisadores já tivesse chegado ao consenso de que os patriarcas não provinham de um único tronco familiar, estes pesquisadores continuaram caminhando nesta direção e até hoje as escolas mais tradicionais ainda fazem desta teoria seu ponto de apoio.
A revisão sobre a História de Israel enquadra esta teoria dentro da vertente maximalista, que defende que, tudo nas fontes bíblicas que não pode ser atestado como falso deve ser aceito como histórico. Essa foi a corrente adotada pela grande maioria dos estudiosos na América Latina ainda nas décadas de 70 e 80 do século passado.33
1.5.2. Teoria da unidade pela prática pastoril e ocupação pacífica
Uma segunda teoria diz que a nação Israelita seria resultado da aglomeração dos diversos grupos nômades que praticavam pastoreio de rebanhos. Esta teoria foi defendida, entre outros autores, pelos alemães Albrecht Alt e Martin Noth e mais recentemente por Lemche e Finkelstein34. Ela postula que, a oposição entre Israel e Canaã devia-se ao fato de os israelitas serem pastores e os cananitas, agricultores. Uma convivência inicialmente pacífica teria sido prejudicada pelos interesses
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A disposição das teorias a seguir amplia a discussão iniciada em PIXLEY, História de
Israel a partir dos pobres, p. 74ss, com contribuição da revisão de SILVA, Airton José em:
http://www.airtonjo.com/historia16.htm acessado em 27/05/2006 ; as datas de vida dos pesquisadores foram extraídas da Revista Judaica: http://www.judaica.com.br/materias/062_09a13.htm, acessada em 27/05/2006.
32
GOTTWALD, Norman. As tribos de Iahweh, p. 670-677 e GOTTWALD, Norman.
Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica, p. 251-272. 33
SILVA, Airton José. A história de Israel na pesquisa atual. p. 67.
34
SERENO, Samuel Goulart. A terra prometida: Um estudo histórico-social da formação de Israel a partir da instalação, p. 16.
comuns de grupos com objetivos totalmente opostos em relação à terra. Como já dissemos anteriormente, agricultores cultivam, ovelhas destroem.
Esta teoria é parcialmente acatada por Pixley e Donner. Donner menciona que: “[...] ao longo do tempo ocorreu [...] uma coexistência pacífica entre Israel e Canaã, e mais ainda: uma fusão e amalgamação que, por sua vez liberaram forças contrárias [...] ” 35 .
De acordo com esta teoria, os registros dos conflitos entre criadores de gado e camponeses, como o caso de Abraão em Gerar (Gn 20), e as disputas de poços entre Isaque e os habitantes de Berseba (Gn. 26,15-25) seriam um retrato desta situação. Os conflitos de disputas pela terra descritos em Js 1-11 seriam, na verdade, registros de outros conflitos como estes, de proporções ainda maiores e de outras épocas. Esta teoria também tem suas limitações, pois não se conhece, na história, povos que tenham se dedicado exclusivamente ao pastoreio de rebanhos ou exclusivamente ao cultivo da terra, sendo impossível determinar que Israel tenha sido original de apenas um destes segmentos.
1.5.3. Teoria da insurreição camponesa
A teoria da Insurreição Camponesa é a mais recente das três e foi elaborada primeiramente por Mendenhall e revisada por Gottwald36. Ela postula basicamente o seguinte: o Egito, a potência político-econômica da época, mantinha com os reis das cidades cananitas uma relação de vassalagem. O faraó sobrecarregava seus vassalos com pesados tributos, mas em contrapartida não oferecia a proteção aos reis cananitas contra os outros povos, que sempre disputaram o poder na região. Para atender às exigências dos faraós, os reis das cidades cananitas exploravam duramente as populações camponesas que viviam nas aldeias.
35
DONNER, Op. Cit. p. 64 e PIXLEY, Op. Cit., p. 16 e 17.
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A obra na qual se fazem presentes todos os elementos que compõem esta teoria é GOTTWALD, As Tribos de Iahweh, p. 201 - 238.
De acordo com Pixley, as aldeias, que eram a base da sociedade, podiam sobreviver tranqüilamente sem reis ou estruturas estatais que demandavam tributos. A insurreição camponesa teria sido uma reação destas aldeias/tribos contra os reis das cidades-estado cananitas subordinadas ao faraó no Egito, defendendo o estabelecimento de uma sociedade camponesa igualitária.
Esta teoria tem a vantagem de explicar e justificar a forma pela qual o evento da libertação do Egito passou a ser memória histórica comum de todos os povos e grupos humanos que compunham o Israel das origens. O questionamento a esta teoria se dá pela ausência de textos veterotestamentários que falem clara e especificamente destas insurreições camponesas em Canaã.
Estas três teorias resumem basicamente todos os estudos realizados pelas ciências da Bíblia em relação às origens de Israel e também são adotadas pelos exegetas das correntes tradicionalista, estruturalista e histórico-social. A análise dos grupos humanos fundadores de Israel nos mostra que elementos das três teorias estiveram presentes na formação da nação. Entre parte do antigo Israel deve ter havido relações de parentesco, uma outra parte deve ter sido unida pela prática pastoril e dentre eles havia, de certo, os hapirus/ camponeses revoltosos com o sistema imposto pelas cida- des-estado de Canaã.